Rua Riachuelo, da Guerra ao Boulevard
Na coluna desta semana traremos uma via que contém muita história, foi se transformando junto com a sociedade.
Também já teve outros nomes, assim como o Boqnews, que comemorou os 40 anos de sua fundação no último dia 25.
A Rua Riachuelo é resultado de um processo gradual de formação urbana que remonta ao período colonial.
Na época em que as vias da cidade ainda não possuíam padronização oficial e eram identificadas a partir de usos cotidianos e referências locais.
Portanto, antes de se tornar uma rua única e contínua, o espaço que hoje conhecemos como Riachuelo era composto por diferentes nomes.
Por isso, eles se estendiam ao longo de seu trecho, refletindo as atividades econômicas e sociais ali desenvolvidas.
O QUE FOI A BATALHA DO RIACHUELO?
A Batalha do Riachuelo aconteceu em 11 de junho de 1865, durante a Guerra do Paraguai, nas águas do rio Paraná, na Argentina.
A esquadra do Brasil era comandada pelo almirante Francisco Manoel Barroso da Silva.
Assim, garantiu vitória dos aliados (Brasil, Argentina e Uruguai) nos rios da região, em cima da frota do Paraguai, liderada por Francisco Solano López, durante a guerra.
DIA DA MARINHA
Em homenagem ao feito, 11 de junho passou a ser celebrado no Brasil como o Dia da Marinha.
BECO DA AYA VELHA
De todos os nomes que a via já teve, este é o mais complexo de ser entendido do porquê do nome e sua real localização.
Aya é uma dama de companhia que era contratada pelas famílias nobres para acompanhar a esposas dos senhores de engenho em todos os lugares ou ser babá de seus filhos.
Por ser chamar Beco da Aya Velha, muito provavelmente o nome se deve a uma dessas profissionais, já envelhecida que morava naquele trecho.
Sua real localização data de meados do século XVII até 1865, no que seria hoje a parte da Rua Riachuelo entre a Rua XV de novembro (então Rua Direita) e a Praça Mauá (a época Campo da Misericordia), ficando atrás da então Travessa da Banca do Peixe.
Tratava-se de um beco estreito típico do período colonial.
Desapareceu com o processo de alinhamento e abertura das vias principais do Centro de Santos, ou seja, onde hoje é Rua, deveria haver casas.
TRAVESSA DA BANCA DO PEIXE
Chamado também de Largo/Rua da Banca, ficava localizado entre a Rua Direita (atual Rua 15 de novembro) e o lagamar (encontro com o mar), onde havia uma banca para venda de pescados e 7 casas, que provavelmente seria onde ficava localizado o Beco da Aya Velha. Essa nomenclatura teria coexistido no mesmo período que o trecho citado anteriormente.
FAMOSO CHAFARIZ
O chafariz localizava-se no largo da Banca do Peixe, em área que corresponde hoje ao entorno da Praça Mauá, sendo inaugurado às 8 horas da noite de 23 de fevereiro de 1846 por Dom Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina.
Construído com água canalizada da fonte do Itororó, o equipamento tinha como principal função o abastecimento público de água, atendendo moradores e posteriormente também navios no porto, além de possuir caráter comemorativo ligado à coroação do imperador, tornando-se um importante ponto de referência urbana e social na então vila de Santos.
1° TEATRO DE SANTOS
Muitos anos antes da inauguração do Teatro Guarany, a cidade de Santos inaugurou seu primeiro Teatro, onde hoje é a Rua Riachuelo número 42.
O prédio era um antigo casarão colonial de pedra e cal, construído originalmente para servir como armazém e que, entre 1775 e 1829 funcionou como hospital provisório da Santa Casa de Misericórdia de Santos.
O teatro era bastante simples: iluminado por velas e candeias e sem cadeiras fixas, o público levava os próprios assentos para assistir às apresentações.
Ali passaram companhias teatrais, grupos de ópera e músicos estrangeiros. Em 1848, por exemplo, o local recebeu a Companhia Lírica Italiana com a soprano Augusta Candiani. Já em 1869, apresentou-se no palco o célebre pianista Louis Moreau Gottschalk, considerado um dos maiores músicos do mundo na época.
O local entrou para a história do Carnaval santista. Em 14 de fevereiro de 1858, o local recebeu o primeiro baile de Carnaval da cidade, organizado pela Sociedade Carnavalesca Santista. O evento marcou nascimento da festa em Santos.
Em 1859, o imóvel foi vendido ao empresário e ator Domingos Martins de Sousa, que manteve o funcionamento da casa de espetáculos.
Lá passou a organizar apresentações com companhias teatrais e musicais, no entanto, o prédio nunca deixou de ser precário.
Com o tempo, os boatos sobre o estado da construção afastaram o público e após quase 50 anos de atividades, o primeiro teatro de Santos encerrou definitivamente suas portas em 1879. Pouco depois surgiram novos espaços culturais, como o Teatro do Rink e, em 1882, o tradicional Teatro Guarany.
Contudo, o espaço marcou época a ponto de modificar o nome da rua onde ficava localizado. O trecho entre a atual Avenida São Francisco e a Praça Mauá ficou conhecido como Travessa do Teatro, devido a localização do equipamento cultural.
LARGO E TRAVESSA 11 DE JUNHO
Após os eventos da guerra do Paraguai, tornou-se comum em diversas cidades brasileiras a criação de homenagens ligadas ao episódio.
Em Santos, isso se refletiu na denominação da Travessa do Teatro como travessa 11 de Junho, em 1865, nome que fazia referência direta à data da batalha.
Dessa forma, com as intensas transformações impulsionadas pelo crescimento do porto e pelo ciclo do café, levou à progressiva integração desses trechos antes fragmentados.
Assim, transformou todo o trecho entre a Av. São Francisco e o Porto (atual Rua Tuyuti)
Passou a levar o nome de 11 de junho, sendo o trecho até a General Câmara como Travessa de posteriormente Rua, e o trecho da Praça Mauá até o Porto chamado de Largo.
A RUA HOJE
Com cerca de 310m, localizada no Centro, chegou a ter o nome de Rua 33, de forma administrativa nos primeiros documentos de abairramento da cidade.
Passou a levar o atual nome de Riachuelo, em 1921, quando o prefeito Coronel Joaquim Montenegro, alterou e padronizou a nomenclatura de mais de uma centena de ruas.
Assim, em 1° de outubro de 1975, o prefeito Antônio Manoel de Carvalho transformou a via no primeiro boulevard da cidade, proibindo o trânsito de carros entre a Praça Mauá e a Rua João Pessoa.
Na Baixada Santista, Peruíbe e Guarujá também homenageiam o evento histórico em suas ruas.
Já em São Vicente a homenagem foi feita por meio da data da efeméride, 11 de junho.
É importante destacar que devido ao tempo de existência desta Rua, as diversas nomenclaturas e a falta de cuidado em preservação de registros históricos, os períodos e trechos exatos de cada logradouro são conflitantes em alguns documentos, causando coexistência deles em alguns desses arquivos.
