Pisa 2025: Desempenho do Brasil segue abaixo da média | Boqnews
Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial/Gemini
11 de setembro de 2026

Pisa 2025: Desempenho do Brasil segue abaixo da média

Na última terça-feira (8), foram divulgados os resultados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) de 2025, pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Sendo assim, o Brasil segue no grupo abaixo da média dos países da OCDE nas três disciplinas.

Em Matemática foram 377 pontos, 409 em Ciências e 408 em Leitura.  Aliás, vale mencionar que média de 23 países da OCDE foi 469 em Matemática, 486 em Ciências e 466 em Leitura.

 

Desempenho

A pedagoga e docente da Faculdade de Educação da USP, Elaine Vidal, elencou motivos o desempenho abaixo da média dos países da OCDE nas três áreas avaliadas pelo Pisa. “O Brasil se manteve muito abaixo dos outros países no final do ranking, mas isso não é novidade. Na verdade, o Brasil vem estagnado nessa posição há vários anos. A primeira coisa que precisamos observar é que os países do topo do ranking tiveram uma queda drástica. Em alguns casos, chegaram a perder 20 pontos. O Brasil não, o país se manteve, mas porque também já estava lá embaixo.”

Um dos fatores para observarmos é que tem uma relação direta entre os resultados do Pisa e o desenvolvimento econômico. Portanto, os países que têm os melhores resultados são aqueles que têm melhor distribuição de renda e melhores políticas sociais.

“Isso significa que esse jovem que está fazendo o Pisa, muitas vezes ele precisa trabalhar e não está na escola e com isso, vai ter uma diferença. É importante lembrar que o Pisa é feito por idade, são jovens de 15 anos, independente do ano da escolaridade que esse jovem esteja. Então, no Brasil, muitas vezes o jovem de 15 anos, ele já está inserido no mercado de trabalho ou por repetência, ele está em séries inferiores do que outros”.

“Então não é como se a gente comparasse dois jovens que têm as mesmas condições e um aprende menos que o outro. O ponto de partida dos jovens brasileiros está muito atrás do ponto de partida dos jovens que estão em países ricos. Com isso, o resultado vai se refletir na educação também”.

Matemática

Além disso, a coordenadora pedagógica do colégio Progresso Bilíngue de Santos, Darlene Bocalini, ressalta que o resultado do Pisa precisa ser analisado a partir de um conjunto de fatores, porque o desempenho dos estudantes não é determinado por uma única variável. No caso da Matemática, um dos desafios está em consolidar aprendizagens fundamentais e, a partir delas, desenvolver a capacidade de interpretar problemas, estabelecer relações, utilizar diferentes estratégias e aplicar o conhecimento a situações reais.

“Também é importante considerar que habilidades Matemáticas são construídas progressivamente ao longo da educação básica. Lacunas acumuladas em determinadas etapas podem se refletir nos anos seguintes e dificultar aprendizagens mais complexas. Por isso, mais do que trabalhar apenas conteúdos para avaliações, é fundamental acompanhar continuamente a evolução de cada estudante e identificar precocemente suas dificuldades.”

 

Desafios

Além disso, Elaine menciona que o financiamento público é um dos principais desafios enfrentados pela educação básica brasileira para garantir uma aprendizagem de qualidade aos estudantes. Ela argumenta que temos que olhar qual é o custo aluno do estudante da escola pública. “Então, somando todos os investimentos que são feitos nessa escola pública, dividindo pelo número de alunos, qual é o custo aluno?”, questiona.

A pedagoga ressalta que o valor é muito inferior à mensalidade de uma escola particular, por exemplo. “Então, se um aluno para a rede pública, custa R$ 600, R$ 700 por mês, uma escola particular você não paga uma mensalidade com esse valor. Então, é importante pensar que não adianta só tentar garantir um custo aluno, é preciso de custo aluno qualidade, que é uma discussão que já vem sendo feita no Congresso. Tem movimentos como a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, que defendem o custo aluno qualidade, que é um patamar mínimo de investimentos por aluno para você conseguir garantir uma qualidade mínima da educação.”

