Ponto de vista
A terceira via?
Políticos trabalham com um olho no relógio e o outro nos movimentos dos aliados e adversários. A morte de Eduardo Campos deixou perplexa a classe política, mas também é ingenuidade apostar que não se pensou em corrida presidencial. Assim que o funeral terminar, as conversas saem das sombras para serem compartilhadas, em parte, nos holofotes.
A pergunta inicial é conhecida por todos: Marina Silva será a candidata à Presidência da República pelo PSB? O partido corre contra o tempo. O prazo de escolha de candidato ou não termina no próximo final de semana, dia 23.
É tão cedo quanto temerário colocar fichas nela. Para os apressados, ela seria a terceira via, a única capaz de sacudir a polarização da campanha eleitoral entre Dilma Rousseff e Aécio Neves. O ponto negativo desta leitura é que, até o momento, Marina não fez diferença na campanha.
A candidata à vice na chapa de Eduardo Campos não conseguiu reverter a paralisia na corrida. Campos patinava nas pesquisas eleitorais sem incomodar Aécio, quanto mais servir de peso na balança para o segundo turno.
Marina Silva foi uma cartada pessoal de Campos. Os batalhões da Rede e do PSB mal se entendem. Marina cumpria o papel de vice, sem interferir no brilho do ex-governador de Pernambuco, enquanto tentava agregar apoios com base em sua credibilidade e no lastro de 20 milhões de votos na última eleição.
O outro lado é que, se for anunciada como candidata à presidência, Marina Silva ganha outro status na mesa de pôquer. É o monstro fora do armário. Obviamente, ela tentará mexer na agenda política, com alterações substanciais no programa de governo.
O PSB permitiria que o convidado ilustre da festa virasse o anfitrião durante o evento? E até que ponto as lideranças regionais aceitarão ordens de um novo general em comando?
Além disso, não há garantias de que Marina Silva não abandone o PSB assim que o registro da Rede for efetuado, num hipotético governo. Marina confirmaria as críticas iniciais, inclusive internas, de que o PSB seria uma legenda de aluguel?
Não existem também certezas sobre os efeitos que Marina poderia causar na disputa. Qualquer prognóstico é chute de vidente charlatão. As pesquisas eleitorais, que retratavam outro momento, indicavam que Marina poderia incomodar Dilma e até chegar a um segundo turno.
É ainda ingênuo esperar que haja transferência completa de votos e de apoios, assim como se torna impossível medir o fluxo das migrações e da perda de votos entre os representantes do PT e do PSDB. Teoricamente, ela teria mais força do que Eduardo Campos.
A indecisão neste instante tem impacto direto na Baixada Santista. O candidato a vice-governador na chapa de Geraldo Alckmin, Marcio França, é a principal liderança do PSB em São Paulo. Ele conseguiu se recuperar da derrota nas eleições municipais em 2012, aproximou-se mais de Campos, tentou capitalizar para si o acordo com Marina Silva e ainda cultivou com bons frutos a relação com o governador de São Paulo, que apoia Aécio Neves.
França seguirá o pedido do irmão de Eduardo, Antônio Campos, para que o partido siga com Marina? O mesmo aconteceu com cinco partidos da coligação. Como ficará a liderança dele, com a turma de Marina com maior controle? Qual papel terá na costura de uma corrida que voltou ao zero? E como ficará dentro da chapa de Alckmin, em outra eleição, com cenário distinto?
A próxima semana definirá até que ponto haverá dança das cadeiras e quem sairá do baile. Enquanto a música não toca, pulsam as avaliações discretas de perdas e ganhos.