Ponto de vista
“A gente só qué passá!”
Adilson Luiz Gonçalves
O trânsito caótico não é “privilégio” das metrópoles: cidades médias já sofrem com ele!
A maior vítima desse contexto é a mobilidade urbana, com implicações diretas no comportamento das pessoas.
Como alternativa para “fugir” dos congestionamentos, profissionais e empresas recorrem às motocicletas, que se transformaram em meio de vida para muitos, criando até novas funções, como os “motoboys”, hoje sinônimo de “delivery”.
Isso é ótimo para os clientes, mas a baixa remuneração por entrega, associada à irresponsabilidade de alguns de seus condutores, tem aumentado dramaticamente o índice de acidentes com motociclistas, inclusive fatais ou incapacitantes.
O “marketing” da “sensação de liberdade” sem limites também contribui para esse quadro, pois a publicidade parece ter subido à cabeça de alguns motociclistas, que perderam completamente a noção de perigo.
Faixas exclusivas são criadas, mas desrespeitadas. O trânsito está parado, mas alguns insistem em pilotar sobre as faixas divisórias, em alta velocidade; ultrapassando pela direita, inclusive em cruzamentos, com direito a “fechadas” e “costuradas” monumentais, e condução na contramão e sobre calcaças.
A frase do personagem “motoboy”, de Marco Luque, exemplifica perfeitamente a irresponsabilidade de alguns deles: “A gente só qué passá!”.
A impunidade também contribui para essa escalada de abusos e acidentes, pois carros e caminhões são objetos de legislações rigorosas sobre trânsito e emissão de poluentes, que ainda não foram estendidas às motos, ou a fiscalização faz “vistas grossas”.
Irresponsabilidade análoga também pode ser encontrada em motoristas e ciclistas, e incentivar tipo “A” ou “B” de veículo não significa tolerar indefinidamente atos inseguros ou ilegais.
Outro dia, presenciei uma cena que demonstra bem essa inconsequência “cultural”:
Estava com meu carro parado no sinal, quando escutei um ruído na lataria. Olhei e vi que um motociclista havia se enfiado entre o meu e o carro ao lado.
Havia três pessoas sobre a moto: o piloto, uma mulher e, entre eles, uma criança. O piloto, após passar, começou a mexer no pé da criança que, espremida entre os dois, tinha as pernas mais abertas.
Fora o pé da criança que havia batido no carro! Dependendo da situação e velocidade, ela poderia ter sofrido uma fratura gravíssima!
Para piorar, ela estava sem capacete!
Quando o sinal abriu, o piloto partiu, ziguezagueando, o que me inspirou cuidado ainda maior para ultrapassá-lo.
Alertei e passei a uma distância segura, para constatar que, como se não bastasse, o condutor pilotava com uma mão, enquanto falava ao celular. E continuou assim ao entrar numa rua, sem preferência, cruzando-a sem reduzir velocidade.
Irresponsabilidade análoga também pode ser encontrada em motoristas e ciclistas, e incentivar tipo “A” ou “B” de veículo não significa tolerar indefinidamente atos inseguros ou ilegais.
Para coibi-los, campanhas de orientação são indispensáveis, porém, é fundamental acabar com essa impunidade festiva e potencialmente mortal.