Aliás, ela cita que durante muito tempo, a escola era a instituição que garantia o acesso à informação. Hoje em dia, não é mais, porque você tem outros meios mais eficazes e mais presentes na vida do jovem de acessar a informação, como a internet e as inteligências artificiais. “Então, temos que fortalecer a capacidade crítica desse jovem, a capacidade de interpretar dados, de correlacionar as informações, de fazer uma reflexão crítica sobre as informações que acessa, de aplicar aquilo que aprende à sua vida cotidiana, de criar coisas que nunca foram criadas.”

 

Impactos

Assim, Darlene aborda os impactos que esse baixo desempenho pode trazer para o futuro profissional e acadêmico dos jovens brasileiros. “As competências avaliadas pelo Pisa estão diretamente relacionadas à capacidade de compreender informações, resolver problemas, interpretar dados e tomar decisões — habilidades cada vez mais importantes tanto no ensino superior quanto no mercado de trabalho.”

Portanto, uma formação com lacunas nessas áreas pode tornar mais desafiadora a continuidade dos estudos e a adaptação a profissões que exigem maior domínio de competências analíticas e tecnológicas. Em um mercado de trabalho em transformação, com a expansão da inteligência artificial e de novas tecnologias, a capacidade de aprender continuamente também ganha importância.

Por outro lado, é importante interpretar o resultado como um diagnóstico e uma oportunidade de aprimoramento, e não como uma sentença sobre o futuro de uma geração. Com acompanhamento adequado e estratégias pedagógicas consistentes, é possível recuperar aprendizagens e ampliar o desenvolvimento dos estudantes.

 

Referência

Um ponto importante é pensar o que países que apresentam resultados melhores no Pisa fazem de diferente que poderia servir de referência para o Brasil. Segundo Elaine, os países já têm uma condição de bem-estar social muito superior à nossa.

Então, essa criança já entra na escola com outro ponto de partida, mas eles têm algumas políticas que, inclusive, estão entre as nossas metas do nosso Plano Nacional de Educação, mas que ainda não conseguimos atingir. “Então, por exemplo, maior tempo de permanência na escola e garantir escola integral para maior parte das crianças.

Dentro desse tempo de permanência, não é colocar as crianças nas escolas como depósito de crianças, mas é oferecer atividades de qualidade e não apenas as atividades essencialmente acadêmicas, português, matemática, ciências, mas ter propostas que trabalhem com a criatividade, com o senso crítico, com a arte, com a apreciação estética. Tudo isso vai formando esse sujeito culturalmente.”

 

Medidas

Assim como, Darlene destacou cinco medidas prioritárias para melhorar o desempenho dos estudantes brasileiros nas próximas avaliações. A primeira é fortalecer as aprendizagens fundamentais, especialmente alfabetização, leitura, interpretação e raciocínio matemático, desde os primeiros anos.

A segunda é ampliar o acompanhamento contínuo dos estudantes, utilizando avaliações diagnósticas não apenas para atribuir notas, mas para identificar dificuldades e orientar intervenções pedagógicas. A terceira é investir permanentemente na formação dos professores, inclusive para o uso pedagógico de tecnologias e inteligência artificial.

A quarta é aproximar cada vez mais o conhecimento escolar de situações concretas, estimulando resolução de problemas, pensamento crítico, investigação e a prática dos conteúdos. E, por fim, é importante fortalecer a parceria entre escola, estudantes e famílias, criando uma cultura de aprendizagem contínua. Melhorar indicadores como o Pisa é uma consequência de um trabalho educacional consistente e de longo prazo, e não de uma preparação específica para uma avaliação.

Já Elaine aborda que é implementar o custo aluno-qualidade, ou seja, estabelecer patamares mínimos de investimento por aluno na escola pública.

Assim como, desenvolver programas de fortalecimento da formação docente. “O governo federal lançou recentemente o programa Pé-de-Meia, eu acho que políticas como essa têm que ser cada vez mais aprimoradas e pensarmos não só em políticas de formação inicial, mas também continuada, garantir que esse professor que vai para a sala de aula, ele tenha a oportunidade de continuar estudando.”

“Uma medida importante é tentar mudar a relação com o conhecimento, fazendo campanhas de comunicação, de divulgação com os jovens, para resgatar essa ideia, de que estudar e que a escola vale a pena”, explica.

 

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Vinícius Dantas , Da Redação
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