Polícia Federal acusa senador Jaques Wagner (PT) de receber vantagens; ele nega
A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, que autorizou a nona fase da Operação Compliance Zero deflagrada nesta quinta-feira (18) tomou com base investigação da Polícia Federal.
De acordo com a apuração policial, o senador Jaques Wagner (PT-BA) teria recebido um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões do banqueiro Augusto Ferreira Lima, ex-sócio do Banco Master.
Em entrevista à Band News, Wagner negou irregularidades e afirmou estar “absolutamente tranquilo” em relação à investigação.
“Até agora, não sou réu; não sou culpado; não sou nada. É uma investigação em cima do que eu imagino que a Polícia Federal encontrou em celulares [apreendidos] ou em alguma delação de alguém que eu desconheço”.
Em sua decisão, Mendonça afirma que a PF teve base para pedir que o STF imponha restrições legais aos alvos da 9ª fase da operação.
“Elementos indicativos de recebimento de vantagens econômicas indevidas pelo parlamentar, direta ou indiretamente, por intermédio de familiares, pessoas de confiança e estruturas societárias vinculadas ao grupo econômico investigado”, sustentou.
Os investigadores também dizem que “a possível relação ilícita” entre Wagner e Lima “seria antiga, próxima e marcada por elevado grau de confiança pessoal”.
Fato que “teria criado ambiente propício à realização de tratativas reservadas em prol da defesa de interesses privados do Banco Master”.
Apartamento
Ainda de acordo com a Polícia Federal, o próprio senador teria escolhido um apartamento do residencial Poème Horto, construído em um bairro nobre de Salvador, o Horto Florestal.
O documento afirma que Wagner encaminhou a Lima dados do empreendimento e do corretor responsável pela venda da unidade.
De posse dos dados, Lima teria acionado Valério Marega Júnior, apontado como “operador financeiro” do Banco Master, a fim de tratar da compra do imóvel.
A negociação ocorreu com a participação de Daniel e David Lopes Monteiro, dupla que a PF afirma estar vinculada ao núcleo empresarial e jurídico-financeiro do Banco Master.
Wagner admitiu conhecer o banqueiro Augusto Lima há algum tempo.
Porém, negou ter qualquer vínculo com o Banco Master ou com Daniel Vorcaro, com quem garante ter se encontrado apenas duas vezes.
O parlamentar também admitiu ter pedido a Lima que comprasse um apartamento do residencial Poème Horto, com a intenção de adquiri-lo em um segundo momento.
“Eu tinha interesse de dar, de ajudar a minha filha a comprar um apartamento destes. Como o Guga [Augusto Lima] é um investidor, disse a ele: “Você pode comprar? Depois eu vou recomprar. Porque o apartamento está em construção, não está pronto, e eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder complementar e pagar o apartamento. Ou ela financiar”, contou Wagner.
Por fim, na entrevista, ele destacou não haver registros de transferência patrimonial para o seu nome.
Repasses
A PF aponta que o senador teria recebido outras vantagens econômicas do banqueiro, incluindo o repasse de mais de R$ 5,5 milhões à BN Financeira.
Tal empresa é administrada por parentes do político.
Porém, para os investigadores, ela ocupa papel central no “eixo dos pagamentos supostamente destinados ao núcleo familiar de Jaques Wagner”.
Ainda entre as vantagens supostamente recebidas, a PF cita o uso gratuito de aeronaves custeadas por Lima e pelo Banco Master.
Além disso, o recebimento de ingressos para shows da cantora Taylor Swift nos Estados Unidos.
Parte dessas informações constam nos dados extraídos de telefones celulares de Lima, apreendidos durante a primeira fase da Operação Compliance Zero, em 18 de novembro de 2025.
Assim, na representação entregue a Mendonça, a PF reproduziu áudios e mensagens em que Wagner e Lima combinam de se encontrar em uma ilha pertencente ao banqueiro.
Aliás, ele colocou uma aeronave à disposição do político para levá-lo.
Show
A PF também extraiu mensagens em que o senador questiona um funcionário de Lima sobre os ingressos para o camarote em um show em Los Angeles (EUA) que o banqueiro ofereceu a parentes de Wagner.
