Saúde

Um ano depois, profissionais do Mais Médicos que trabalham na região contam suas histórias

A Baixada Santista abriga 151 especialistas oriundos do programa Mais Médicos

21 de novembro de 2014 - 20:07

Nara Assunção

Da Redação

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Um olhar, uma pergunta, o simples posicionamento da cadeira dentro do consultório. São detalhes que podem significar pouco, mas que fazem toda a diferença na humanização do atendimento de saúde. Este zelo é nítido ao acompanhar o atendimento dos profissionais do Programa Mais Médicos, do Governo Federal, em parceria com os municípios.

Há um ano, eles chegavam em grupos ao País debaixo de protestos dos médicos brasileiros e à sombra de desconfiança da população. Um ano depois, a atuação é aprovada por moradores – principalmente aqueles que residem em áreas mais carentes, como dona de casa Elisabete da Silva, moradora do bairro Caieiras, de Praia Grande. “São pessoas simples, tratam a gente como deveria ser. Achei espetacular o atendimento. Melhorou bastante desde que eles chegaram. É a segunda vez que passo por eles “, ressaltou Elisabete, após uma consulta com o médico cubano Juan Manoel.

QUADRO MAIS MEDICOS NA BAIXDA SANTISTAC

Os médicos do programa atuam na área de Saúde da Família (PSF), prestando orientação e estimulando a prevenção de doenças como hipertensão, diabetes, tuberculose. Em Santos, a chefe do Departamento de Atenção Básica, Carolina Ozawa, responsável pelos profissionais, destaca a importância do serviço prestado. “Tivemos um grande impacto em áreas de maior dificuldade, mais vulnerabilidade social e de difícil acesso. Juntos, eles realizam mais de 12 mil consultas/mês”, destaca.

“Eles não têm relatado dificuldades, nem com a questão da língua. Estão se adaptando aos protocolos do município”, ressalta.

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Moraima Martínez
Atua na USF Vila Ema/ Nova São Vicente

A simpatia é uma das características marcantes de Moraima Martínez, 47 anos. Formada em Medicina há 24 anos, ela veio ao Brasil depois de passar quatro anos na Venezuela, deixando em sua terra natal esposo, dois filhos (um de 24 e o outra de 18) e uma neta de seis anos. “A saudade é grande. Converso quase todos os dias por telefone ou e-mail”.

Ela explica o motivo que ela decidiu vir ao País. “Quando começaram a falar sobre os problemas médicos daqui, fui pesquisar para conhecer. O Brasil é um País muito grande que tem muitos médicos. E ainda há muitos lugares carentes de profissionais. Lugares longes das cidades, das pessoas indígenas. Eu gosto muito de olhar as crianças e sei que aqui vamos fazer tudo. Falei com minha família e eles disseram ‘se você que ir,vá'”.

A primeira impressão em terras brasileiras, para ela, foi das melhores. Após ficar um mês em São Paulo fazendo curso de Língua Portuguesa, veio para a Vila Ema, bairro periférico da Área Continental de São Vicente. “A cidade é muito bonita, a primeira do Brasil! Tem belas praias, que só não são melhores que as de Cuba”, diz, em meio aos risos.

Moraima reside em um apartamento no Centro vicentino, e vai ao local de trabalho todos os dias de lotação, com um cartão transporte fornecido pela Prefeitura. Costuma conversar muito com os pacientes. Nas visitas que faz às residências, acompanhada dos agentes comunitários de saúde, busca entender os problemas e passar orientações, com muito cuidado. “Os pacientes me ajudaram assim como as pessoas que trabalham na unidade”. Todos saem contentes da consulta.

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Juan Manoel
Atua na USAFA Tupiry/ Praia Grande

O cubano Juan Manoel iniciou os estudos em1994 e concluiu a graduação em 2000. Após este período, fez dois anos de serviço social em hospitais de sua terra natal e, em seguida, se especializou em clínica geral. Sua primeira missão internacional foi na Argélia, onde atuou por quatro anos. “Uma realidade totalmente diferente”.

Após retornar da missão, trabalhou com atenção básica, até ficar sabendo do programa Mais Médicos. Ele, que é casado e tem dois filhos (um de nove anos e outro de dois), não pensou duas vezes e se inscreveu. Fez um curso de Língua Portuguesa e chegou ao Brasil há um ano. Atua no bairro Tupiry, área carente de Praia Grande.

“O programa tem uma aceitação muito boa por todos os brasileiros, porque os atendimentos têm melhorado. Aqui há muito caso de tuberculose e drogas. Temos muitos trabalho. As consultas são cheias”, conta ele, que não entende o motivo de não fazer plantão – todos trabalham de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas. Ele lembra que a língua ainda é um grande desafio, mas que com jeito consegue atender bem a população. “Eu falo para o paciente que se tiver alguma dúvida para dizer, pois eu falo mais devagar. Fazemos a consulta, visita domiciliar a idoso, amputado, cadeirante…”

A relação de amizade com os pacientes já gera convites para festas e churrascos. A saudade da família é diminuída por meio de telefone e internet. E o que o estimula a enfrentar tudo isso? “Na formação de Medicina na Universidade de Cuba, antes da parte financeira, somos treinados a fazer nosso trabalho com amor. A ajuda que fazemos aqui no Brasil é desinteressada. Não viemos para mudar algo, apenas queremos trocar experiências”.

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Aylen Maleyn
Atua na USAFA Tupi/ Praia Grande

Antes de vir para o Brasil, há oito meses, o médico cubano Aylen Maleyn atuava em uma missão na Venezuela. “Lá fizeram uma seleção e fomos convidados para vir ao Brasil. Quem aceitou voltou a Cuba para fazer aulas de Português e atualização em Medicina”, explica o clínico geral. Três motivos ajudaram na decisão de mais uma vez sair de seu país.

“Em primeiro, nos formamos em Cuba como médicos internacionalistas. Nosso objetivo não é econômico nem crescer individualmente, mas ajudar a população mundial. Segundo, nós tivemos o estudo totalmente de graça, por isso, temos disposição para sair e trabalhar em qualquer lugar do mundo. Terceiro é melhorar a situação da família, econômica e sentimentalmente. Meus pais têm muito orgulho de mim”, ressalta o médico que também tem um filho de dois anos.

A distância, segundo ele, é bastante forte. “Tento – como vocês falam – matar as saudades falando todas as semanas por telefone, sabendo todas as novidades”, diz Aylen, que pretende voltar ao país após terminar o contrato. O médico ainda fala com certa dificuldade a Língua Portuguesa, mas como ele mesmo diz o importante é o paciente entender e isso está acontecendo. “Ainda não falamos um Português certo, mas tentamos. Sempre pergunto se eles tem dúvidas e volto a explicar até que eles entendam perfeitamente”. Assim confirmou a paciente Josefa dos Santos, atendida na última quarta-feira (19) pelo médico. “Foi muito atencioso e deu para entender tudo”, ressalta.

E a impressão dele quanto aos brasileiros não poderia ser melhor. Para ele, são todos extremamente educados. “Muito difícil encontrar quem não fale bom dia. E com esta recepção somos capazes de enfrentar qualquer coisa”, diz. No campo social, a vida também está boa, principalmente com os colegas.

 

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