Memória Santista
Sergio Willians

É jornalista e escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Santos e da Academia Santista de Letras. Também é membro correspondente do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo.

Yes! Nós temos bananas

A chegada dos carregamentos de cachos de bananas ao Porto de Santos era algo visualmente impressionante

29 de setembro de 2015 - 08:00

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bananaMundialmente, o Porto de Santos ficou conhecido, durante boa parte do Século XX, como o “Porto do Café”. Afinal, quase a totalidade das exportações do principal commodity brasileiro era realizada por aqui. Isso sem falar que o preço do produto no mercado global também era ditado a partir de Santos, nos amplos salões da Bolsa Oficial do Café. Assim, não dá pra não dizer que o “ouro verde”, como era apelidado o grão de café, foi o principal responsável pelo desenvolvimento santista desde meados do século XIX, sobretudo quando do início da operação da ferrovia (a São Paulo Railway). Por onde se olhava pelas ruas da cidade santista, o cheiro e a presença iconográfica do café se fez presente, até no brasão de armas da cidade. Mas ele não era o único “xodó” do cais de Santos e tampouco o meio exclusivo de produzir empresários bem sucedidos financeiramente. Na concorrência, embora em escala menor, tínhamos a banana. Sim, a famosa fruta tropical que, ao contrário do primo mais rico, era produzida em todo o entorno de Santos, fosse para os lados do litoral norte ou do sul.

E se o café produzia imagens “exóticas”, com filas de trabalhadores portuários suportando nas costas o peso de sacas de até 60 kg, desde as carroças (e mais tarde caminhões) até os porões dos navios, como um autêntico formigueiro humano, a chegada dos carregamentos de cachos de bananas ao Porto de Santos era também algo visualmente impressionante, mas, sobretudo, sob o olhar antropológico, uma celebração tradicional das comunidades caiçaras da região. Muitos dos barcos que atracavam nas cercanias da Bacia do Macuco (ponto principal do descarregamento das bananas no cais) provinham de lugares como Ubatuba, São Sebastião, Iguape, Cananéia e Ilhabela. Muitas dessas embarcações passavam dias inteiros no mar, até sua chegada ao Porto da Banana.

Os reis da banana
Durante sua época áurea, o “ouro verde” produziu figuras oligárquicas de grande poder econômico, os chamados “Barões do Café”. No campo da banana, a coisa não foi tão pomposa assim, pelo menos do ponto de vista da influência política. Os grandes empresários da fruta tropical eram mais discretos e simplistas, porém capazes de enormes gestos de solidariedade. Assim foi com João Octávio dos Santos (filho bastardo de João Octávio Nébias com sua escrava, Escholástica Rosa de Oliveira), que construiu o Instituto Escholástica Rosa para oferecer educação técnica aos jovens de baixa renda da cidade; Adriano Dias dos Santos, que contribuiu para a criação da “Cidade da Criança”, de Praia Grande e outras obras de cunho assistencialista e Dona Áurea Conde, conhecida como a Rainha da Banana, pioneira na exploração da fruta no Brasil (ela era dona de um dos casarões mais vistosos da Praça da Independência).

Produção de doce de banana
Santos também teve uma das principais indústrias de banana em conserva e doces relacionados à fruta no Brasil. Era a Leoneza, fundada em 1904 pela família Flores, cuja sede ficava na Rua da Constituição, na Vila Mathias. Ali eram feitos os doces “Banana Santista”, “Banana Marrom com Estanhola”, “Bombom de Banana” , além de caramelos e balas.