Plano de incentivo aos professores
Ex-vereadora e atual secretária de Educação de Santos, a professora Suely Maia visitou a redação do Boqnews, onde falou sobre os trabalhos desenvolvidos pela secretaria, a proposta do Plano de Educação a ser encaminhado à Câmara em agosto e os atuais salários pagos aos professores da rede.
A senhora está desde 2004 como secretária de Educação em Santos. De pra cá o que mudou?
O grande avanço foi pensar nas crianças com educação em tempo integral, ou seja, numa educação integral, que elas pudessem aprender de diversas formar. Então, mesmo sem ter prédios, a gente se reuniu com a sociedade, como clubes de servir, comunidades de bairros e igrejas perguntando se eles gostariam de fazer parte desse novo modelo de educação. Tendo aulas no contra turno, isto é, como as escolas não tem espaço para abrigar os alunos no contra turno, essas parcerias tem a possibilidade de realizar atividades fora do período escolar convencional. Assim, as 12 escolas que foram construídas ou reformadas de lá pra cá, e mais 22 que estão em obras, que foram pensadas nessa educação em tempo integral. Quando nós chegamos havia 68 prédios. Agente entende que a escola faz parte da comunidade, não um local isolado, que corresponde ao professor, diretor e alunos, mas que ela fazer de toda a sociedade, que precisa estar mais presente. Dessa forma, a escola total proporciona com que os alunos tenham educação em tempo integral. Nós buscamos outras linguagens para ensinar as disciplinas tradicionais como o português e a matemática. Porque a gente acredita que todos os alunos são capazes de aprender. Em determinado momento a criança precisa ter uma aula de música, para que aprenda gramática, a culinária pra aprender matemática. E assim, buscar outras maneiras mais agradáveis para que os alunos absorvam o maior conhecimento possível.
O que são os parceiros de saber?
Nós queremos erradicar o analfabetismo. Os nossos analfabetos estão de passagem por Santos. Os canteiros de obras espalhados pela cidade empregam pessoas, que não tem instrução. Então, a gente se apresenta, em parceira com empresários e o Rotary, para que essas pessoas tiverem o interesse em voltar aos estudos nós proporcionamos professores e material escolar e eles montam uma sala de aula.
Santos possui déficit de vagas nas creches?
Quando nós entramos, em 2005, as manchetes diziam que havia mais de cinco mil crianças fora das creches. O que era uma mentira. Na realidade, havia realmente um déficit, mas de duas mil crianças. Dessas duas mil, apenas 500 ficavam sem creche, porque as outras mil e cinquentas não procuravam as vagas, porque culturalmente os pais não queriam seus filhos em creches. Então, nós criamos parcerias com entidades filantrópicas, aliado a um projeto pedagógico. Em 2010, nós solucionamos esse problema. Hoje nós temos 200 vagas sobrando em creches de Santos. Não temos do lado da sua casa, mas temos na cidade de Santos. Há pais que estão com seus filhos matriculados em uma determinada creche, mas gostariam de outra, que esta lotada, então as crianças ficam na lista de espera, o que não significa que são crianças sem creche, o que acontece é que elas estão matriculadas e também estão na lista de espera.
Essa estratégia é o principal motivo para que Santos conseguisse uma nota maior que a média nacional, na avaliação do IDEB?
Eu creio que sim, essas atividades proporcionam um aprendizado maior. Outra estratégia que nós adotamos, foi a compra de uma coleção de livros, chamada Cidade Educadora. Essa coleção vai construindo com o aluno o conhecimento dele. Não são livros fechados, eles estimulam a interação. Então as crianças levam o livro pra casa, e eles entrevistam os pais, avós, aguçam a curiosidade. Além de tudo isso, a cada dois meses eles trocam de livro, e é feita uma avaliação mais dinâmica, sobre aonde esses alunos estão tendo mais dificuldade, e assim, o professor tem uma ferramenta pra trabalhar melhor aquela criança. Cada aluno aprende de uma forma, não tem aluno que não aprenda.
O que mudou nessa nova geração de alunos?
