Ponto de vista
Coração tranquilo
Adilson Luiz Gonçalves
Walter Franco foi um artista inusitado.
Lembro de cinco músicas de sua autoria, todas diferenciadas.
“Muito tudo” era uma espécie de mantra.
Num festival de música de 1975, ele, usando uma bata, cabelos compridos e expressão etérea, cantou versos que não pareciam ter nexo, merecendo até algumas vaias.
Creio que foi no mesmo festival em que Jards Macalé, em resposta aos apupos da plateia por sua seleção como finalista, gritou “Vida só! Vida!”, de sua música, ao mesmo tempo em que mastigava maçã e agrião.
Walter Franco, anunciado sob vaias como terceiro colocado, em vez disso, repetiu várias vezes a frase “Apesar de muito tudo, é tudo muito leve… leve!”.
Foram extremos opostos em suas reações às críticas do público, que exigia “Farofa fá”. Parecia que Franco não estava nem aí, ou em outro plano.
Ele sempre transparecia essa calma, praticando o refrão de uma de suas músicas mais “terapêuticas”: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo” (saudades do trema).
Mas sua veia poética “convencional” é a que mais me agradou.
“Serra do Luar” é lindíssima, um acalanto romântico!
“Amor, vim te buscar em pensamento. Cheguei agora, no vento”.
“Vela Aberta” também é um primor que prega o congraçamento.
“Sou irmão de outros povos, que estão para além do mar”.
A palavra canalha define pessoa sem moral, desonesta ou de mau-caráter. Franco a usou como metáfora de uma dor que permanece atual, tantos são os canalhas que vivem da corrupção, do preconceito, da mistificação, da doutrinação e da disseminação de ódio.
“Canalha” concorreu num festival de 1979.
A letra e a dissonância melódica revelavam uma revolta a ponto de explodir: “É uma dor canalha, que te dilacera! Um grito que se espalha, mas, também, pudera!”.
Desta feita, Franco não foi “zen” nem vaiado ao ser anunciado no segundo lugar. Pelo contrário, promoveu uma catarse com a plateia.
No ápice da canção, após ele bradar: “É uma dor…”, o público gritou, em uníssono: “Canalha!”.
Assim como muitos de sua geração, Walter Franco sumiu “do mapa”, mas não de minha memória.
“Canalha”, talvez seja sua obra mais visceral. Seu coração não devia estar tranquilo ao compô-la.
A palavra canalha define pessoa sem moral, desonesta ou de mau-caráter. Franco a usou como metáfora de uma dor que permanece atual, tantos são os canalhas que vivem da corrupção, do preconceito, da mistificação, da doutrinação e da disseminação de ódio.
É uma dor que todas as pessoas decentes sentem, mas, se gritarem: “canalhas!”, talvez sejam perseguidas ou punidas.
Walter Franco participou de edições do Festival de Águas Claras. Após assistir a uma exibição do documentário “O Barato de Iacanga”, que conta a história do evento, em 2019, ele manifestou interesse em contar também a sua. Infelizmente, ele faleceu no mesmo ano.
Seu coração tranquilo resolveu seguir a vela aberta, muito leve, em busca do luar, longe dos canalhas que continuam a reinar por aqui.
Mas nada impede que essa história seja contada. E não só a dele.