Sereias impiedosas
Em um passado até um pouco distante, o poderio brasileiro frente a outras equipes do continente, especialmente de nações pouco expressivas no meio futebolístico, como Bolívia e Peru, era destacado com goleadas acachapantes. Jogo duro? Só contra argentinos, uruguaios e, talvez, paraguaios e chilenos. Hoje, o cenário mudou, e enfrentar equipes de Equador e Venezuela já não é sinônimo de barbada há tempos.
Mas no futebol feminino, até por este viver um momento de ascensão em nível internacional, a diferença entre os times é tão elástica quanto alguns dos resultados que surgem, e o time do Santos tem mostrado bem isso, como fez na última terça-feira (6), quando aplicou um sonoro 12 a 0 no modesto Enforma, da Bolívia.
Um resultado que entrou para a história santista como a maior goleada já construída na Vila Belmiro até hoje, superando resultados obtidos mesmo no passado, quando entre um clube e outro, havia uma abissal diferenciação — os recordes anteriores eram duas vitórias por 12 a 1, frente Ypiranga (1927) e Ponte Preta (1959), ambos do time masculino.
Placar elástico? Por incrível que pareça, nem tanto, já que estes números não chegam à metade do que as Sereias da Vila, como são conhecidas as jogadores do time feminino do Santos, já fizeram nessa temporada. Contra o Itariri, na disputa do Campeonato Paulista organizado pela Liga Nacional de Futebol (LINAF), as meninas aplicaram um incrível 27 a 0, fora de casa, nas adversárias. Isso porque, pouco mais de um mês antes, já haviam superado o mesmo rival por 21 a 0, no CT Rei Pelé.
No Estadual da LINAF, foram 164 gols feitos em 23 partidas — média de 7,13 por partida. O previsível título veio com duas vitórias sobre o Corinthians. Destaque para as atacantes Thaís e Ketlen, que juntas marcaram 49 dos gols alvinegros.
Se o time masculino ainda pena para retomar uma rota constante de títulos, e sofre para sair das posições intermediárias no Campeonato Brasileiro, as Sereias mostram que, no País, são elas que comandam. A equipe é também a atual campeã da Copa do Brasil, título que as credenciou para disputar a inédita Copa Libertadores da América de Futebol Feminino, que teve como o próprio Peixe um de seus organizadores, junto à Conmebol, entidade que rege o desporto na América do Sul.
Tanto que as partidas são realizadas na Vila Belmiro e em Guarujá. O objetivo é o de impulsionar o esporte no continente, já que na Europa e nos Estados Unidos, o futebol jogado por mulheres é extremamente natural — nos EUA, o time feminino é orgulho nacional.
O Santos, que na estreia vencera o White Star, do Peru, por 3 a 1, é apontado como o grande favorito ao título do campeonato, principalmente após a badalada chegada da melhor jogadora do mundo segundo a FIFA (entidade máxima do futebol mundial), Marta, e da matadora Cristiane, que na eleição da FIFA, ficou em terceiro lugar, atrás apenas da própria Marta e da alemã Birgit Prinz.
Chegadas contestadas, no primeiro momento, por parte da torcida santista. Em fóruns e conversas, o discurso era “Por que ficam olhando pro feminino, enquanto o profissional não ganha nada?”. Mas o passar dos jogos fez com que as críticas cessassem, e a possibilidade de fazer história e levantar o primeiro caneco internacional de um clube brasileiro tem, inclusive, incentivado a presença do público no estádio.
Contra o White Star, em pleno sábado à noite, foram cerca de 4.500 pessoas apoiar as Sereias. No massacre contra o Enforma, o público, embora menor (3.500 pagantes, aproximadamente), foi significativo, já que a partida ocorreu às 15 horas de uma terça-feira.
Novo show?
