Aposta perigosa: quando o lazer vira vício | Boqnews
Foto: Criada por Inteligência Artificial/Gemini
10 de julho de 2026

Aposta perigosa: quando o lazer vira vício

Para muita gente, o ritual de assistir ao jogo do time do coração mudou. O palpite para uma partida ganhou um peso real: o dinheiro do bolso. O que começa como uma brincadeira para trazer mais emoção ao jogo, muitas vezes, vira uma rotina silenciosa de expectativa, ansiedade e noites mal dormidas.

 

Vítima

Um apostador, que preferiu não se identificar, contou sobre os problemas das apostas.

Ele aborda que o primeiro contato com as apostas esportivas foi por meio de um amigo. “Ele tinha algo parecido com uma maquininha de lançar crédito, de passar em compra. E nela tinha uma espécie de um aplicativo com os jogos disponíveis que existiam na época. E, como eu sempre gostei de futebol, eu vi algo que me chamou a atenção. O resultado de uma partida pagava determinado valor. E foi ali que eu tive o meu primeiro contato com a aposta em si. Foi uma aposta simples, R$ 10 para uma múltipla de cinco jogos: para dar empate, vitória e tudo mais. Mas era um retorno na casa de R$ 500 ou R$ 600, que, obviamente, eu perdi devido à dificuldade.”

Demorou para ele perceber que aquilo não era apenas um entretenimento. Foi quando ele teve uma perda significativa de valores (não falou o montante) quando ele começou a ter contato com as apostas esportivas. “Eu mesmo já vi que não estava saudável. Eu ganhei e perdi, mas quando eu perdi um valor alto pela primeira vez e eu estava vendo a partida, eu já vi que aquilo estava me adoecendo mesmo. Era um simples resultado. Não veio e eu bati tanto de esmurrar a mesa de casa. Ninguém entendeu, pois não era nem um jogo do meu time e eu torcendo por um resultado. Então eu vi que estava fugindo um pouco do meu controle”.

 

Impactos

Sobre os principais impactos desse vício em sua vida, ele menciona que se tornou uma pessoa mais chata e perdeu datas comemorativas para ficar em casa, assistindo campeonatos estrangeiros e conteúdos de futebol.

“Eu passei a assistir mais porque eu tinha dinheiro. Eu colocava um dinheiro para sair tal resultado e tinha meio que a obrigação de ficar assistindo. Isso impactou demais. Eu perdi muitas datas comemorativas e quando tinha datas importantes eu também não tinha dinheiro por estar preso nesse vício”, recorda.

 

Ajuda

Sobre procurar ajuda, ele reconhece que pensou em buscar em diversos momentos, mas não procurava por vergonha e pela exposição. “Eu pensava. Eu perdi R$ 1.000 hoje. Amanhã, eu vou ter que ganhar dois mil: os mil que eu perdi ontem e o de hoje. Com isso, eu perdia também. Mas quando eu perdia, ficava nessa questão de procurar alguém, mas a vergonha e o medo da exposição da minha vida acabava com que eu me fechasse.”

Foi só depois do nascimento do seu segundo filho que ele tomou uma decisão. “Cheguei realmente no fundo do poço financeiramente. E foi primordial o apoio que eu tive da minha família. Da minha esposa, do meu irmão, do meu pai. Eles me ajudaram a solucionar esse problema. Eu consegui bloquear o meu CPF de todas essas plataformas para sair de vez desse vício.”

 

Sinais

Segundo a psicóloga clínica Melissa Tenório, os principais sinais de que uma pessoa está desenvolvendo dependência em jogos de azar ocorre quando o jogo de apostas deixa de ser uma atividade de lazer e a vida da pessoa passa a se organizar no entorno das apostas online.

“É comum, por exemplo, observar uma preocupação constante com os jogos, com as apostas. Então, pensando agora na Copa do Mundo, quando vai ter um jogo, antes de falar sobre qualquer temática da Copa do Mundo, a pessoa fala da possibilidade de apostar em X ou Y país. Então, também os pacientes relatam uma perda de capacidade de interromper esse comportamento. Ainda que a pessoa tenha prejuízos, ela tem dificuldades de interromper esse comportamento. E tem necessidade, às vezes, de esconder da família e das pessoas que convive. Até o tempo que gasta pensando nas apostas, como também o investimento em dinheiro. E o quanto que comprometeu as suas relações pessoais, trabalho e estudo. Há uma vergonha presente nas pessoas que estão desenvolvendo certa dependência nos jogos online.”

Ela aborda que na sua clínica é possível observar que muitos dos sujeitos passam a recorrer à aposta como uma forma de lidar com alguma angústia presente, alguma frustração, algum sentimento difícil. Então, as apostas entram nesse lugar de sofrimento, de preenchimento do lugar vazio, o que torna o jogo um recurso emocional para evitar qualquer sofrimento. Assim, ele é preenchido com as apostas online. Dessa forma, as pessoas com maior sofrimento emocional estão mais vulneráveis ao desenvolvimento de dependências.

