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Santos

Uma década de Oficinas Querô e muitas histórias transformadas pelo audiovisual

Conheça três jovens que passaram pelo instituto e mostram, com suas trajetórias, o sucesso do projeto

27 de agosto de 2016 - 08:30

Nara Assunção

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queronumerosLuz, câmera, ação! Talvez este seja o momento da história santista que mais se ouve este bordão do cinema pelas ruas. Hoje, não é incomum encontrar equipes grandes ou pequenas, amadoras ou profissionais, gravando cenas de filmes, curtas, clipes, documentários, novelas, comerciais… Da região ou até mesmo de produções nacionais. Aliás, Santos é a única no Brasil que está entre as oito cidades criativas no mundo no segmento cinema, um selo que é da Unesco e foi conquistado em 2015.

A atual cena deve-se bastante às Oficinas Querô, que surgiram na Cidade há 10 anos, após o longa metragem de mesmo nome, gravado com jovens em 2004. Projeto do cineasta Carlos Cortez e da produtora Gullane Filmes, que naquele ano iniciaram pesquisa nas áreas mais carentes da região portuária de Santos para compor o elenco jovem do longa, que acabou se tornando depois a primeira turma das Oficinas.

Não existe uma data certa a se comemorar, que não o próprio ano. E o que dizer da última década? Apenas os números já explicam a importância das oficinas para o audiovisual local e nacional (veja ao lado). Porém, mais importante ainda é perceber que a primeira década mudou a vida dos mais de 300 jovens que por lá passaram.

Fazer o jovem ser protagonista da própria história, mudando seu futuro, criando novas perspectivas e sonhos, era e continua sendo o principal pilar do projeto. Muitos são os que apontam que o enredo realmente deu certo. Cerca de 40% estão no mercado de trabalho nacional, atuando nas mais vertentes áreas do audiovisual.

Atammy trajetória de apenas três personagens – a fotógrafa Juh Guedes, o editor Eduardo Bezerra e o diretor e produtor independente Victor Luiz – é uma pequena mostra que a semente plantada lá atrás cresceu e gera grandes e saborosos frutos.

Para a coordenadora geral do Instituto Querô Tammy Weiss (foto) – no projeto desde o início – é uma emoção grande ver que o sonho de fazer uma transformação social na vida dos jovens por meio do audiovisual deu certo. “Já no primeiro ano vimos a força do projeto, com o material produzido pela primeira turma, e decidimos investir. A cada ano passamos por novas experiências e o projeto se renova, com debates, ações nas escolas, ampliando conforme o entorno nos faz crescer”, conta.

E este ano para comemorar e inovar – como de costume – o instituto está fazendo o primeiro longa, Sócrates. “Está sendo intenso. Foi uma experiência enriquecedora nos 30 dias de filmagem. Acredito que estão muito mais preparados para o mercado de trabalho”, diz.

Além das oficinas, o instituto também faz, desde 2010, o Querô na Escola onde os jovens capacitados se transformam em educadores. No mesmo ano surgiu o projeto Cinescola Querô, em parceria com a Prefeitura de Santos, mas que ainda não saiu do papel. Será no Mercado Municipal, com sala de cinema, produtora e escola. “Estamos esperando pela verba, mas em ano de crise ficou difícil. Torcer para chegar em 2017”.

10006222_609368382482569_1935965526_nEduardo Bezerra

Foi da turma inicial, em 2006. Hoje é editor chefe do programa de Fábio Porchat, na tv Record, coordenando a equipe e finalizando o programa 

“Foi a base de tudo, de onde estou e para onde vou! Foi uma sementinha plantada que não só o projeto está colhendo os frutos, mas eu também (…) Iniciei aos 14 anos no filme Querô e depois fiz as oficinas. Ouvi ainda no filme: ‘Vocês não sabem o quanto isso pode mudar a vida de vocês’. Eu acreditei. Se não fosse o projeto talvez estaria na área, mas ainda no meio do caminho. Eu me interessei pela área de edição. Depois do filme fiz cursos e pude suprir a necessidade de edição no início do projeto. Só depois dos três primeiros anos, onde apenas apertava botões, na edição, que comecei a criar a minha linguagem. Hoje estou em uma posição privilegiada. Consigo aplicar toda minha criatividade e experiência dos últimos 10 anos”.

