Especialistas explicam como brinquedos estimulam a criatividade
Nesta segunda-feira (12), comemora-se o Dia das Crianças, data sinônimo de presentes para os pequenos. Contudo, vale mencionar que os brinquedos proporcionam momentos de alegria, mas também contribuem para o desenvolvimento das crianças.
Brinquedos
Segundo o psicólogo Marcelo Marques de Oliveira, brincar é um dos pilares mais importantes para o desenvolvimento integral infantil, abrangendo de forma profunda os aspectos cognitivo, emocional e social. Dentro dessa dinâmica, o brinquedo atua como um instrumento ou uma ponte que facilita e viabiliza o acesso da criança ao universo do brincar.
“Embora os brinquedos industrializados adquiridos em lojas não sejam estritamente fundamentais por si sós, eles podem se tornar recursos ricos e válidos para o desenvolvimento global, desde que respeitem o processo de aprendizagem e as diferentes etapas do crescimento. Para cumprir esse papel, esses objetos devem garantir a segurança física, ampliar o repertório infantil e promover o estímulo à criatividade e ao desenvolvimento de novas habilidades. Em síntese, enquanto o brinquedo serve como o suporte físico para impulsionar a imaginação, é o fazer brincar que se consolida como a experiência verdadeiramente essencial.”
Escolha
Sobre como os pais podem escolher brinquedos que estimulem a criatividade e a autonomia da criança, sem transformar a brincadeira em uma atividade excessivamente dirigida, ele menciona que a brincadeira precisa ser explorada a partir da própria criança, cabendo ao adulto o papel de tutelar esse momento para garantir a segurança física, emocional e do desenvolvimento.
“Permitir essa permissibilidade para que a criança explore os recursos, descubra coisas novas e se surpreenda é de extrema importância. Na escolha dos brinquedos, considerando a grande produção da indústria mercadológica, deve-se optar por aqueles que possuem aprovação de órgãos responsáveis, como o Inmetro. Além disso, o adulto pode ser um grande observador, acompanhando como a criança interage com os objetos e com seus pares, de modo a conduzir experiências de sucesso e amplitude para que a própria criança possa continuar explorando com estímulo e autonomia.”
Desenvolvimento
O psicólogo acrescenta que cada brinquedo ou jogo acaba estimulando partes específicas da mente, como a atenção global ou mais focada. “Chamamos isso de funções executivas, que são as habilidades mentais que nos ajudam a gerenciar o dia a dia; como o foco, a memória de trabalho e o controle dos impulsos.
Os brinquedos são grandes promotores desses estímulos. Eles exigem organização, planejamento, cumprimento de etapas, resolução de problemas e estratégias criativas; como ao montar um quebra-cabeça ou planejar uma jogada no xadrez.”
Assim, ampliamos nosso repertório de aprendizagem para a vida toda, desenvolvendo também noções fundamentais de espaço, tempo e lateralidade. Por isso, a relação entre o brincar e o desenvolvimento cognitivo é direta e fundamental.
Sinais
Aliás, é importante pensar quais são os sinais de que um brinquedo está contribuindo de fato para o desenvolvimento da criança e não apenas servindo como forma de entretenimento.
Assim, brinquedos excessivamente passivos, como os que apenas reproduzem sons ou gravações sem exigir a ação direta da criança, tendem a virar meros objetos de distração. Para que o brincar possa realmente transformador, o recurso precisa estimular o engajamento ativo, a coordenação e a integração sensorial, promovendo que o uso do brinquedo tenha intenção e significado no cotidiano.
Telas
Além disso, o impacto do uso excessivo de telas durante a infância está diretamente ligado à forma como o cérebro das crianças se desenvolve.
Durante a infância, o cérebro passa por uma fase intensa de neuroplasticidade, criando milhões de conexões neurais rapidamente. As experiências reais do ambiente: como tocar objetos, explorar texturas, movimentar o corpo e interagir com outras pessoas; fortalecem os circuitos neurais essenciais para o desenvolvimento motor, cognitivo, social e emocional.