Quando eu estudava a escola era uma instituição muito respeitada. O professor tinha autoridade inquestionável e nós éramos obrigados a aprender da maneira que fosse por seríamos cobrados lá na frente. A minha geração teve a intervenção da Ditadura Militar, que nos impôs regras muito rígidas. Então, durante a faculdade eu não podia me reunir nas esquinas de Santos, ou fazer rodinhas na faculdade porque seríamos presos. Com o fim da Ditadura, nós mesmos, começamos a mudar essa realidade, mas essa abertura, essa liberdade tomou proporções em que o jovem ele perdeu o respeito até dentro de caso. O jovem de hoje chega na escola sabendo muito mais sobre os seus direitos do que os seus deveres. Isso leva para uma sociedade que se desorganiza. A escola não é respeitada, o professor não é respeitado. Então, o aluno joga uma mochila numa professora, ela se machuca, e nós como educadores temos que solucionar situação, e o jovem defendido pelo Estatuto da Criança e Adolescente e o professor perde autoridade. Toda autoridade é questionada. Uma criança de seis anos já sabe que tem seus direitos, que pode ser reprimida e isso causa, um problema de falta de disciplina muito grande. A sociedade vive um dilema. Ao mesmo tempo que é necessário que as crianças saibam que estão respaldadas por uma legislação específica, que saibam os direitos. É preciso entender que elas também tem deveres e que a impunidade não pode reinar. Os pais estão tendo dificuldade em colocar limites nos seus filhos. Assim, quando elas chegam na escola, elas não tem respeito por nada. A escola não está violenta, mas a sociedade está violenta. O professor perdeu a autoridade porque os valores estão se perdendo. A família precisa ter a visão de que só a escola não faz a educação. É um processo contínuo entre a família, a comunidade e a escola.
Qual a participação dos pais nesse modelo de escola integral?
Nós fortalecemos os conselhos de pais nas escolas. Todas as escolas tem o conselho e todos os anos nós fazemos as eleições desse conselho. Assim, nós discutimos as questões da gestão financeira da escola. Porque cada escola recebe um dinheiro da prefeitura, são quatro Reais, por criança. Com esse dinheiro a diretoria resolve pequenos problemas do dia a dia. O conselho tem o poder de avaliar questões pedagógicas. Por exemplo, um professor que não está trabalhando bem, e tentar ajudar o professor a dar uma boa aula. Ajudar nos casos de violência entre os alunos, e entre alunos e professores.
Quantos alunos tem a rede municipal?
Existem 40 mil alunos. Com classes com 30 a 35 alunos. Quando passa de 35 nós somos obrigados a contratar um segundo professor. Por essa razão de termos um número de alunos por sala de aula muito alto, é que nós conseguimos equacionar pedagogicamente a relação professor e alunos. O Plano Nacional de Educação, que está sendo votado no Congresso Nacional, diz que cada classe deve ter no máximo 25 alunos. O que numa cidade como Santos, que tem uma dificuldade muito grande de arranjar terreno é um desafio, mas nós estamos trabalhando para que novas escolas sejam construídas para atender a essa demanda de 25 alunos por classe, e para que todas as escolas tenham educação em tempo integral. Contudo, as projeções indicam, que Santos já equalizou o crescimento da população nas escolas. Ou seja, o número de estudante não cresce. O mesmo número de alunos que entram na escola, também deixa a escola. Diferente do que ocorre nas cidades da Região, em que a cada ano mais alunos entram pra escola, e mais escolas tem que ser construídas pra atender a essa demanda, Santos já superou isso.
Atualmente Santos já conseguiu sanar o número de alunos fora da escola. A nossa preocupação agora é qualidade do ensino. Por isso que a gente se preocupa tanto com a educação em tempo integral.
Porque o professor em Santos recebe menos, que em outras cidade da Região?
A prefeitura é obrigada a destinar 25% da sua arrecadação em impostos para a área da educação. Desses 25%, 60% devem ser empregados para pagar os funcionários da rede pública. O restante é para a compra de material, reformas e construção de novos prédios. Proporcionalmente, nós temos um número de alunos e professores maior, com uma receita menor que o de outros municípios. É preciso ter um plano de cargos e salários. Outras cidades como Praia Grande e Cubatão já fizeram seu plano e ele foi aprovado pela Câmara de Vereadores. Esse plano faz avaliações no profissional, e quanto maio for o desempenho maior é o salário. Desde 2005 nós montamos um grupo, que foi nas escolas conversar com os professores, para que fosse formatado o Plano de Cargos e Salários da secretaria de educação, que foi discutido com mais de três mil professores de Santos. Eu mostrei ao prefeito Papa, em agosto de 2009, e ele decidiu que houvesse um Plano de Cargos e Salários para toda a prefeitura. Então ele quer montar o plano de toda prefeitura e mandar tudo junto para a Câmara, entretanto, o Plano da educação já está pronto e nós estamos pressionando, para que em agosto o plano da educação seja entregue a Câmara. Assim, uma séria de problemas que o sindicato nos questiona, serão equacionados. Nós fizemos a nossa parte. Quando a câmara abrir a discussão para aprovação do Plano, o sindicato deve brigar pelas mudanças, pode democraticamente reivindicar os direitos. Antes de ser secretária eu fui professora, forma 42 de dedicação. Eu fui da direção da APEOESP, eu lutei pelo Estatuto do Magistério, eu entendo a dificuldade, falo em qualquer lugar que o salário do professor é baixo. Quando alguém diz que o salário do professor é 136 Reais essa pessoa está mentindo. Eu fui Brasília lutar pelo piso salarial. O que as pessoas confundem: nós realizamos concursos para professores substitutos. O único direito que ele tem é trabalhar 25 horas por mês, para pagar a condução de casa para a escola. Então, ele recebe por volta de 250 Reais, não é nem os 136 reais, que dizem por aí. Isso vai para a imprensa e choca a sociedade, mas isso não é a realidade, porque isso é apenas o início de carreira. E quando ele é aprovado e quer trabalhar nessas condições ele assina um documento, em que está ciente de tudo isso.
