Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Violência interminável

Traficantes agora demonstram a firme disposição de resistir à polícia, colocando sob dúvida a real capacidade do Estado no combate à ciminalidade

10 de julho de 2016 - 10:29

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Relatório divulgado esta semana pela organização Human Rights Watch, com base em dados do Instituto de Segurança Pública, deu números a uma realidade preocupante que a cada dia ganha dimensões maiores: somente no Rio de Janeiro, no ano passado, 645 pessoas foram mortas em ações envolvendo as polícias Civil e Militar, enquanto que, no mesmo período, 23 policiais militares e três policiais civis foram mortos em serviço. Ou seja, para cada policial assassinado naquele estado, em 2015, outras 25 pessoas morreram em decorrência de intervenções policiais.

Há muito se sabe as razões que levaram ao crescimento exponencial dos índices de violência nas cidades brasileiras, hoje comparáveis a de uma guerra declarada. Dispostos ao enfrentamento com os policiais, as quadrilhas estão organizadas e equipadas com armamentos de última geração, o que demonstra uma pretensão nunca vista para manter e expandir o domínio das áreas utilizadas para a prática de roubos, assaltos e, principalmente, para o comércio de drogas. Transformadas em verdadeiros guetos, as comunidades dominadas pelos comandos criminosos têm sido geridas por leis próprias, o acesso é restringido e controlado, com total desprezo às regras e leis estabelecidas para a normatização da vida em sociedade.

A medida em que se intensificam as ações policiais nessas áreas, principalmente nos conjuntos de favelas localizados em morros, evidencia-se os níveis de sofisticação e audácia alcançados pela criminalidade. Entrincheirados em posições estratégicas e, na maioria das vezes, dispondo de modernos sistemas de informação, traficantes agora demonstram a firme disposição de resistir à polícia, colocando sob dúvida a real capacidade do Estado no combate à criminalidade.

A negligência das administrações públicas, omissas no atendimento das demandas sociais básicas, permitiu às quadrilhas contar, em muitos casos, com a simpatia e proteção da popualção local, controlando acessos, horários de comércio e até o funcionamento de unidades educacionais. Como se tudo isso só não bastasse, presídios foram transformados em autênticas escolas de formação e aperfeiçoamento da criminalidade, quartéis-generais de onde se originam os principais planos e estratégicas criminosas.

Tamanho grau de organização e nível de ingerência na vida das comunidades impõe, no atual momento, muito mais do que periódicas incursões policiais isoladas, método que se revela como mero paliativo diante da dimensão que o problema já alcançou. Torna-se imperioso, portanto, a adoção de medidas vigorosas para o restabelecimento do poder do Estado, por meio de intervenções e permanência das forças militares nas áreas dominadas pelos traficantes. Da mesma forma, há de se introduzir as medidas sociais cabíveis para reconquistar a credibilidade junto às populações residentes, sem o que não se conseguirá impedir o aumento do número de mortes, muitas delas vitimando inocentes.