Ponto de vista
E agora, Marina?
Independentemente da
decisão tomada por Marina Silva e dos convites para filiação no PPS e no PTB, o
registro negado à Rede Sustentabilidade serve como termômetro para sentirmos os
cheiros intestinais da política partidária brasileira. Marina teria, enquanto eu
produzo este texto, algumas horas para se filiar a qualquer partido se desejar
concorrer à Presidência da República, em 2014.
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral é, obviamente,
política, assim como quaisquer atos jurídicos. No entanto, o passado recente
indica que o grau de contaminação político-partidária alcançou a elite das
togas. A derrota da ex-senadora é mais um sinal que se soma, por exemplo, ao
julgamento do mensalão e, no caso dos novos partidos, à sensação de que podem
existir vários pesos e várias medidas, com forte influência subjetiva na batida
dos martelos.
Soa realmente estranho assistirmos à criação de dois novos
partidos, o Solidariedade e o Pros, em meio às denúncias de fraudes de
assinaturas, por conveniência, empurradas para debaixo das urnas eletrônicas a
um ano das eleições. São agora 32 partidos, um delírio político, exemplo único
e vergonhoso no mundo.
A derrota da Rede Sustentabilidade também nos esfrega no
rosto o mercadão de pulgas que se tornou a troca de legendas. É pior do que a
dança dos jogadores de futebol, andarilhos que mudam de casa a cada seis meses.
Neste momento, é também conveniente que se rasgue a lei que estabelece os
partidos como proprietários dos mandatos. Prevalece a prostituição por um,
dois minutinhos no horário eleitoral gratuito.
De
vereadores a parlamentares federais, todos mudam de camisa de olho em recursos
de campanha, tempo de TV e visibilidade eleitoral. É o verniz que cobre o
cinismo dos que juram justificativas ideológicas e outros falsos amores para
pular de barco.
Marina
Silva, diante da derrota em curso, preparou um plano B? Ninguém joga fora 20
milhões de votos numa corrida presidencial. A ex-senadora largou o PT por conta
da sujeira que o envolvia. Divorciou-se do PV, um saco de gatos que finge
apreço pelo meio ambiente e é comandado há 12 anos pelo mesmo grupo.
Os
convites do PPS e do PTB nasceram de última hora? Até ontem, o PPS jogava
conversa fiada para convencer José Serra a se candidatar novamente à Presidência.
O PTB perdeu toda a essência de sua história no século passado, tornou-se
coadjuvante no cenário político e, em certos endereços, virou guarda-costas dos
tucanos.
Aceitando um dos convites, qual seria a desculpa de Marina
Silva? Como explicar ter jogado pela janela todas as convicções pregadas em
praça pública nos últimos quatro anos? Seria mais uma personalidade a se agarrar
na ética de resultados, nos fins que justificam os meios?
A presidente Dilma Rousseff, até o momento, é a grande
vitoriosa diante da morte da Rede Sustentabilidade. É evidente que as pesquisas
eleitorais pouco acrescentam para o resultado em outubro de 2014. Só retratam
um momento, e o instante atual apontava Marina Silva como a única capaz de
incomodar o passeio de Dilma rumo à reeleição. Mas lembremos que Aécio Neves
ainda não colocou o bloco na rua.
De fato, a Rede natimorta nos mostrou que a política
brasileira segue firme e forte em seus caminhos tortuosos para alcançar as
portas de sempre. No velho ditado do politiquês, uma eleição começa assim que
termina a outra.