Um romance das profundezas da floresta | Boqnews

Ponto de vista

19 de fevereiro de 2018

Um romance das profundezas da floresta

 

I

             Terceiro romance de Nicodemos Sena (1958), A Mulher, o Homem e o Cão (Taubaté-SP, Editora LetraSelvagem, 2009) não só confirma o talento do seu autor como, ao lado de seus livros anteriores, é, desde a sua publicação, obra de referência para o estudo temático da vida das populações marginalizadas da Amazônia (indígenas e caboclos) na Literatura Brasileira.

             Por seu estilo ímpar, o autor já foi comparado a grandes ficcionistas brasileiros, como Graciliano Ramos (1892-1953), Mário de Andrade (1893-1945), Érico Veríssimo (1905-1975), Guimarães Rosa (1908-1967) e João Ubaldo Ribeiro (1941-2014), e a importantes ficcionistas latino-americanos, como o paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005) e o peruano José María Arguedas (1911-1969).

             A exemplo do que fez Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, com a figura de Riobaldo, o personagem-narrador de A Mulher, o Homem e o Cão fala diante de um suposto ouvinte sobre as suas vivências no meio da floresta amazônica, discorrendo histórias fantásticas, com ele ocorridas e com sua família, que estão perpassadas por mitos regionais e bíblicos. 

             Em outros momentos, o narrador-personagem, cujo nome não se conhece, reproduz para o seu suposto ouvinte o que a esposa lhe contara sobre um diálogo que tivera com um homem desconhecido, que seria o “coisa ruim”, uma criatura fantástica e camaleônica que acaba por gerar os conflitos quer perpassam o romance.

            Na verdade, como diz o protagonista-narrador logo no início da narrativa, ele, a mulher e seu menino (que, como as crianças-personagens de Graciliano Ramos em Vidas Secas, não tem nome) –  e também o cão que apareceu depois – viveram uma vida feliz em meio aos mistérios da selva, até que algo de estranho aconteceu, ou seja, o aparecimento de uma criatura diabólica, de voz doce e melodiosa, que teria atraído para a água do rio a sua esposa com propostas soezes.

II

             Para a professora Christina Ramalho, doutora em Semiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autora do prefácio, A Mulher, o Homem e o Cão constitui um caleidoscópio, “cujas imagens brotam da associação constante e mutável de pequenos triângulos simbólicos que encerram em si significados próprios logo transgredidos e transformados por outros, trazidos pelo movimento contínuo do brinquedo”.

             Já a professora Dirce Lorimier Fernandes, doutora em História Social pela Universidade de São Paulo (USP), no posfácio que escreveu para este livro, observa que “o fantástico e o inverossímil circulam na obra toda, ora na produção de diálogos simples, ora em conjecturas profundas, ora em diálogos mais filosófico-religiosos”. E lembra que “a erudição da obra não tem fim”.

             De fato, o romance está impregnado por textos sagrados. Por exemplo: a mulher, personagem que tem relações amorosas com o “coisa ruim”, sente-se como Eva expulsa do paraíso, nua, depois de ter sido enganada por Satanás disfarçado de serpente, tal como se lê no primeiro livro de Moisés chamado Gênesis da Bíblia Sagrada.

            Já o homem, como observa o crítico Oscar D´Ambrosio, autor da apresentação que consta das “orelhas” do livro, é o elemento que interage com a mulher e com o mundo de maneira complementar. “Se há entre eles a paixão, também permeia essa relação uma certa rivalidade e competitividade”, diz, acrescentando que o cão evoca diversas ambiguidades, pois, muitas vezes, relacionado ao diabo, por outro lado, também é visto como o melhor amigo do homem.

             Em nota aposta ao final do livro, o autor recorda que, para escrever este romance, conheceu as lições da alquimia, sondou livros de caça às bruxas e de bruxarias e perquiriu os símbolos da mitologia.

             “Nem por isso me atribuo a condição de guru – de embusteiros já anda cheio o mundo”, diz. E acrescenta: “Ao descrever a maneira soez com que o diabo tentou a mulher, não tive o propósito de agravar-lhe o estigma ou escandalizar o leitor cristão.

