Às 20h15 da última quinta-feira (11), Geraldo Feliciano Lino chegava a Santos com o sogro em busca de uma vaga na UTI. Ambos residentes em São Bernardo do Campo, o senhor - com 80 anos - por falta de vaga em sua cidade natal foi transferido para a Santa Casa de Santos, onde também - para surpresa de Geraldo - não havia vaga. De lá, foram enviados ao Hospital Guilherme Álvaro, onde só chegaram por volta da meia-noite. Também sem vaga na UTI, o senhor esperava - até a manhã desta sexta-feira (12) - na unidade semi-intensiva do hospital. Do lado de fora, Geraldo esperava - sentado na mureta do Canal 4 - a via mais metropolitana do litoral - passar das 9 horas para ver se conseguia mais uma vez falar com a assistente social e achar alguém que o ajudasse.
"Minha mulher está em casa tomando conta, sozinha, da mãe que teve recentemente um AVC. E eu aqui, longe de casa, e sem conseguir o que prometeram ao sair da minha cidade, que era a vaga na UTI. Se era para isso, era melhor ter ficado por lá mesmo, que tem até uma melhor estrutura. Estaria perto de casa", lamenta.
Com olhar perdido, Geraldo tentava achar respostas e soluções para o que estava acontecendo. "Sempre ouvi histórias como estas, mas duvidava se eram verdade. Hoje, sinto na pele o descaso do governo", desabafa.
Assim como Geraldo, centenas de pessoas passam todos os dias pelo Hospital Guilherme Álvaro, único hospital estadual que atende pacientes de diferentes cidades - da Baixada Santista, Litoral Norte, Vale do Ribeira e outras tantas cidades - só que em busca de atendimento, internação ou mesmo realização de exames. Prova disso são as ambulâncias, vans e carros particulares de diferentes localidades, que ficam estacionadas em torno do hospital, cujas condições de atendimento aos usuários são ruins.
No meio da manhã da última sexta (12), em frente ao hospital, um carro - com placa de Cubatão - estacionava para deixar Álvaro Augusto Filho, que procurava o hospital para conseguir atendimento. Neste mesmo ano, ele chegou a ser internado por uns 40 dias no local. "Tentamos o atendimento em Cubatão, mas eles nos mandaram para casa. Como a dor não parava acabamos vindo para cá dias depois e ele foi internado", explica Sebastiana Amorin, esposa de Álvaro. Agora todas as consultas são realizadas no hospital estadual e é o filho quem traz os pais ou até mesmo transporte da prefeitura, quando o filho não pode. "Em dias normais, até que é tranquilo chegar, agora quando há trânsito, tudo fica mais complicado", conta Sebastiana.
Bem mais distante, no Vale do Ribeira, diversas pessoas também vem até Santos diariamente para conseguir fazer exames e receber diagnósticos. "Temos médico lá, mas não há como fazer exames. Esta dor que estou sentindo nas costas não me deixa mais fazer nada. Quando fui ao médico de lá (Cajati) me deram um relaxante e advinha se a dor passou? Claro que não. Passei por atendimento aqui e hoje vim fazer a ressonância. Só volto no dia 14 de agosto, quando está marcada minha consulta", conta a dona de casa Fátima Mota, de 32 anos.
De Cajati, a van que a trouxe - junto com outros pacientes - saiu às três horas da manhã. O grupo chegou a Santos por volta das 6h30 de sexta (12). "Devemos sair no meio da tarde até a última pessoa passar pelo atendimento. É um dia inteiro só para fazer um exame. Às vezes, a gente vem só para marcar", conta.
Também morador no Vale do Ribeira, só que de Jacupiranga, o casal Nilson Roberto Duarte e Nair vieram junto com a filha para realizar um exame. "Como na Cidade não tem, o único jeito é pegar estrada e vir para cá", conta Nilson. Moradores de zona rural, Nair conta que nem maternidade próxima existe para a população.
Para o especialista em saúde pública, o médico Marcio Aurélio Soares o problema da saúde da região e também do País não será resolvido apenas contratando mais médicos, mas sim reorganizando todo o sistema de saúde, além de investir em infraestrutura, equipamentos e mais leitos. Além disso, Soares, que já trabalhou em diferentes locais e prefeituras da região, conta que o motivo que o fez pedir demissão destes locais foi a falta de estrutura.
"Mais do que contratar, o investimento deveria ser maior para manter as unidades de saúde e hospitais. Sempre teremos os centros de referências, como é o caso do Guilherme Álvaro, em Santos, mas é importante que o primeiro atendimento nas respectivas cidades seja mais adequado", conta. "O Hospital dos Estivadores já deveria estar funcionando, ampliando a capacidade de atendimento e leitos na Cidade, que recebe pessoas de diferentes municípios", acredita.
