Não foi preciso tocar a marcha fúnebre para os mais de 600 torcedores presentes no Estádio Ulrico Mursa, no último domingo (12). A queda para a segunda divisão do Campeonato Paulista, (o equivalente ao quarto e último escalão do futebol paulista), foi mais do que esperada, até mesmo pelo mais fanático torcedor da Briosa, como carinhosamente é chamada. No ano passado, a equipe já havia caído para a série A-3. Em 2006, para a A-2, depois de disputar a elite do futebol paulista. Ou seja, três quedas em quatro anos.
Os torcedores não são profetas, mas sabiam o futuro sombrio. O time venceu por 1 a zero contra o Força Sindical (que também caiu), mas foi insuficente para mantê-la no mesmo patamar no futebol paulista, pois o time dependia de outros três resultados.
Tanto o velório como o enterro tornaram-se os cenários da tarde de domingo. A tristeza era e continua sendo inevitável, pois os 93 anos de tradição e das revelações que a Briosa construiu ao longo das décadas não foram suficientes para que o time se mantivesse ou subisse de divisão no Estadual.
A incerteza dos torcedores fiéis é com o tempo necessário para reerguer a Briosa. A certeza, entretanto, é de que, quem viu jogadores como Tim, Beristein, Daniel Robert, Edinho, Carlos Alberto, Rodriguinho e os times de 96 e 2003 não pode aceitar a forma como a Associação Atlética Portuguesa chegaria em 2010.
Outra certeza, por parte de muitos dos torcedores, é de que, se o ex-jogador do Santos FC, Paulinho Kobayashi (técnico que assumiu o time faltando quatro rodadas para terminar a primeira fase do Campeonato e que ganhou três dos quatro jogos que comandou) tivesse chegado mais cedo, o rebaixamento não ocorreria.
Por outro lado, a tragédia não é de toda constante. Independente da crença religiosa, a doutrina do Campeonato é a ressurreição. Dessa forma, a Briosa pode esperar por dias melhores. Para virar o jogo, entretanto, a diretoria e os torcedores discutem o que justifica a situação do time para entender o que será preciso mudar, a curto, médio e, principalmente, a longo prazo.
Após a queda, foi dada a largada para uma competição particular. De um lado, a diretoria atual, composta pelo presidente Avelino dos Santos, culpa a gestão anterior pelos salários atrasados – tanto dos jogadores do elenco profissional quanto dos demais funcionários – e outras contas (até mesmo de consumo), que estão atrasadas e algumas, que foram parceladas em cinco anos.
“Quando assumi, em 2009, só via a cor das dívidas. Só neste ano, pagamos R$ 100 mil em dívidas de ônibus, jogadores que não recebiam e 20 funcionários com férias vencidas”, diz Avelino. A conseqüência das dívidas dos últimos anos foi o bloqueio do pagamento da verba por parte da Federação Paulista de Futebol (FPF).
“Éramos para ter recebido R$ 80 mil quando estávamos na série A-2. Mas não tínhamos como receber, porque com os problemas trabalhistas na Justiça e outros dividendos, a verba não pode ser destinada ao clube”, lembra.
A estrutura também foi bastante criticada pelo atual presidente. “Tivemos de reformar as dependências e não havia nem mesmo uma cantina para os torcedores e associados”, indigna-se.
Quanto à diretoria do triênio 2006-2008, comandada por José Carlos Vieira, dispara contra a atual gestão quando o assunto é futebol. “O Avelino quer fazer da Briosa somente um clube social. Ele precisa entender que dirigir um clube de futebol não é vender cesta básica”.
Vieira também acrescenta que a diretoria rescindiu contratos de jogadores importantes, como foi o caso de Edson Souza, o Pio, atualmente no elenco do Santo André.
No mesmo caminho, torcedores criticam a atual gestão por não permitir aos técnicos, desde 2009 (incluindo Wagner dos Anjos, Ivo Secchi e Paulinho Kobayashi) a autonomia necessária para escalar os jogadores, sem ter de seguir o pedido de determinados jogadores por parte do investidor do clube.
“Entendo o lado do torcedor, mas não se pode pensar mais no futebol sem retorno. O investidor tem todo o direito de exigir ao treinador as mudanças de escalação. Já o técnico fica com o encargo de cuidar da parte tática do time. É hipocrisia dizer que isso só acontece na Portuguesa Santista. Acredito que poucos clubes têm uma postura mais independente”, defende Avelino.
Para mostrar o lado positivo, a diretoria atual (junto com o vice-presidente, Fernando dos Santos) afirma que, com a nova gestão, a Portuguesa Santista ganhou mais mil sócio-torcedores. Porém, Vieira retruca. “Gostaria que mostrassem esses mil sócios participando dos jogos. Até hoje, não os vi apoiar nem comparecer no estádio uma única vez”, diz o ex-presidente, conselheiro do clube.
Outra polêmica é em relação à manutenção da categoria de base, aliás, um dos poucos setores do clube onde a unanimidade não é burra, parafraseando Nelson Rodrigues. A crítica da presidência é com o fato dela ser terceirizada e que a gestão anterior fez um contrato de dez anos, onde, se o clube rescindir, a multa rescisória é de R$ 5 milhões.
Se existe disparidade entre as duas diretorias, uma coisa ninguém parece negar: tanto para Vieira quanto para a atual diretoria, faltam mais investidores (o atual empresário é o também diretor-superintendente da Brazilian Player – empresa de formação de jogadores de futebol – Gerson Vieira). Outro problema, na opinião deles, é a realidade legislativa – a Lei Pelé, que libera os atletas a procurar outro clube que deseja jogar ao término de um contrato, sem que o clube receba um tostão pela saída.
O presidente também descartou a paralisação do time profissional para r eestruturar o clube. Um caso parecido aconteceu com o Novohorizontino, time do interior do Estado de São Paulo.
Para esse ano, uma das mudanças será pela votação do Estatuto do Clube, onde dois aspectos serão o carro-chefe do edital. A primeira será a mudança do mandato da presidência. No atual estatuto, o presidente fica três anos gerindo o clube, podendo ser reeleito para um mandato.
Portanto, são seis anos de gestão. A segunda pauta será a responsabilidade da presidência, onde as dívidas do clube não podem ser pagas pelo próximo presidente.
Desde 2009 no clube, Avelino afirmou que não vai se reeleger. “Minha intenção é diminuir, ao máximo, as dívidas do clube. Não posso apagar os rebaixamentos, mas posso reestruturar o clube, e esse é o meu objetivo, além de almejar a volta para a série A-3 do Paulista”. Para ele, as Categorias de Base (principalmente o sub-20) podem formar bons jogadores e a intenção, segundo ele, é manter o time. A partir de maio deste ano começam os treinamentos do sub-20 para a Copa da FPF, no próximo semestre.
Engana-se que na Portuguesa Santista existam meros “simpatizantes”. É o caso de Aguinaldo Pereira Costa, um dos membros do Conselho Deliberativo do clube e responsável pelo site da Portuguesa Santista. Flamenguista de coração no Rio e torcedor doente da rubro-verde em São Paulo, ele guarda todo tipo de matéria. “Acredito que, se a diretoria investisse em Marketing, a Briosa poderia deslanchar, principalmente com a referência da Fita Azul, o clube ganharia mais patrocínios”. A Fita Azul foi uma condecoração feita em 1959 à Briosa pelas excursões ao exterior com sucesso, época em que a realidade da África do Sul sofria com o apartheid.