             Pretendi fazer uma obra de ficção que envolvesse a imaginação numa e experiência de suspensão e descrença, pois me interessa tanto a onipotência de Deus quanto a fragilidade do humano”.

III

             Nicodemos Sena, nascido em Santarém do Pará, viveu em seu Estado natal até 1977. Em 1978, passou a residir em São Paulo, onde bacharelou-se em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e, mais tarde, em Direito pela Universidade de São Paulo (USP).

             No início de 2000, recebeu convite para dirigir a redação do jornal A Província do Pará e a principal editora de Belém, a Cejup, trabalhando na capital paraense até o fim do ano, quando retornou a São José dos Campos-SP.

 

             Insatisfeito com os primeiros contos que escreveu, dedicou-se a um projeto mais amplo, um romance que resultou na magnífica saga amazônica A Espera do Nunca Mais, de 870 páginas, editado pela Cejup, em 1999, seu livro de estreia.

             O livro, com suas lendas e mitos, mistério e sortilégio, matas e rios, igarapés e igapós, rendeu ao seu autor em 2000 o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 anos, da União Brasileira de Escritores (UBE), seção do Rio de Janeiro.

             Em 2003, saiu à luz o seu segundo romance, A Noite é dos Pássaros, igualmente recebido com entusiasmo pela crítica, publicado em forma de folhetim, em dezoito episódios semanais, de 3 de abril a 31 de julho, no jornal O Estado do Tapajós, de Santarém, e na revista eletrônica portuguesa TriploV. Ainda em 2003, A Noite é dos Pássaros foi publicado em formato livro (Editora Cejup, 136 pág.).

             No mesmo ano, fragmentos de A Noite é dos Pássaros foram publicados na revista Palavra em Mutação (n º 2) e no site Storm Magazine,  ambos de Portugal. Ainda naquele ano, A noite é dos pássaros conquistou o prêmio Lúcio Cardoso, da Academia Mineira de Letra,s e, em 2004, recebeu menção honrosa no prêmio José Lins do Rego, da UBE, seção do Rio de Janeiro. 

             Nicodemos Sena é nome reconhecido fora da Amazônia, tornando-se verbete na Enciclopédia de Literatura Brasileira, direção de Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa (edição conjunta da Global Editora, Fundação Biblioteca Nacional e Academia Brasileira de Letras, 2ª edição, 2001).

             Em 2007, Sena criou a editora a LetraSelvagem, que tem como objetivo incentivar o gosto pela leitura e promover a linguagem literária, além de desenvolver atividades que estimulem a tomada de consciência pelas populações, povos e etnias submetidos a qualquer tipo de dominação.

             É ainda meta da editora defender a produção literária, especialmente a brasileira e latino-americana, em face dos problemas decorrentes da economia “globalizada” e dos interesses do capitalismo predatório, além de apoiar, produzir e incentivar gestões direcionadas ao resgate cultural das populações, povos e etnias marginalizados, visando à democratização do acesso aos bens culturais.

             Em 2017, Sena publicou pela editora LetraSelvagem Choro por Ti, Belterra!,  obra escrita em prosa poética e formada por 19 episódios, em que reconstitui o dia em que fez viagem de retorno às origens, em companhia de seu pai, depois de um percurso de algumas horas pela rodovia Santarém-Cuiabá, até entrar numa estradinha de terra que leva à Estrada Um e, enfim, às ruínas da cidadezinha de Belterra.

             Na década de 1940, a cidade fora dirigida pela Ford Motor Company, empresa do magnata norte-americano Henry Ford (1863-1947), que, em plena Segunda Guerra Mundial (1939-1945), tentaria fazer da extração da borracha uma atividade lucrativa, fornecendo os pneumáticos necessários para movimentar os veículos militares.

 

A Mulher, o Homem e o Cão, de Nicodemos Sena, romance, com apresentação de Oscar D´Ambrosio, prefácio de Christina Ramalho e posfácio de Dirce Lorimier Fernandes. Taubaté-SP: Editora Letra Selvagem, 152 páginas, R$ 30,00, 2009. E-mail: [email protected] Site: www.letraselvagem.com.br

Da Redação
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