Clubes buscam linha de crédito do BNDES para reorganizar dívidas; veja como funciona a proposta
A crise financeira que atinge clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro levou representantes do futebol a buscar uma solução junto ao Governo Federal.
A principal proposta em discussão prevê a criação de uma linha especial de crédito com participação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A ideia é oferecer aos clubes empréstimos com taxas menores do que as praticadas normalmente pelos bancos.
O dinheiro teria como principal destino a reorganização das dívidas acumuladas pelas equipes.
As conversas começaram em agosto e envolvem o Ministério do Esporte, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e representantes dos clubes.
A CBF coordena parte das discussões, mas não deve colocar dinheiro no programa. Até agora, os envolvidos ainda não definiram o formato final da medida.
Também faltam respostas sobre o valor total do crédito, os juros e os critérios que os clubes precisarão cumprir.
As discussões devem avançar depois das eleições. O segundo turno está marcado para 25 de outubro.
Como funcionaria a linha de crédito?
A proposta prevê uma linha de financiamento com condições mais favoráveis do que as disponíveis atualmente no mercado.
Os clubes usariam os recursos principalmente para pagar e reorganizar dívidas. A ideia é estabelecer uma finalidade específica para o dinheiro e vincular o crédito a um programa de recuperação financeira.
Dessa forma, os clubes não teriam liberdade para utilizar os recursos em qualquer tipo de despesa.
O modelo também apresenta diferenças em relação aos programas de Recuperação Fiscal, conhecidos como Refis.
Enquanto os Refis concentram o foco na regularização de débitos tributários, a nova proposta poderia alcançar diferentes tipos de dívida.
Clubes também podem receber dinheiro para infraestrutura
Além da reorganização das dívidas, os envolvidos estudam outra possibilidade: liberar crédito para investimentos em infraestrutura.
Essa alternativa poderia ampliar o número de clubes beneficiados.
Equipes com menor nível de endividamento também poderiam buscar os recursos, desde que cumprissem os critérios que o Governo Federal ainda analisa.
Por enquanto, porém, a proposta não definiu quais investimentos entrariam no programa nem quais exigências os clubes precisariam cumprir.
Qual será o papel da CBF?
A CBF participa das conversas e ajuda a construir o modelo de auxílio.
A entidade acompanha as negociações entre os clubes e o Governo Federal e discute possíveis regras para a concessão dos empréstimos.
Outro ponto que ganhou espaço nas conversas envolve o novo regulamento de Fair Play Financeiro da CBF, que entrou em vigor neste ano.
Os defensores da proposta argumentam que os clubes passaram a lidar com regras mais rígidas de controle financeiro e governança.
Nesse cenário, o crédito público poderia seguir critérios de fiscalização e exigir maior responsabilidade na utilização dos recursos.
A ideia é criar um mecanismo que ajude os clubes a reorganizar as finanças sem repetir modelos de auxílio adotados anteriormente.
Ainda assim, o programa não tem valor definido nem critérios finais de seleção.
Corinthians e Internacional lideram as conversas
Corinthians e Internacional participam de forma mais direta das articulações.
Os dois clubes enfrentam dificuldades financeiras e estão submetidos a transfer bans da Fifa. A medida impede as equipes de registrar novos jogadores.
A articulação também conta com Pedro Daniel, atual CEO do Atlético-MG e ex-diretor executivo da consultoria EY.
Os presidentes Osmar Stabile, do Corinthians, e Alessandro Barcellos, do Internacional, procuraram o executivo para ajudar a estruturar as discussões com o Governo Federal.
Um estudo produzido pela EY serviu como referência nas conversas com o Ministério do Esporte e a CBF.
O levantamento apresentou um panorama das dificuldades financeiras enfrentadas pelos clubes e ajudou a embasar a discussão sobre novos mecanismos de crédito.
As negociações ganharam força em agosto e continuam em fase de construção.
Clubes também acompanham mudanças nas bets
A discussão sobre o crédito ocorre ao mesmo tempo em que o Governo Federal avalia medidas para restringir parte das atividades das empresas de apostas esportivas no Brasil.
Para os clubes, uma eventual redução da participação das bets pode significar perda de receitas.
Nos últimos anos, as empresas de apostas passaram a ocupar espaço importante no futebol brasileiro. Muitas equipes fecharam contratos de patrocínio com essas empresas e exibem as marcas nas camisas.
Por isso, os clubes acompanham de perto qualquer mudança nas regras do setor.
Segundo estimativas apresentadas nas discussões, as empresas de apostas destinam cerca de R$ 1 bilhão por ano para expor suas marcas nas camisas dos clubes da Série A.
Esse volume ajuda a explicar a preocupação dos clubes com possíveis restrições ao mercado de apostas.
O que ainda falta definir?
Apesar do avanço das conversas, o programa ainda não saiu do papel.
O Governo Federal, a CBF e os clubes ainda precisam definir:
- o valor total que o BNDES poderá disponibilizar;
- as taxas de juros;
- quais clubes poderão participar;
- quais dívidas poderão entrar na negociação;
- quais documentos e garantias os clubes terão de apresentar;
- se o crédito também financiará obras e infraestrutura;
- e quais mecanismos vão fiscalizar a utilização do dinheiro.
Por enquanto, as partes continuam discutindo o formato da proposta. A expectativa é que o tema volte a avançar após as eleições.
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