Memória Santista
Sergio Willians

É jornalista e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras. Também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Túnel Rubens Ferreira

26 de agosto de 2015 - 08:00

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Era 22 de dezembro de 1949. As primeiras máquinas perfuratrizes contratadas pela Secretaria de Viação do Estado de São Paulo se acomodavam nas proximidades da velha igreja de São Francisco de Assis, a mais antiga edificação daquelas encostas de morro que seriam literalmente “cavadas” para materializar um sonho que se arrastava há 50 anos: a ligação viária direta do centro da cidade com a zona da orla praiana.

O tão desejado túnel era um benefício que atenderia não só a população santista, que teria sua vida facilitada quando da necessidade de acesso à nova Santa Casa (inaugurada em 2 de julho de 1945), como também ao fluxo cada vez mais intenso de turistas oriundos da capital e do interior, muito em função da novíssima Rodovia Padre Anchieta (cuja primeira pista – a norte – havia sido inaugurada em 22 de abril de 1947). O atalho, assim, era o remédio ideal para curar os dissabores dos que desejavam chegar à orla praiana santista sem precisar “dar a volta” no Monte Serrat e atravessar os “atribulados” bairros da Vila Nova e Vila Mathias. Enfim, era um anseio de milhares.

Primeiro sonho, não realizado
O pioneiro em querer “bancar o tatu” naquele trecho da cadeia de morros santista foi o cidadão Benjamin Fontana, justamente o homem que daria seu nome àquele pedaço da cidade. Proprietário de parte das terras que compunham a encosta do morro, entre o Monte Serrat e o São Bento, Fontana requereu permissão à Câmara Municipal, na década de 1890, não só para construir um túnel que atravessaria a “massa montanhosa”, como também para assentar trilhos para uma futura linha de bondes. Apesar de interessante, era uma ideia bastante ousada para a época, muito em função da necessidade tecnológica que precisaria dispor. A obra deveria ocorrer nas proximidades da Casa da Pólvora. O caso foi levado para análise da Comissão de Obras e Viação da Câmara, apreciada na sessão de 20 de maio de 1896. Foi pedido ao empresário que apresentasse o projeto e as plantas de obras, para dar continuidade ao processo. Porém, deduz-se que Fontana não tenha conseguido contratar tais estudos, uma vez que o projeto não vingou. O caso foi arquivado, mas o desejo continuou na mente dos santistas.

Novas discussões nos anos 1930 e 1940
Na gestão do prefeito Antônio Iguatemi Martins (1936-1938) , o assunto voltou à baila. O túnel tornava a ser objeto de estudos, porém, além de permanecer esbarrando nas questões de ordem técnica, também era encarado como uma obra de gastos incompatíveis ao saldo de caixa da Prefeitura. Assim, os anos se passaram e os prefeitos que governaram a cidade após Iguatemi Martins optaram em não “mexer no vespeiro”, até que, em 1947, Rubens Ferreira Martins decidiu encarar a situação.

Assumindo a “bronca” com solução ideal

Rubens Ferreira Martins, que conduziu a cidade de 1947 a 1950, decidiu tomar para si a responsabilidade de construir o tão sonhado túnel no Morro do Fontana, mesmo sob a chuva de protestos da maior parte dos vereadores, que não via como prioridade tal obra. Longas discussões se deram na Câmara Municipal. Num dos pareceres, informou-se que a cidade contabilizava cerca de 170 quilômetros de ruas não pavimentadas e que isso, sim, seria mais relevante do que dispender um “rio de dinheiro” para um único projeto, que atenderia mais aos turistas do que aos santistas.

Ferreira Martins, então, encontrou uma solução. Cobrar o Governo do Estado, que devia ao município cerca de 16 milhões de cruzeiros. E assim foi. Por meio da Secretaria de Viação, a dívida seria paga com a realização da obra, que deveria durar dois anos, mas devido a problemas de ordem financeira, acabou se estendendo por mais quatro. A primeira pista foi inaugurada em 6 de setembro de 1954. A segunda, em 23 de dezembro de 1955. Ambas pelo prefeito Antônio Ezequiel Feliciano da Silva (o primeiro eleito desde o Estado Novo de Getúlio). Finalmente, Santos ganhava um atalho para as praias.

Homenagem póstuma
Rubens Ferreira Martins foi homenageado pelos santistas em 1963, quando teve seu nome escolhido para nominar os dois túneis sobre o Morro do Fontana. Esta deferência foi acolhida pela Lei 2.756, de 11 de novembro de 1963, criada pelo então prefeito José Gomes, e aprovada na sessão da Câmara de 4 de novembro daquele ano. Martins morreu em 6 de novembro de 1962.

*Texto reproduzido do site Memória Santista