Sombras da oposição
Com as mudanças e nomeações de três parlamentares para o secretariado do Governo Alckmin, o jogo de xadrez político da região sofreu profundas alterações em relação à votação em outubro passado. Os que cumprirão o mandato a partir de fevereiro na Câmara Federal e na Assembleia Legislativa, a partir de março, serão parlamentares de oposição.
Em comum entre os três, o fato de todos serem oposicionistas aos governos federal e estadual. Um cenário que se coloca como um dos principais desafios para Beto Mansur (PP) e Alberto Mourão (PSDB) em Brasília, e para Telma de Souza (PT), na capital paulista. Já Protógenes Queiroz (PCdoB), um neófito na política, não tem sua base na região. Sua relação se restringe ao fato do parlamentar residir em Guarujá.
Em Brasília
Na Câmara Federal, a maioria dos parlamentares é do PT ou de partidos aliados ao partido da presidente Dilma Rousseff. Um destes aliados é justamente o PP, de Mansur. No entanto, o ex-prefeito santista conta com um histórico de eleições contra o PT na Cidade, fazendo parte de uma ala mais “oposicionista”.
Ala essa próxima, por exemplo, de Paulo Maluf, outro político de tradicionais embates ante os petistas em São Paulo. Mourão, por sua vez, é oposição direta à maioria da Câmara, como membro do PSDB. Márcio França (PSB), que seria a única voz de partido efetivamente coligado ao governo Dilma, alterou o rumo e hoje faz parte do ninho tucano, sendo secretário de Turismo do Estado.
Em São Paulo
Em São Paulo, por sua vez, a ex-prefeita e vereadora mais votada da Cidade, Telma de Souza, além de ser a única representante da região depois da indicação de Bruno Covas e Paulo Alexandre Barbosa (ambos do PSDB) para cargos no secretariado do governador Geraldo Alckmin — Covas assumiu a Secretaria do Meio Ambiente, enquanto Barbosa ficou com a pasta de Assistência e Desenvolvimento Social, faz parte da minoria oposicionista na Assembleia Legislativa, dominada pelos tucanos e seus aliados.
Telma
Para o cientista político e jornalista Fernando Chagas, a tendência é de que Telma acabe prejudicada pela falta de companheiros da região e pela pouca voz da oposição na Assembleia. Na visão de Chagas, a petista será uma voz “isolada” na Assembleia. “A possibilidade dela se destacar em uma oposição que está enfraquecida no Estado, ou tentando se aproximar de deputados da situação para atrair recursos à região, é mínima”, analisa.
O cientista também não crê que a ex-prefeita consiga aproximação com os novos secretários da região — além de Covas e Barbosa, o ex-deputado federal Márcio França (PSB) foi apontado para a pasta de Turismo. Para Chagas, pesará o fato de Telma, cotada para ser a concorrente petista ao Paço Municipal em 2012, ser oposição a um forte candidato à prefeitura de Santos, Paulo Alexandre Barbosa.
O analista avalia que mesmo com França as conversas podem não progredir politicamente pelo fato de o ex-prefeito de São Vicente não ter pretensões de fortalecer o PT na região, mesmo o PSB sendo aliado petista em nível federal. “Há uma tendência do PSB, cada vez mais, deixar de ser um apêndice do PT para ser um partido autônomo”, considera.
No entanto, Chagas salienta um ponto forte que Telma terá nos próximos anos: uma aproximação com o Governo Federal, em especial com a presidente Dilma Rousseff, pelo amplo destaque que vem sendo dado à figura da mulher. Algo que pode pesar, inclusive, no fortalecimento de uma provável candidatura à prefeitura em 2012.
“A relação de Telma com Dilma pode ser até melhor do que foi com Lula. Essa aproximação da cúpula do PT e o bom contato com o Antonio Pallocci (novo ministro-chefe da Casa Civil), com ela levando diretamente a eles projetos da região para serem analisados em âmbito federal pode realmente ser determinante, até além do que a atuação na Assembleia”, considera.
Mansur e Mourão
Por sua vez, embora se tenham mantido dois deputados federais em comparação aos últimos quatro anos, Fernando Chagas avalia que houve uma perda de representatividade na região. Até por isso, considera que Beto Mansur, mesmo com seu histórico de rivalidade com o PT, pelo fato de o PP ser aliado à maioria da Câmara, deve encabeçar um trabalho de aproximação com o governo para captação de recursos. “Seu argumento deve ser de que a Baixada é um pólo importante de desenvolvimento ao País, pelo porto, pré-sal e Copa do Mundo”, destaca.
Chagas pontua, ainda, que a saída de Márcio França, de bom trânsito junto ao governo Lula, torna Mansur quase que o “substituto” do ex-prefeito vicentino no tocante à aproximação com a situação. Algo que, invariavelmente, deve prejudicar Mourão. “O PSDB está muito enfraquecido na Câmara. Primeiro precisa se unir, saber o que quer e depois se fortalecer. Para complicar, o Mourão é o quinto suplente, então se um dos deputados escolhidos por Alckmin deixar o secretariado, ele perde a vaga”, pondera.
O tucano, porém, tem a seu favor um fator semelhante ao de Telma: um relacionamento bom com o governo estadual, dinamizado com a presença de Covas e Barbosa no secretariado. “Alckmin terá em Praia Grande uma de suas prioridades na região, e, além disso, é uma prefeitura importante de ser mantida pelo PSDB, pelo que representa na Baixada e por suas possibilidades, como no tocante ao aeroporto”, analisa, considerando que Mourão, em 2012, é forte candidato para retornar à prefeitura praiagrandense.