juhJuh Guedes

Da turma de 2008, é fotógrafa e atua com marcas como Itau, Natura, e em eventos como revista Vogue. Também é professora no Querô

“Tinha 18 anos quando entrei. Nunca trabalhei em outra área. Foi um sonho que surgiu no colegial. Na época, não havia cursos aqui e descobri o Querô. Tenho medo de pensar em como seria minha vida sem o Querô (…) Em uma das aulas de Danilo Pimentel, na fotografia avançada, ele me mostrou como realmente funcionava esta arte. Comecei a fotografar e aconteceu loucamente. Foram muitos trabalhos de graça, mandei muitos e-mails para amigos, até que começaram a me procurar e não parei mais. (…) Nas aulas para a turma de Fotografia, no Básico, tento inspirar o máximo os jovens mostrando que é possível fazer o que gostamos e mesmo o investimento sendo alto, dá para se esforçar e realizar”.

1043858_746965112032785_37089856969617397_nVictor Luiz dos Santos

Da primeira turma, é diretor e produtor independente. É diretor na Palafita Filmes. Esteve na França num documentário

“Não é tão fácil falar… A experiência em trabalhar com cinema, em fazer parte  de uma equipe e de fazer tudo acontecer, de realizar os meus filmes. De tudo isso o principal aprendizado que ficou desta experiência foi a percepção de que sou capaz de realizar seja o que for, não se limitando ao cinema, a um filme. Isso é só um detalhe.  Não importam as oportunidades, vai ser você quem fará a diferença. As oportunidades também passam e precisamos estar atentos. Agora estou no Espírito Santo, onde vou dirigir filmes sobre um oásis no Rio Doce. Projeto que vai trabalhar o desenvolvimento comunitário de uma comunidade afetada pelo desastre de Rio Doce”.

 

Veja os filmes mais premiados:

O Pequeno Monstro (ficção/ Dir.Nildo Ferreira e Kauê Nunes)
Produzido durante as Oficinas Querô de 2012, a ficção conta a história de um garoto com uma imaginação muito fértil. Ele acredita que toda sua família é formada de monstros, inclusive ele. O enredo criativo já levou 7 prêmios em festivais, entre eles, os de Melhor Filme Roteiro e Ator (Vitor Lima) no 11º Curta Santos.

Missão Estelar (ficção / Dir. Raphaela Teles)
Produzido em 2012, o filme foi eleito Melhor Filme Digital no 1º Festival
Nacional de Cinema do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Fluminense e selecionado pra mais de 15 festivais no país. Na direção, Raphaela Teles fala da beleza dos sonhos infantis, contando a história de Pedro, um garoto de 7 anos que quer arrecadar dinheiro para uma viagem à Lua.

Carregadores do Monte (documentário/ Dir. Julio Lucena e Cássio Santos)
Uma produção realizada durante as Oficinas Querô de 2012, o documentário conta a história dos moradores do Morro Monte Serrat, em Santos, de uma ótica diferente: a difícil tarefa de homens que trabalham subindo e descendo, todos os dias, os 402 degraus, ajudando moradores carregando nas costas objetos e mercadorias. Além de vencedor como Melhor Documentário do 11º Curta Santos, a história foi parar no Rio Grande do Sul, no 41º Festival de Gramado, onde recebeu Menção Honrosa do júri.

Tempo é Morfina (ficção / Dir. Daniel Queija e Kamilli Semenov)
Produção das Oficinas Querô Avançadas 2014, com roteiro e tutoria de direção de Rafael Aidar, o filme retrata a questão da dependência química em um momento complicado do casal Jobson e Eliane, vividos pelos atores Vinicius Ferreira e Priscilla Maia, ambos vencedores de Melhor Ator e Atriz no 13º Curta Santos pelo papel. Além dos atores, o curta também foi eleito Melhor Filme de Ficção e Melhor Direção no 13º Curta Santos, Melhor Direção de Arte no 8º Curta Taquary e exibido no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo.

 

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