Investimentos
Nesta semana, o Governo Federal anunciou que a Baixada Santista e Vale do Ribeira receberão investimentos para a construção e ampliação das Unidades Básicas de Saúde.
Contratação estrangeira
Entre os 47 municípios paulistas listados como prioritários para receber o programa federal Mais Médicos, seis são da Baixada Santista. Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande e São Vicente aparecem nesta lista. Atualmente, a região possui uma média de 1,95 médicos por mil habitantes. Número que cai para 1,7 quando separa-se a cidade de Santos da conta. Num total de 3.243 médicos, 77% destes profissionais, ou seja 2.520, trabalham em Santos.
Para o especialista em saúde pública, Márcio Aurelio Soares, o problema não se resume a quantidade de médicos, mas a falta de infraestrutura. "Porque ninguém quer ir trabalhar em Guarujá, por exemplo? Todos conhecem as carências da Cidade. Fica difícil aceitar, independente do salário", conta.
"Para os locais mais distantes então é importante que se dê toda a estrutura e garantias para que o médico tenha estrutura para - além de fazer o atendimento adequado - também possa levar a família. É importante que tenha escola para os filhos, por exemplo. Outra questão é ter garantias que depois dos primeiros meses o médico continuará recebendo, o que às vezes não acontece por mudanças de governo", explica.
Programa
A presidente Dilma Rousseff lançou o Plano Nacional pela Saúde - Mais Hospitais, Mais Médicos, Mais Formação na segunda-feira (8). A ideia é que o recrutamento de profissionais brasileiros e depois estrangeiros ajude a solucionar o problema da falta de profissionais em algumas áreas. Com contrato de três anos, os profissionais serão contratados exclusivamente para a rede pública. A seleção será por meio de edital nacional, onde os municípios interessados poderão se inscrever.
Além da contratação em caráter emergencial, o governo tem a intenção de criar mais seis mil vagas em cursos de Medicina até o final de 2014. A partir de 2015, o curso de Medicina passará de seis para oito anos, sendo os dois últimos para atendimento no SUS.
Outra medida prometida é o investimento de R$ 7,4 bilhões em equipamentos e Unidades de Pronto Atendimento (UPA). Na quarta (10), a presidente Dilma Rousseff disse que também investirá R$ 5,5 bilhões para ampliar a infraestrutura da rede do SUS.
Às 20h15 da última quinta-feira (11), Geraldo Feliciano Lino chegava a Santos com o sogro em busca de uma vaga na UTI. Ambos residentes em São Bernardo do Campo, o senhor – com 80 anos – por falta de vaga em sua cidade natal foi transferido para a Santa Casa de Santos, onde também – para surpresa de Geraldo – não havia vaga. De lá, foram enviados ao Hospital Guilherme Álvaro, onde só chegaram por volta da meia-noite. Também sem vaga na UTI, o senhor esperava – até a manhã desta sexta-feira (12) – na unidade semi-intensiva do hospital. Do lado de fora, Geraldo esperava – sentado na mureta do Canal 4 – a via mais metropolitana do litoral – passar das 9 horas para ver se conseguia mais uma vez falar com a assistente social e achar alguém que o ajudasse.
“Minha mulher está em casa tomando conta, sozinha, da mãe que teve recentemente um AVC. E eu aqui, longe de casa, e sem conseguir o que prometeram ao sair da minha cidade, que era a vaga na UTI. Se era para isso, era melhor ter ficado por lá mesmo, que tem até uma melhor estrutura. Estaria perto de casa”, lamenta.
Com olhar perdido, Geraldo tentava achar respostas e soluções para o que estava acontecendo. “Sempre ouvi histórias como estas, mas duvidava se eram verdade. Hoje, sinto na pele o descaso do governo”, desabafa.
Assim como Geraldo, centenas de pessoas passam todos os dias pelo Hospital Guilherme Álvaro, único hospital estadual que atende pacientes de diferentes cidades – da Baixada Santista, Litoral Norte, Vale do Ribeira e outras tantas cidades – só que em busca de atendimento, internação ou mesmo realização de exames. Prova disso são as ambulâncias, vans e carros particulares de diferentes localidades, que ficam estacionadas em torno do hospital, cujas condições de atendimento aos usuários são ruins.
No meio da manhã da última sexta (12), em frente ao hospital, um carro – com placa de Cubatão – estacionava para deixar Álvaro Augusto Filho, que procurava o hospital para conseguir atendimento. Neste mesmo ano, ele chegou a ser internado por uns 40 dias no local. “Tentamos o atendimento em Cubatão, mas eles nos mandaram para casa. Como a dor não parava acabamos vindo para cá dias depois e ele foi internado”, explica Sebastiana Amorin, esposa de Álvaro. Agora todas as consultas são realizadas no hospital estadual e é o filho quem traz os pais ou até mesmo transporte da prefeitura, quando o filho não pode. “Em dias normais, até que é tranquilo chegar, agora quando há trânsito, tudo fica mais complicado”, conta Sebastiana.
