Ponto de vista
Carta aberta ao prefeito
Caro prefeito eleito,
Como manda a boa educação,
desejo parabéns pela vitória. Mas, como cidadão, tomo a liberdade de contribuir,
de alguma maneira, para a fase de transição em curso. Peço licença para palpitar
em algumas questões cruciais para o desenvolvimento da cidade, fora da conversa
fiada que marcou as promessas de campanha de vários adversários seus.
Paulo, me permita chamá-lo
pelo nome, não iluda a população com o discurso progressista do pré-sal. Você
tem preparo suficiente para saber que o milagre do óleo negro não se dará tão
cedo. O tema foi pisoteado por má fé, aproveitando que Santos veste o manto da
cidade que poderia ter sido. Mais uma vez, trocamos de galinha dos ovos de ouro
sem nunca ter visto a ave.
A arrogância bairrista e a
retórica provinciana alimentaram sonhos como turismo de negócios,
desenvolvimento sustentável, geração de empregos por expansão imobiliária,
modernização portuária e outras expressões que juravam simbolizar a
transformação social da cidade.
Prefeito, você foi
secretário estadual adjunto da Educação. Poderia pedir a você que aproveitasse
a experiência na pasta e elevasse os níveis das escolas públicas nas avaliações
nacionais. Mas prefiro sugerir, com certa dose de petulância, que você esqueça
em parte – o que aprendeu por lá. Inovar e avançar não costumam ser marcas do
PSDB na rede estadual de ensino.
Os processos de qualificação
de professores precisam de revisão. Abandone o formato fast-food, de oficinas
de final de semana, sem caixa de ressonância nas unidades de ensino.
Professores precisam de melhor remuneração para que se evite êxodo de
profissionais para cidades vizinhas, como aconteceu na gestão de seu
antecessor, governo do qual seu partido foi integrante, nas suas palavras no
horário eleitoral gratuito.
Pondere, por favor, sobre a
política estadual de combate ao crack. O assunto não é problema exclusivo de
segurança pública. A cracolândia, em São Paulo, mais do que provou a
ineficiência da repressão pela repressão. Apoie-se em exemplos daqui e do
exterior, nos quais o crack é questão de saúde pública. Transforme a ideia de
unidades móveis e leitos para tratamento em política pública. E abra a discussão
sobre o tema, invisível na meia dúzia de guetos de consumo 24 horas. Nossa
Senhora de Lourdes agradece!
A campanha eleitoral mal
arranhou o problema ambiental. A expansão selvagem do mercado imobiliário já
começa a trazer consequências para a cidade. Consumo de água e de energia, uso
de rede de esgoto, descarte de lixo. Vamos realmente dar significado à
sustentabilidade? Sairemos, por exemplo, dos índices vergonhosos de reciclagem
de lixo, que patinam em 2%?
Até cegos percebem que
Santos se vestiu de cinza. Um dos principais biólogos brasileiros me mostrou
por A mais B – que o maior problema ambiental é a densidade demográfica,
potencializada pelo trânsito, que incha diariamente em artérias engessadas. O
senhor vai enfrentar o monopólio do transporte coletivo? Ou repetirá o modelo do
Deus-carro?
Um último pedido: Santos
viveu um ano fora do normal na cultura. Festivais de jazz, cinema, teatro,
literatura, mas nenhum deles com apoio consistente da Secretaria de Cultura.
Todos nasceram e cresceram com leis de incentivo ou por iniciativas de outras
entidades. Engorde o orçamento da pasta, e abrace também o Facult, para que
projetos de artistas locais sejam valorizados e quebrem os muros da região em
visibilidade.
Prefeito, quatro anos em política podem representar
o martírio de um administrador ou o terreno arado para a colheita da reeleição.
Depende do projeto de poder, que inclui dobrar ou não o tempo de validade dele.