Os Cochranes — Thomas, o canal | Boqnews
23 de outubro de 2026

Os Cochranes — Thomas, o canal

Após conhecer Inácio Wallace da Gama Cochrane, o doutor, a série sobre os Cochranes retoma a história do nosso último personagem que deixou seu nome na geografia de Santos: Thomas Alexander Cochrane.

Oficial britânico, ele participou das guerras de independência da América do Sul e comandou a Marinha Imperial brasileira nos primeiros anos do Império.

Assim, conhecido como Lord Cochrane, teve papel importante na consolidação da Independência do Brasil.

Sobretudo nas campanhas contra as forças portuguesas que ainda resistiam à separação.

Portanto, sua trajetória também se cruzou com a de Joaquim Marques Lisboa, o futuro Almirante Tamandaré, patrono da Marinha do Brasil.

Em Santos, seu nome está associado à Avenida Almirante Cochrane, popularmente conhecida como Canal 5.

A homenagem, porém, passou por uma mudança: antes de chegar à atual via, o nome era atribuído ao Canal 4, que hoje corresponde à Avenida Siqueira Campos e não tem parentesco com nenhum dos outros Cochranes tratados nesta série.

Dessa forma, com o Almirante Cochrane, a coluna encerra a série “Os Cochranes” e inicia a série “Os canais de Santos”.

QUEM FOI ALMIRANTE COCHRANE?

Nascido em 14 de dezembro de 1775, na Escócia, Thomas Alexander Cochrane foi um oficial da Marinha Real Britânica, político e comandante naval.

Filho de uma família aristocrática, herdou posteriormente o título de conde de Dundonald.

Assim, ingressou na carreira naval ainda jovem e ganhou notoriedade durante as Guerras Napoleônicas.

Por essa razão, ficou conhecido pela ousadia e pelas estratégias empregadas em combate, tornou-se um comandante respeitado, mas também controverso.

Além da carreira militar, Cochrane entrou na política britânica e foi eleito para o Parlamento.

Em 1814, porém, acabou condenado em um processo relacionado a uma fraude na Bolsa de Londres.

O episódio provocou sua saída da Marinha britânica e prejudicou sua reputação.

Entretanto, após deixar o serviço naval britânico, passou a trabalhar para governos envolvidos nas guerras de independência da América do Sul.

Em 1818, assumiu o comando das forças navais do Chile, que lutava para se libertar do domínio espanhol.

Também participou de operações contra os espanhóis no Peru, incluindo a captura da fragata Esmeralda, em Callao, em 1820.

A experiência adquirida nessas campanhas contribuiu para que recebesse, posteriormente, o convite de Dom Pedro I para comandar a esquadra brasileira.

A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL

Após a independência do Brasil, algumas províncias se recusaram a aceitá-la.

Foi o caso de Bahia, Maranhão, Pará, entre outras regiões em que forças portuguesas continuaram resistindo à autoridade do novo Império.

Diante desse cenário, Dom Pedro I contratou Cochrane para organizar e comandar a esquadra brasileira.

Assim, o oficial chegou ao Rio de Janeiro em março de 1823 e recebeu o posto de primeiro-almirante da Marinha Imperial.

Sua primeira grande missão foi combater a resistência portuguesa na Bahia.

Em abril daquele ano, a esquadra imperial partiu para a campanha, que envolveu o bloqueio marítimo e a perseguição às embarcações adversárias.

Em julho, as forças portuguesas deixaram Salvador. Cochrane continuou as operações no Norte e no Nordeste, dirigindo-se ao Maranhão e contribuindo para a incorporação da província ao Império.

Na sequência, sua atuação também se relacionou à consolidação da autoridade imperial no Pará.

Portanto, por esses serviços, Dom Pedro I concedeu-lhe o título de marquês do Maranhão, em reconhecimento à sua contribuição para a consolidação da Independência e a manutenção da integridade territorial brasileira.

A atuação de Cochrane, entretanto, não ficou restrita ao combate às tropas portuguesas.

CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR

Em 1824, o almirante voltou a comandar operações navais no Nordeste, dessa vez durante a Confederação do Equador, movimento republicano e separatista que se opôs ao governo de Dom Pedro I.

Assim, a revolta começou em Pernambuco e se estendeu a outras províncias.

O governo imperial enviou forças militares e navais para reprimir o movimento, e a esquadra comandada por Cochrane participou do bloqueio de Recife e de operações de apoio às tropas em terra.

Entretanto, foi nesse contexto que sua trajetória se cruzou com a de Joaquim Marques Lisboa, o futuro Almirante Tamandaré.

Ainda jovem oficial, Tamandaré participou de operações da Marinha Imperial durante a campanha contra a Confederação do Equador.

Registros históricos da Marinha apontam que ele atuou sob o comando de Cochrane, recebendo missões militares durante a operação em Pernambuco.

A relação entre os dois é um capítulo significativo da história naval brasileira: enquanto Cochrane já era um comandante experiente, com carreira internacional, Tamandaré começava a construir a trajetória que o levaria a se tornar uma das figuras mais importantes da Marinha do Brasil.

A SAÍDA DO BRASIL

Apesar dos resultados militares, a relação de Cochrane com o governo imperial foi marcada por desentendimentos financeiros.

Assim, o almirante reivindicava pagamentos e recompensas pelos serviços prestados e pelos bens capturados durante as campanhas.

Parte dessas cobranças estava relacionada às chamadas presas de guerra, isto é, embarcações e propriedades tomadas do inimigo em operações militares.

Em 1825, insatisfeito com a solução dada às suas reivindicações, Cochrane deixou o Brasil e retornou à Inglaterra.

Posteriormente, participou da luta pela independência da Grécia. Em 1832, retornou ao serviço da Marinha britânica e recuperou sua posição institucional.

Com a morte do pai, em 1831, herdou o título de conde de Dundonald. Ao longo dos anos seguintes, sua reputação foi gradualmente reabilitada no Reino Unido.

Thomas Alexander Cochrane morreu em Londres, em 31 de outubro de 1860, aos 84 anos.

COCHRANE OU CÓCRANE?

Assim como ocorre com outros integrantes da família, o nome de Inácio aparece em documentos históricos com diferentes grafias: Cochrane, Cócrane e Cóchrane.

Portanto, as variações podem ser encontradas em registros biográficos, documentos públicos e denominações de logradouros.

No início do século XX, muitos nomes e sobrenomes foram modificados no Brasil, seja por uma questão mais nacionalista, seja pelo fato das letras inglesas K, W e Y não fazerem parte de nosso alfabeto naquele momento.

Então é comum encontrarmos essas variações no sobrenome da família e em tantas outras palavras comuns no nosso dia-a-dia atualmente.

O CANAL

Os canais de Santos foram projetados pelo engenheiro sanitarista Saturnino de Brito para drenar as águas das chuvas, evitar alagamentos e melhorar as condições de saneamento da cidade, que enfrentava graves problemas de saúde pública no início do século 20. Além de combater esses problemas, o sistema contribuiu para a expansão urbana em direção à orla.

O Canal 5 foi inaugurado em 7 de agosto de 1927, após José de Sampaio Moreira fazer doação à Municipalidade do leito necessário à abertura do canal, depois dos canais 1 e 2, inaugurados em 1907 e 1910, do Canal 6, aberto em 1919, e dos canais 3 e 4, inaugurados em 1923. Assim, o Canal 5 foi o último dos seis canais da orla previstos no projeto original de Saturnino de Brito.

A AVENIDA

Ligando a orla a zona portuária, passando por diversos bairros e com cerca de 1900 metros, a via inicialmente deu nome ao canal 4 em 1923, posteriormente em 1924 a lei n° 735, passou a ser o nome do canal 5, sendo a única via da Baixada Santista com este nome.

 

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Ronaldo Tarallo Jr.
Ronaldo Tarallo Jr. , jornalista
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