As Sereias da Vila voltam a campo neste sábado (10), às 22 horas, contra o Caracas, da Venezuela, e em caso de vitória, podem garantir classificação para a próxima fase da Libertadores. Os ingressos terão preço único de R$ 5,00, para todos os setores da Vila Belmiro, exceto as cadeiras laterais, cujo valor será de R$ 20,00, com meia a R$ 10,00. As vendas terão início às 9 horas, no próprio estádio, e se encerrarão no intervalo do jogo.
Gradual
Embora o Santos possua uma equipe de futebol feminino desde 1997, o espaço só começou a crescer nos últimos dois anos, acompanhado da expansão do próprio esporte no País, especialmente depois de 2004, quando a seleção brasileira alcançou uma inesperada decisão olímpica contra os Estados Unidos, principal potência no desporto, e mesmo jogando melhor, caiu perante as americanas por 2 a 1, na prorrogação.
Em 2007, novo feito, com o bicampeonato dos Jogos Pan-Americanos, com direito a uma goleada por 6 a 0 sobre os EUA, diante de um público de 60 mil pessoas no Maracanã. No mesmo ano, na Copa do Mundo de Futebol Feminino, a seleção de Marta e Cristiane alcançou pela primeira vez uma final, despachando, nas semifinais, as estadunidenses — que prometiam “vingança” contra as brasileiras — por 4 a 0. No entanto, mais uma vez, a inexperiência das meninas e a força física superior das rivais, no caso, as alemãs, prevaleceu, e o título foi para a Alemanha.
A desforra viria em 2008, nos Jogos Olímpicos, em que a seleção golearia as campeãs do mundo por 4 a 1, mas, novamente, tropeçaria nas agora vingadas norte-americanas, que conquistaram, de novo na prorrogação, a medalha de ouro.
De lá para cá, a evolução continua, com a manutenção de torneios oficiais no Brasil e mesmo a formação de categorias de base, ainda que os desempenhos nos Mundiais tenha sido escasso. Em 2008, a seleção sub-20 caiu nas quartas-de-final na categoria, enquanto a sub-17, que entre seus destaques, tinha a santista Ketlen, nem avançou a segunda fase.
Na Vila
A própria evolução do Santos no esporte também acabou sendo gradual. Em 2007, após a conquista da Liga Nacional de Futebol Feminino — considerado o antigo Campeonato Brasileiro —, e do inédito Campeonato Paulista, as Sereias começaram a receber uma atenção pouco antes concedida, à ponto de, pela primeira vez, utilizarem a Vila Belmiro para uma partida oficial, válida pela primeira edição da Copa do Brasil.
Com uniformes e investimentos novos, a equipe vinha para ser a grande candidata ao título nacional. No entanto, a realidade nova pegou as meninas de surpresa. O jogo inicial, por si só, era complicado: o adversário era Botucatu, outro time tido como referência nacional no trabalho com o futebol feminino, e que, nos últimos anos, tornou-se rival ferrenho das santistas.
Após um empate sem gols no interior paulista, era aguardada uma grande festa para o jogo de volta, no estádio Urbano Caldeira, mas que não aconteceu: motivado, Botucatu fez 2 a 1 em plena Vila Belmiro e eliminou o Santos logo na primeira rodada do torneio. Mas a badalação e o fracasso inicial deram resultado no ano seguinte, já que, mais preparadas técnica psicologicamente, as Sereias retomaram o crescimento em 2008, conquistando, no final do ano, a Copa do Brasil.
Mas os resultados, além de enfatizar o Peixe no caminho que o futebol entre as mulheres ainda busca para se firmar, recompensaram o trabalho de Kleiton Lima, que desde 1997 está no comando das meninas da Vila. Já no final de 2007, foi escolhido para treinar a seleção brasileira sub-20, e atualmente, é o comandante da equipe principal.
Kleiton, aliás, trabalha em período quase integral com boa parte da seleção, já que muitas das jogadoras santistas atuam também com a camisa amarela, atualmente. Além de Marta e Cristiane, nomes como Maurine, Erika, Fran e Andreia são frequentes nas convocações.