O ciclo brasileiro de castigo e perdão | Boqnews

Ponto de vista

15 de setembro de 2025

O ciclo brasileiro de castigo e perdão

Querido leitor, esta não é fábula do Coliseu nem pergaminho romano esquecido.

É a história de um país chamado Brasil, que em 1988 selou sua Constituição-cidadã, marco da redemocratização.

Desde então, seus líderes desfilam como césares tropicais: uns glorificados, outros depostos, todos julgados pelo mesmo povo que aplaude e condena, num teatro político de aplausos e execração.

Tancredo Neves, como Rômulo, fundou sem reinar. Eleito em 1985, não tomou posse, vencido pela doença antes da vitória política.

Coube a José Sarney conduzir a transição e entregar a Carta de 1988, um Augusto sem glórias militares, mas necessário ao nascimento institucional.

Collor surgiu como gladiador contra os “marajás”. Sua queda não veio apenas do confisco da poupança, mas da corrosão política: denúncias, CPI e impeachment em 1992.

Derrubado pelos caras-pintadas, saiu queimado pelas próprias chamas, símbolo de uma juventude que mostrou que o povo pode ser arena e espada.

Itamar Franco, discreto, foi mais que tampão. Sob sua guarda nasceu o Plano Real, arquitetado por Fernando Henrique Cardoso, que ergueu o país da hiperinflação.

FHC, o sociólogo no trono, governou entre crises: reeleição contestada, desvalorização cambial, apagão. Privatizou, abriu mercados, fortaleceu o Real.

Saiu aplaudido e vaiado, como todo Marco Aurélio que ousa governar entre a filosofia e a espada.

Lula, eleito em 2002 e reeleito em 2006, impulsionou políticas sociais que reduziram desigualdades.

Enfrentou o mensalão e, anos depois, a prisão na Lava Jato , condenações anuladas pelo STF.

Voltou em 2022, novamente eleito, consolidando-se como figura central e controversa: para uns, referência internacional; para outros, prova de um ciclo que insiste em girar.

Dilma, primeira mulher no Planalto, enfrentou recessão, protestos e traições.

Em 2016 sofreu impeachment, mas manteve direitos políticos por decisão inédita do Senado.

Hoje preside o Banco do BRICS, prova de que após a queda ainda é possível reconstruir-se e permanecer no jogo global.

Temer, vice discreto, assumiu em 2016 e governou até 2018, sobrevivendo a denúncias.

Chegou a ser preso em 2019, logo solto. Figura transitória, provou o gosto do cárcere sem nele permanecer.

Bolsonaro, eleito em 2018 sob o estandarte anticorrupção, dividiu o país em meio à pandemia de 2020.

Em 2022, derrotado, viu apoiadores atacarem os Poderes em 8 de janeiro.

Em 2025, foi condenado a 27 anos por atentar contra a ordem democrática, decisão questionada em seus fundamentos, mas inédita no Brasil e rara no mundo.

Mostrou que a República pode impor castigo a quem ocupou sua cadeira mais alta.

Quarenta anos se passaram. De Tancredo a Bolsonaro, nem todos caíram, mas todos foram julgados pelo tempo.

O Brasil, como Roma, alterna castigo e perdão, queda e retorno. Cada governo deixou cicatrizes , e cicatrizes também são memória política.

A lição é clara: não basta resistir por teimosia, é preciso erguer instituições que resistam conosco.

Foi a Constituição, foram os tribunais, as urnas, a imprensa e a sociedade civil que mantiveram a República de pé, mesmo quando gladiadores tentaram incendiá-la.

E o essencial, querido leitor: a cadeira presidencial é transitória, mas o Brasil é permanente.

Cabe a nós provar que não somos apenas terra cobiçada, mas nação consciente de si, capaz de transformar dor em aprendizado institucional.

O desafio não é apenas sobreviver ao ciclo, mas reinventá-lo para que castigo e perdão deixem de ser repetição e se tornem maturidade.

 

Alessandro Lopes é arquiteto, mestre em Direito Ambiental e pesquisador em cidades criativas e inteligentes

Alessandro Lopes
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