 

Vício

Melissa também fala sobre o motivo das apostas se tornarem tão viciantes do ponto de vista psicológico. “Eu falo a partir da abordagem da psicanálise. Então, é importante compreender que a dependência não está única e exclusivamente no objeto. Não está só nas apostas, mas na função que ela passa a ocupar na vida psíquica do sujeito”.

“As apostas oferecem uma promessa permanente de transformação. Sabe, a ideia de que o próximo lance pode mudar a minha vida? Na próxima vez, eu vou conseguir reparar alguma possível perda ou preencher uma sensação de falta presente. E essa promessa de melhora mobiliza alguns desejos profundos e muitas vezes esses desejos são também de ordem inconsciente. Então, não dá para pensarmos também que a pessoa controla esse comportamento com facilidade, porque existem vários fatores reprimidos no inconsciente que fazem esse comportamento se retroalimentar”, esclarece.

Além disso, ela acrescenta que essas plataformas são estruturadas para manter o jogador continuamente engajado com a tarefa de apostar. E isso favorece essa repetição do comportamento, o que dificulta o desligamento dos aplicativos de aposta.

 

Tratamento

Além disso, a psicóloga aborda que o tratamento para os viciados em apostar, precisa considerar tanto os aspectos do comportamento da pessoa presente, mas também a singularidade de cada pessoa e história.

“A psicoterapia é um recurso fundamental. Na perspectiva da psicanálise, o trabalho clínico, ele vai buscar compreender qual é a função que o jogo desempenha na vida, na vida psíquica do sujeito, e quais os conflitos ou sofrimentos estão sendo expressos por meio deste comportamento compulsivo. Em alguns casos, é necessário também o acompanhamento psiquiátrico, a depender do comprometimento da pessoa. Especialmente quando tem algum outro transtorno emocional associado à compulsão por jogos.”

Aliás, ela reforça que o envolvimento da família pode ajudar, assim como uma rede de apoio pode favorecer esse processo terapêutico de cuidado com a pessoa que desenvolve a compulsão por jogos online.

 

Impactos na economia

Segundo o economista Luciano Simões, o crescimento das apostas online tem provocado mudanças importantes no orçamento das famílias brasileiras. “Do ponto de vista econômico, parte da renda disponível, que antes era destinada ao consumo de bens, serviços, lazer ou até mesmo à formação de poupança, passou a ser direcionada para plataformas de apostas”.

Esse movimento reduz a capacidade financeira das famílias, principalmente as de menor renda, que possuem pouca margem para absorver perdas. Em muitos casos, o dinheiro utilizado nas apostas corresponde a recursos destinados a despesas essenciais, como alimentação, transporte e contas domésticas.

Além disso, como a maioria das apostas resulta em perdas financeiras, ocorre uma redução do patrimônio das famílias, comprometendo sua capacidade de consumo e aumentando a vulnerabilidade ao endividamento, salienta.

Dessa maneira, Simões também destaca o volume de recursos que deixa de circular em outros setores da economia por causa das bets. “Diversos estudos apontam que as apostas online movimentam dezenas de bilhões de reais por ano no Brasil. Estimativas divulgadas por instituições financeiras e órgãos de pesquisa indicam que esse volume pode superar R$ 100 bilhões anuais em apostas, embora parte desse valor retorne aos jogadores na forma de prêmios”.

Independentemente do montante, o efeito econômico é claro: recursos que poderiam ser gastos em comércio, alimentação, turismo, educação, cultura e serviços acabam sendo direcionados para plataformas de apostas, muitas delas pertencentes a empresas estrangeiras. E isso afeta toda a cadeia da economia.

Ou seja, isso reduz o chamado efeito multiplicador da economia, pois parte significativa desses recursos deixa de circular nos setores produtivos nacionais, limitando a geração de emprego, renda e arrecadação tributária.

Os grupos mais vulneráveis para as apostas costumam ser pessoas de baixa renda, jovens adultos, indivíduos com pouca educação financeira e consumidores que já apresentam algum grau de instabilidade financeira.

“Esse público tende a enxergar as apostas como uma possibilidade rápida de aumentar a renda ou solucionar dificuldades financeiras. Entretanto, essa expectativa raramente se concretiza, já que as plataformas são matematicamente estruturadas para obter lucro no longo prazo. Também merece atenção o crescente número de pessoas que recorrem ao crédito — incluindo cartão de crédito, cheque especial e empréstimos pessoais — para continuar apostando após sucessivas perdas, agravando significativamente sua situação financeira”, alerta o profissional.

 

 

Confira as notícias do Boqnews no Google News e fique bem informado.

Vinícius Dantas , Da Redação
Compartilhe:

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.