Haverá concurso público este ano?
Sim, é necessário. Até o final de julho nós estamos contratando, em regime temporário 230 professores. Assim nós acreditamos que o problema de falta de professores seja solucionado. Mas de qualquer maneira, em agosto nós teremos um concurso público para os professores da rede pública municipal.
Como está a falta de professores na Escola Ediméia?
Nós tivemos uma reunião há poucos dias, e lá não há mais falta de professor. Os alunos ficaram um período sem aula, mas nós estamos repondo esse conteúdo.
Falta merenda para os alunos da rede pública municipal?
Não. O que a acontece é que as pessoas fazem uma reclamação, mesmo sem ter todas as informações, e os repórteres vão em busca dessa denúncia. Então, na época, fevereiro deste ano, a repórter do Jornal A Tribuna, foi à escola Cidade de Santos e entrevistou um menino que disse que passava cinco horas com a apenas um copo de leite e duas bolachas. Infelizmente, a repórter não ouviu o outro lado da história. Nós ficamos angustiados com essa matéria, porque nós sabemos que essa informação é incorreta. Você pode ir em qualquer escola, e verá que elas estão abarrotadas de mantimentos. Então, nós ligamos para a redação e pedimos para que a repórter fosse a escola, eu estava indo pra lá para que pudéssemos esclarecer o caso, e ela pudesse ouvir o outro lado. A diretora me explicou que não faltava nada, e realmente a escola estava bastante abastecida. O que aconteceu, é que os alunos que entram as 13 horas, devem chegar na escola às 12h30 para almoçar arroz, feijão, carne e etecétera. Por volta das 16 horas, os alunos tomam leite, com algumas bolachas. Com permissão para comerem e beberem o quanto quiserem. Portanto, o menino entrevistado pela repórter entrava as 13 horas, não se alimentava as 12h30, e, portanto só comiam algumas bolachas com leite durante a tarde, e realmente é bastante tempo para apenas um lanche. Quando nós nos encontramos, eu e a jornalista eu disse a ela, que deveria fazer uma matéria de página inteira mostrando toda a comida que havia na escola, só disse isso. Quando ela chega na redação do jornal, chorando, e minha voz no gravador pedindo uma matéria de página, eu virei a vilã, e partir daí uma série de matérias contra a minha gestão. Eu tive que me desculpar por um erro que eu não cometi.
A senhora foi vereadora pelo PT duas vezes?
Sim, fui vereadora duas vezes, e quando o Davi Capistrano foi eleito prefeito, fiquei pouco mais de um ano e meio, como secretária de educação, depois voltei para a câmara onde achei que teria uma função melhor. Depois fui para o PSB.
Por que a senhora saiu do PT?
Porque eu tive uma disputa muito grande com a Telma. O Davi queria que eu fosse a candidata a prefeita e a Telma já queria ser prefeita, como ela sempre deseja. Eu fui fundadora do partido, presidente do partido, estive 18 anos no PT. Esperei terminar o meu mandato, porque eu tinha um compromisso assumido com a população e deixe o partido. Então, o Márcio França veio conversar comigo disse que eu formaria o grupo de mulheres do PSB, mas não deu certo. O João Paulo (Tavares Papa) é meu amigo a bastante tempo, me chamou para participar do Plano de Governo dele, e posteriormente eu virei secretária dele, com
a condição de que eu não me filiaria a nenhum partido.
Qual a diferença entre ser secretária de um governo do PT e do PMDB?
Em termos de iniciativa, em querer mudar, trazer soluções, inovações, não há diferença entre eles. Ambos acreditam que a educação é transformadora, fazem grandes investimentos. O João Paulo é muito dedicado a educação, ele entende que é uma prioridade.
A senhora tem o desejo de se tornar prefeita de Santos?
Não serei candidata a nada. Não pretendo nem me filiar a nenhum partido. Acredito que tenha bastante gente nova pra mudar a política e trazer coisas novas.
O candidato a prefeitura, que for apoiado pelo Papa, na sua visão, é o que tem mais chances de ser eleito?
Eu acho que tem muita força. Mas ele não pode perder o tempo político, se não ele vai acabar não conseguindo aprovar os projetos grandiosos que ele tanto deseja. Ele precisa eleger um seguidor.