“O uso excessivo de telas traz alguns prejuízos diretos a esse processo: A tela oferece estímulos visuais e auditivos rápidos sem exigir esforço ativo do cérebro, o que pode prejudicar a capacidade de atenção, foco e tolerância à frustração. Ao passar horas diante de uma tela, a criança deixa de vivenciar o brincar físico, que envolve a exploração sensorial, a criatividade, a resolução de problemas e o contato interpessoal.”
Dessa forma, o aprendizado da fala e da leitura emocional exige troca de olhares, expressões faciais e interação em tempo real com adultos e outras crianças, algo que as telas não conseguem substituir adequadamente.
O brincar ativo e o uso de brinquedos concretos continuam sendo fundamentais para que as conexões neurais se estabeleçam de maneira saudável e equilibrada.
Autismo
Aliás, a orientadora educacional da Educação Infantil e Ensino Fundamental I do colégio Progresso Bilíngue de Santos Viviane de Souza Martins comenta sobre quais características devem ser consideradas na escolha de brinquedos para crianças autistas, levando em conta que cada criança possui necessidades e preferências diferentes.
“O primeiro ponto é não pensar em “um brinquedo para crianças autistas”, mas em um brinquedo que faça sentido para aquela criança. O espectro do autismo é bastante heterogêneo, então é importante considerar idade e nível de desenvolvimento, interesses, habilidades motoras e de comunicação e, principalmente, a forma como a criança responde aos estímulos do ambiente.”
Também é interessante observar se o brinquedo desperta curiosidade e permite diferentes formas de brincar. Um bom brinquedo não precisa necessariamente ensinar uma habilidade específica: ele pode simplesmente proporcionar prazer, favorecer a autonomia e criar oportunidades de interação com outras pessoas. O interesse espontâneo da criança é um importante ponto de partida para o adulto se aproximar e ampliar as possibilidades de brincadeira.
Habilidades
Mais do que pensar em categorias fechadas, é interessante escolher brinquedos que criem oportunidades para a criança experimentar, fazer escolhas, esperar sua vez, imitar ações e compartilhar uma atividade com outra pessoa.
Jogos de encaixe, blocos de montar, quebra-cabeças e atividades de desenho ou pintura podem favorecer habilidades motoras e de resolução de problemas. Livros, bonecos, animais, carrinhos e outros brinquedos que permitam criar histórias podem ser utilizados para estimular comunicação, imaginação e brincadeiras compartilhadas. Jogos simples de turnos também podem ajudar a trabalhar aspectos como espera, atenção conjunta e interação.
Já os brinquedos com diferentes texturas, movimentos ou estímulos sonoros e visuais podem ser interessantes para algumas crianças, especialmente quando esses estímulos correspondem às suas preferências sensoriais. Mas é importante não presumir que todo estímulo sensorial será benéfico para toda criança autista. O que pode ser agradável e regulador para uma criança pode ser incômodo ou excessivo para outra.
Adequado
Sobre como os pais podem identificar se determinado brinquedo é adequado para o perfil sensorial da criança, especialmente em relação a sons, luzes, texturas e movimentos, a orientadora aborda que a principal estratégia é observar a resposta da própria criança. É importante perceber se ela se aproxima espontaneamente do brinquedo, demonstra interesse e consegue permanecer envolvida na atividade ou, ao contrário, apresenta sinais de desconforto, tenta se afastar, fica agitada ou demonstra sobrecarga diante daquele estímulo.
“Também vale observar que a sensibilidade não é necessariamente igual para todos os estímulos. Uma criança pode gostar muito de determinados sons e se incomodar com outros, por exemplo. Por isso, não é adequado concluir que uma criança autista “gosta” ou “não gosta” de estímulos sensoriais de maneira geral.”
Quando existem dúvidas importantes sobre o processamento sensorial ou quando determinadas reações interferem na participação da criança em atividades cotidianas, a família pode buscar orientação de profissionais que acompanham a criança, como terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo ou outros especialistas, conforme a necessidade. A avaliação deve considerar o impacto desses estímulos na vida da criança, e não apenas a reação isolada a um brinquedo.
Confira as notícias do Boqnews no Google News e fique bem informado.