Economia

“A oposição entre economia e saúde é de uma pobreza franciscana”, diz Belluzzo

Economista e professor universitário há meio século, Luiz Gonzaga Beluzzo critica a separação entre saúde e economia em tempos de pandemia e teme os reflexos para o País.

26 de abril de 2021 - 18:43

Fernando De Maria

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A despeito da pandemia ter ultrapassado um ano de existência, o Brasil não se planejou para garantir o mínimo necessário para a subsistência da população.

Caso isso ocorresse, a discussão sobre economia e saúde não seria antagônica, como autoridades políticas costumam destacar.

Países europeus, como a Itália, Alemanha, e até os Estados Unidos, tiveram que abandonar os conceitos liberais de Adam Smith com seu liberalismo econômico, onde o Estado não deveria intervir na economia.

Além disso, os liberais defendem a livre concorrência assim como a lei da oferta e da procura.

Algo impraticável aos mais vulneráveis em tempos de pandemia.

“A oposição entre economia e saúde é de uma pobreza franciscana”, enfatiza o ex-seminarista, o economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo, entrevistado de segunda (26) do jornal Enfoque – Manhã de Notícias.

Para ele, o governo federal falha em vários aspectos nesta guerra mundial invisível.

“A China, por exemplo, soube sair rapidamente com inteligência e capacidade desta crise. Aqui falta planejamento”, salienta.

 

Teto de gastos

Beluzzo criticou também o orçamento da União, aprovado na semana passada, com cortes de verbas em áreas importantes, como Saúde e Educação, em razão do teto de gastos, implantado ainda no governo Michel Temer.

“O teto de gastos (em vigor após aprovação do Congresso em dezembro de 2016) é  inacreditável. Você coloca a economia em uma rigidez cadavérica”, salienta.

“Ele é uma clara demonstração de como o conceito liberal está perdido nestes tempos de pandemia”, completa.

Beluzzo cita a injeção de US$ 1,9 trilhão (R$ 10,4 trilhões) na economia americana apresentada e garantida pelo presidente Joe Biden, com aval do Congresso, onde americanos de classes sociais mais baixas receberão auxílio de US$ 1.400 (R$ 7.700,00), US$ 300 (R$ 1.650) de auxílio-desemprego semanal para 9,5 milhões de pessoas e US$ 350 bilhões (R$ 1,9 trilhão) para ajudar estados endividados.

“Quem introduz moeda na economia é o crédito. Quanto maior o investimento, maior a oferta de dinheiro e isso faz a economia circular”, ressalta.

“O teto de gastos é uma tentativa de negar isso. Estamos, infelizmente, na contramão do mundo”, diz o economista que está concluindo um livro sobre a relação entre moedas e as dívidas dos países.

 

Desindustrialização

Belluzzo também salientou o processo de desindustrialização do País, que afeta diretamente a geração de empregos.

Desde 2015, o Brasil perdeu 36,6 mil fábricas – média de 17 fechamentos/dia.

Conforme ele, o Brasil iniciou a formação de um parque industrial nos anos 30, tendo seu ápice no governo de Juscelino Kubitschek.

O processo de mantido nos governos militares, mas começou a perder força a partir da segunda metade dos anos 80, principalmente a partir dos anos 90, quando passou a vigorar o Plano Real.

 

Economista Luiz Gonzaga Beluzzo: erro do País foi colocar como dicotomia saúde e geração de empregos nesta pandemia. Foto: Reprodução

Preços

Na entrevista, Belluzzo também explicou as razões dos preços terem disparado e os riscos da estagflação – situação simultânea de estagnação econômica, ou até mesmo recessão, e altas taxas de inflação.

“Este cenário é real”, lamenta.

“Estamos observando um choque de ofertas no mundo. A recuperação virá de forma desigual, o que acarreta no aumento dos preços”, diz.

Não bastasse, o País deixou de lado os estoques reguladores, que permitiam melhor equilíbrio da alta de produtos, especialmente produtos agrícolas, como soja e milho.

“A ausência de estoques reguladores e a retomada da China  ocasionam no choque de ofertas”, diz.

A última vez que este cenário ocorreu foi há quase 40 anos, durante a crise de petróleo, em 1973, que demorou dois anos para que a Europa e os Estados Unidos recuperassem o tempo perdido.

Censo

Belluzzo também lamentou a não realização do Censo 2021 em razão da drástica redução do orçamento.

“Percebe-se um ataque dirigido ao IBGE, com os recursos minguando. Parece estratégia de ocultar informações”, diz.

Os impactos serão sentidos especialmente por estados e municípios, que terão dificuldades para fazer seus planejamentos – algo intimamente ligado aos repasses de verbas federais, especialmente em cidades com taxa de crescimento acima da média, como o caso de Praia Grande, no litoral sul paulista.

“Isso provocará atrasos sociais e econômicos”, salientou.

Bolsonaro

Belluzzo, que trabalhou por décadas com o ex-presidente da Câmara Federal e Assembleia Nacional Constituinte, Ulysses Guimarães, também criticou o presidente Jair Bolsonaro, “que tem uma precariedade cognitiva e intelectual”.

Ele teme como o País sairá desta situação ao acabar a pandemia e o legado que se vislumbra.

“O Brasil precisava sustentar o emprego, mesmo com as pessoas em isolamento. Isso permitiria que o País saísse melhor desta pandemia”, diz.

Ex-presidente do Palmeiras, o economista também falou sobre a arena do clube, hoje Allianz Parque, cujas tratativas foram iniciadas em sua gestão (2009-2011).

 

Entrevista completa

Confira a entrevista completa

 

 

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