Assim, segundo os investigadores, a compra dos convites decorre da Reag Investimentos, por R$ 63,33 mil.
Emenda
A investigação da PF aponta a atuação do senador em temas regulatórios de interesse do grupo Master.
Cita, como exemplo, o fato de Wagner ter apresentado uma emenda parlamentar (nº 30), durante o trâmite da Medida Provisória nº 1.106/2022, com limites para cobrança de juros.
A MP resultou na Lei nº 14.431, de 2022, que ampliou a margem de crédito consignado aos segurados do Regime Geral de Previdência Social (RGPS).
Além disso, autorizou a realização de empréstimos e financiamentos mediante crédito consignado para beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e de programas federais de transferência de renda.
“De acordo com a representação [da PF], o Senador teria mantido interlocução direta com Augusto Lima sobre temas relacionados à elevação da margem consignável da remuneração disponível”, destaca Mendonça, acrescentando que, ainda de acordo com a PF, Wagner também apresentou a Emenda nº 26 à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 65/2023, que confere autonomia orçamentária, financeira e operacional ao Banco Central.
O senador refutou ter atuado para favorecer interesses privados do grupo econômico, destacando ter votado contra uma proposta defendida pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), a chamada Emenda Master.
Nogueira também é acusado de relações pessoais e financeiras com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Master.
Aliás, a emenda defendia que o limite do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) fosse ampliado dos atuais R$ 250 mil para R$ 1 milhão por CPF ou CNPJ.
“O governo foi contra o aumento da garantia do FGC. Eu, como líder do governo, encaminhei contra essa emenda”, lembrou Wagner.
Porém, nada mencionou sobre outras propostas parlamentares que, segundo a PF, beneficiariam o Master.
O parlamentar também minimizou o fato de ter recebido, de Lima, um link para a emenda.
“É normal. Qualquer senador é procurado pelos interessados na votação de uma matéria, que tentam convencê-lo votar naquela matéria”.
Candidatura mantida
Por fim, o senador garantiu que sua candidatura ao Senado está mantida.
Além disso, disse não acreditar que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o retire da liderança do governo federal no Senado.
“Continuo na liderança até que o presidente Lula peça para eu me retirar. Não acho que ele vai fazer isso, mas se fizer, é um direito dele. O cargo de líder do governo é do presidente da República”.
Em nota, a defesa de Augusto Lima classificou as diligências desta manhã como “desnecessárias”.
“Augusto Lima está há seis meses à disposição das autoridades para esclarecer os fatos em apuração. De todo modo, as medidas contribuirão para demonstrar que os fatos apurados nesta fase da investigação são rigorosamente lícitos”.
Dinheiro apreendido
O parlamentar confirmou que, ao cumprirem mandado de busca e apreensão em sua residência, em Brasília, os policiais federais apreenderam US$ 49 mil dólares em dinheiro (o equivalente a cerca de R$ 250 mil).
Segundo nota divulgada pela assessoria do senador, parte do dinheiro provém de diárias oficiais pagas em espécie pelo próprio Senado Federal.
Ou seja, para missões parlamentares oficiais ao exterior, além de recursos próprios, devidamente declarados no Imposto de Renda.
“Comprei, via Banco do Brasil, dólares ou euros para fazer a viagem. Não tenho nada a esconder sobre este dinheiro. Ele está guardado em um cofre porque [quando] eu vou viajar, nem sempre eu levo a diária”, explica.
“Às vezes eu gasto com cartão e o dinheiro está lá”, afirmou Wagner, assegurando que o dinheiro apreendido estava dentro de envelopes com o timbre do Senado.
Confira a íntegra da nota da assessoria do senador Jaques Wagner
“O senador Jaques Wagner (PT-BA) esclarece que não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados.
O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas.
Cabe esclarecer que o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar.
O senador também nega atuação em favor do Banco Master ou qualquer outra instituição financeira.
Sobre os valores em espécie apreendidos, a assessoria informa que o montante é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais.
Por fim, o senador Jaques Wagner reitera que permanece à inteira disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos, com a certeza de que a verdade prevalecerá.”
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