Ponto de vista
Um pedaço de museu
Com a aproximação da
Copa do Mundo, o patriotismo brasileiro, centrado nos esportes e
eventualmente na cultura, se sobressai como regra, o que implica na
necessidade do culto aos clichês. Expressões como melhor futebol do mundo,
pátria de chuteiras, time de guerreiros, 200 milhões de corações na ponta
da chuteira viram mantras para parte da mídia, interessada é claro nos
dividendos comerciais da competição.
De
carona, a classe política se aproveita da conjuntura favorável para torrar
dinheiro em propaganda e adaptar o discurso do ame-o ou deixe-o. Em Santos,
descontando as expectativas de casa cheia e de lucros exorbitantes – por
conta das seleções do México e da Costa Rica, a promessa de gol de placa é o
Museu Pelé. O lugar virou o camisa 10 com o perdão do trocadilho – de mais
uma onda de progresso vestido de especulação.
O Museu Pelé é, de fato, um símbolo desta época de Copa do
Mundo. Simboliza como o comportamento da classe política se repete em blefes,
independentemente de qual seleção partidária os jogadores defendem por baixo
dos ternos e das gravatas.
A estratégia de jogo é sempre sujeita a adaptações, ainda que
as mudanças sejam de improviso. A palavra planejamento, por exemplo, não
aparece no vocabulário. As obras do Museu Pelé estão atrasadas dois anos. O
custo dobrou: de R$ 20 milhões para R$ 40 milhões. O anúncio aconteceu em 2007,
mesmo ano em que o Brasil foi escolhido como sede.
Além disso, o museu não será inaugurado completo. Quando
assumiu a Prefeitura, Paulo Alexandre Barbosa disse que a obra estaria pronta
antes da Copa. O discurso foi reforçado até janeiro deste ano, minimizando as
dúvidas colocadas pelos jornalistas.
Na semana passada, o secretário municipal de Turismo, Luiz
Dias Guimarães, afirmou que o Museu Pelé não abriria as portas com todos os
setores concluídos. Em outras palavras, o museu será inaugurado por volta de 9
de junho, com maquiagem definitiva ou de oportunidade. Até agora, a Prefeitura
não bateu o martelo sobre quando cortará a fita.
A questão não é somente política. É matemática. Quando
faltavam 104 dias para a abertura da Copa, o Diário Oficial de Santos publicou
o cronograma de serviços do museu. A Eletrowal teria 120 dias para implantar a
entrada de energia. A Viabiliza Engenharia e Construções, 100 dias para
instalar pisos, tampos e bancadas de granito. Já a P.D da Silva Rocha, 90 dias
para instalar os pisos de mármore. E a HJI Instalações, também 90 dias para
colocar o forro metálico. Diante do histórico de atrasos, basta fazer as
contas.
O acervo, que precisa ser organizado conforme normas
museológicas, engrossa a lista de dificuldades. Fora a organização das peças,
viabilizar o museu é um processo que implica também na contratação e
capacitação de pessoas, envolvendo toda a hierarquia, mais projetos paralelos
de fundo educacional.
Nos
intervalos da obra, as promessas em campo. O secretário estadual de Turismo,
Claudio Valverde, prevê que o Museu será o ponto mais visitado do Estado de São
Paulo, superando o Zoológico da Capital. É como chutar quem será o campeão da
Copa, em 13 de julho.
O Museu Pelé vai entrar no ritmo carnavalesco que contamina
a Copa do Mundo. A tática é previsível. Festa, sorrisos, juras de amor à pátria,
políticos em torno do rei (se ele aparecer!). Pagaremos a conta após o apito
final, por um espaço que precisará de reparos tão logo nasça para o público. Um
golaço, só que contra.