Doença falciforme vai além da anemia e afeta diversos órgãos do corpo | Boqnews
Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
21 de junho de 2026

Doença falciforme vai além da anemia e afeta diversos órgãos do corpo

A doença falciforme costuma ser associada apenas à anemia, mas seus efeitos vão muito além. De origem genética e hereditária, a condição afeta diversos órgãos e sistemas do organismo, comprometendo a qualidade de vida de milhares de brasileiros.

Segundo estimativas do Ministério da Saúde, entre 60 mil e 100 mil pessoas convivem com a doença no Brasil. O tema ganha destaque nesta quinta-feira (19), quando é celebrado o Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Falciforme. A Organização das Nações Unidas (ONU) criou a data para ampliar o conhecimento da população sobre a enfermidade e combater o preconceito.

Em entrevista à Agência Brasil, a hematologista Marimília Pita explicou que todos os pacientes com doença falciforme apresentam anemia. No entanto, o problema não se limita à alteração sanguínea.

“A doença falciforme é sistêmica. Ela afeta todos os órgãos do corpo e é transmitida geneticamente de pais para filhos”, destacou a especialista.

Como a doença afeta o organismo

A condição surge por causa de uma alteração genética que modifica o formato das hemácias, células responsáveis pelo transporte de oxigênio no sangue. Em vez do formato arredondado e flexível, elas assumem uma aparência semelhante a uma foice, tornando-se rígidas e mais frágeis.

Como consequência, essas células vivem menos tempo e podem obstruir pequenos vasos sanguíneos. Além disso, elas dificultam a circulação e reduzem a oxigenação dos tecidos.

De acordo com Marimília Pita, essa obstrução provoca pequenos infartos em diferentes partes do corpo. Com o passar dos anos, o problema compromete gradualmente o funcionamento de órgãos como coração, pulmões, rins e olhos.

Diagnóstico precoce faz diferença

Os profissionais de saúde identificam a doença ainda nos primeiros dias de vida por meio do Teste do Pezinho. Há cerca de 25 anos, o exame inclui a pesquisa de hemoglobinas alteradas que identificam a doença falciforme.

Para os especialistas, a descoberta precoce permite iniciar o acompanhamento médico rapidamente e reduzir riscos. Além disso, o tratamento precoce ajuda a prevenir infecções graves, que historicamente aparecem entre as principais causas de mortalidade infantil nesses pacientes.

Embora a maioria dos casos não tenha cura definitiva, médicos controlam os sintomas e previnem complicações com acompanhamento adequado. Em situações específicas, o transplante de medula óssea oferece uma alternativa de tratamento com potencial curativo.

Crises de dor estão entre os principais sintomas

As crises dolorosas figuram entre as manifestações mais conhecidas da doença falciforme. Elas surgem quando as hemácias deformadas bloqueiam a passagem do sangue em pequenos vasos.

A dor costuma atingir ossos e articulações. No entanto, ela também pode aparecer em outras regiões do corpo. Em crianças, o problema frequentemente provoca inchaço e vermelhidão nas mãos e nos pés.

Segundo a hematologista, muitos pacientes enfrentam episódios tão intensos que necessitam de internação hospitalar e uso de medicamentos potentes para o controle da dor.

A especialista também alerta para a necessidade de capacitar equipes médicas e ampliar o acesso ao tratamento adequado durante as crises.

Racismo e desigualdade agravam desafios

Além das complicações físicas, pacientes com doença falciforme convivem com barreiras sociais. A mutação genética ocorre com maior frequência em pessoas negras devido à sua origem histórica ligada ao continente africano.

Por isso, especialistas apontam que o racismo estrutural e as desigualdades socioeconômicas dificultam o acesso ao diagnóstico, ao tratamento e aos direitos garantidos aos pacientes.

Apesar disso, a doença não se limita à população negra. Diversas regiões do mundo registram casos da enfermidade, incluindo Europa, Oriente Médio, Índia, Américas e Oceania.

Histórias de superação

A reportagem da Agência Brasil também ouviu pacientes e familiares que convivem com a doença há décadas. Entre eles está Agner Eduardo da Silva, diagnosticado ainda na infância após anos de crises de dor sem explicação.

Hoje, aos 47 anos, ele é advogado, casado e pai de uma filha. Sua mãe, Nilceia Alves Gomes da Silva, destaca que a doença não impediu a construção de uma vida plena.

Outro exemplo é Lucas Henrique Gama Nascimento, de 35 anos. Apesar das inúmeras internações ao longo da vida, ele conseguiu se formar em uma instituição federal de ensino e também se tornou escritor.

As histórias reforçam que o acompanhamento adequado, o acesso à informação e o diagnóstico precoce ajudam pacientes a construir trajetórias de superação e autonomia.

Crédito: Matéria produzida com informações da Agência Brasil.

Agência Brasil
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