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24 DE FEVEREIRO DE 2022

Vampiros do cotidiano

Adilson Luiz Gonçalves

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O Príncipe Vlad Drakul (1431-1476), conhecido como Vlad, o Empalador, serviu de inspiração para o livro Drácula (1897), de Bram Stoker (1847-1912).

Não consta que ele tenha sido um bebedor de sangue contumaz, como sugere a obra literária, mas era um sanguinário contundente, cruel com seus adversários, que o digam os otomanos.

Drácula tornou-se um personagem lendário, embora nada tendo a ver com o nobre romeno. E não só ele como a figura do vampiro, retratada em filmes clássicos, como: Nosferatu (Alemanha, 1922), Drácula (EUA, 1931), a sequência da Hammer e outros, que popularizaram e consagraram atores como: Max Schreck, Béla Lugosi e Christopher Lee, para citar os mais antigos.

Mas consta que foi uma mulher, a nobre húngara Elizabeth Báthory (1560-1614), quem melhor teria exemplificado a “sangolatria” ou o vampirismo com propósitos nefastos, os quais pouparei detalhes aos eventuais leitores. Para variar, como é praxe entre poderosos, ela não foi punida efetivamente por seus crimes, mas isolada em um palácio, para não voltar a cometê-los, ou até caducarem, ambos. Uma impunidade pra lamentar.

O enredo da lenda sempre tem um líder, que vai mordendo pescoços e escolhendo alguns para servi-lo, ou seja, um bando que vive de obedecer ordens e também sugar o sangue de terceiros.

Para afastá-lo é preciso de alho, água benta ou uma cruz. Mas, para acabar com o bando de uma vez, é preciso expor o líder ao sol ou cravar-lhe uma estaca de madeira no coração.

Outro fato curioso é que os vampiros não têm sua imagem refletida no espelho.

No entanto, isso é só lenda… Ou não?

Será que existem vampiros de verdade?

Tenho absoluta certeza que sim! Eles estão presentes no cotidiano, andam de dia e é fácil encontrá-los. Basta um olhar um pouco mais atento.

Eles também têm um líder e vivem em bandos, em função dele. Podem não sugar o sangue os outros, literalmente, mas o fazem tirando-lhes o prazer de viver, de trabalhar, a esperança, a liberdade, roubando-lhes oportunidades, tratando-os como serviçais, às vezes de forma desumana, “empalando” suas vidas.

Um de seus lemas é: “Meus erros são seus e seus acertos são meus!”.

Em suma, sugam as energias dos outros, o que também é uma forma de vampirismo, sob forma dos vários tipos de assédio, às vezes com consequências piores do que uma anemia.

Desta forma, por oportunismo, quase sempre sem merecimento, criam uma imagem de si próprios e pública que, como se diz das aparências, engana.

E passam a acreditar tanto nela, que nenhum espelho os faz se enxergarem como realmente são. E quando sua verdadeira imagem é relavada à “luz do sol”, se escondem atrás da “capa” ou se encerram em seus “caixões”, de maneira que, mesmo quando defenestrados, é difícil cravar-lhes uma “estaca”. Afinal, eles via de regra também são subordinados a outros vampiros.

Existe uma hierarquia vampiresca que, infelizmente, é da natureza humana: menos da teorizada por Montaigne, mais da descrita por Orwell.

Mas há uma diferença significativa: água benta, cruzes e alho não os afetam, pois muitos até frequentam templos religiosos e adoram comida francesa.

Assim, embora não de forma tão sanguinolenta como na lenda, vampiros existem, sim! E alguns fariam Drácula, Nosferatu e Lestat parecem gentis morceguinhos vegetarianos.

Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro, escritor e membro da Academia Santista de Letras

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