Bem mais distante, no Vale do Ribeira, diversas pessoas também vem até Santos diariamente para conseguir fazer exames e receber diagnósticos. “Temos médico lá, mas não há como fazer exames. Esta dor que estou sentindo nas costas não me deixa mais fazer nada. Quando fui ao médico de lá (Cajati) me deram um relaxante e advinha se a dor passou? Claro que não. Passei por atendimento aqui e hoje vim fazer a ressonância. Só volto no dia 14 de agosto, quando está marcada minha consulta”, conta a dona de casa Fátima Mota, de 32 anos.
De Cajati, a van que a trouxe – junto com outros pacientes – saiu às três horas da manhã. O grupo chegou a Santos por volta das 6h30 de sexta (12). “Devemos sair no meio da tarde até a última pessoa passar pelo atendimento. É um dia inteiro só para fazer um exame. Às vezes, a gente vem só para marcar”, conta.
Também morador no Vale do Ribeira, só que de Jacupiranga, o casal Nilson Roberto Duarte e Nair vieram junto com a filha para realizar um exame. “Como na Cidade não tem, o único jeito é pegar estrada e vir para cá”, conta Nilson. Moradores de zona rural, Nair conta que nem maternidade próxima existe para a população.
Para o especialista em saúde pública, o médico Marcio Aurélio Soares o problema da saúde da região e também do País não será resolvido apenas contratando mais médicos, mas sim reorganizando todo o sistema de saúde, além de investir em infraestrutura, equipamentos e mais leitos. Além disso, Soares, que já trabalhou em diferentes locais e prefeituras da região, conta que o motivo que o fez pedir demissão destes locais foi a falta de estrutura.
“Mais do que contratar, o investimento deveria ser maior para manter as unidades de saúde e hospitais. Sempre teremos os centros de referências, como é o caso do Guilherme Álvaro, em Santos, mas é importante que o primeiro atendimento nas respectivas cidades seja mais adequado”, conta. “O Hospital dos Estivadores já deveria estar funcionando, ampliando a capacidade de atendimento e leitos na Cidade, que recebe pessoas de diferentes municípios”, acredita.
Investimentos
Nesta semana, o Governo Federal anunciou que a Baixada Santista e Vale do Ribeira receberão investimentos para a construção e ampliação das Unidades Básicas de Saúde.
Contratação estrangeira
Entre os 47 municípios paulistas listados como prioritários para receber o programa federal Mais Médicos, seis são da Baixada Santista. Guarujá, Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe, Praia Grande e São Vicente aparecem nesta lista. Atualmente, a região possui uma média de 1,95 médicos por mil habitantes. Número que cai para 1,7 quando separa-se a cidade de Santos da conta. Num total de 3.243 médicos, 77% destes profissionais, ou seja 2.520, trabalham em Santos.
Para o especialista em saúde pública, Márcio Aurelio Soares, o problema não se resume a quantidade de médicos, mas a falta de infraestrutura. “Porque ninguém quer ir trabalhar em Guarujá, por exemplo? Todos conhecem as carências da Cidade. Fica difícil aceitar, independente do salário”, conta.
“Para os locais mais distantes então é importante que se dê toda a estrutura e garantias para que o médico tenha estrutura para – além de fazer o atendimento adequado – também possa levar a família. É importante que tenha escola para os filhos, por exemplo. Outra questão é ter garantias que depois dos primeiros meses o médico continuará recebendo, o que às vezes não acontece por mudanças de governo”, explica.
Programa
A presidente Dilma Rousseff lançou o Plano Nacional pela Saúde – Mais Hospitais, Mais Médicos, Mais Formação na segunda-feira (8). A ideia é que o recrutamento de profissionais brasileiros e depois estrangeiros ajude a solucionar o problema da falta de profissionais em algumas áreas. Com contrato de três anos, os profissionais serão contratados exclusivamente para a rede pública. A seleção será por meio de edital nacional, onde os municípios interessados poderão se inscrever.
Além da contratação em caráter emergencial, o governo tem a intenção de criar mais seis mil vagas em cursos de Medicina até o final de 2014. A partir de 2015, o curso de Medicina passará de seis para oito anos, sendo os dois últimos para atendimento no SUS.
Outra medida prometida é o investimento de R$ 7,4 bilhões em equipamentos e Unidades de Pronto Atendimento (UPA). Na quarta (10), a presidente Dilma Rousseff disse que também investirá R$ 5,5 bilhões para ampliar a infraestrutura da rede do SUS.