Quando comecei a acompanhar a discussão em torno do destino da Cadeia Velha de Santos, tive a impressão de que não haveria avanços. Observei opiniões embasadas que apanhavam da panfletagem que mascarava interesses políticos individuais. Fico feliz em estar equivocado.
O movimento em torno da Cadeia, pulverizado e paradoxalmente aglutinado em tempos de redes sociais, foi capaz de mostrar, por trás dos lados a serem escolhidos, uma série de comportamentos simbólicos a respeito do tratamento que a Cultura recebe em Santos.
É positivo ver como, ao contrário do que defendem grupos de poder, se reforçou um caminho de exercício político em torno da arte e da cultura. Há divergências e eventuais vaidades, mas é saudável perceber que a Cadeia Velha conseguiu unir argumentos em torno da implantação de um centro cultural, que me parece ser a alternativa mais sensata.
Santos é uma cidade artisticamente fragilizada, dependente de recursos públicos (quando aparecem!), de ações isoladas ou de instituições como o Sesc, que praticamente navega em águas solitárias. As políticas de longo prazo – com o perdão da redundância, mas nestas terras o termo seria exceção – praticamente não existem. Os últimos governos confundiram política de mandato com políticas públicas.
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Gritar contra ações do Estado que nasceram sem diálogo indica como há esperança no debate democrático. Protestos são essenciais no jogo político, vitais na área cultural, final de fila nos orçamentos. A luta pelo centro cultural na Cadeia Velha é a retomada de uma vocação, de um espaço que serviu para formar profissionais, para pensar a arte como ato político e de caráter educativo.
Santos necessita, com urgência, de mais espaços para a formação de profissionais da cultura. Assistimos paralisados à migração para outros endereços, como uma questão de sobrevivência ou ascensão profissional. Temos que abandonar o discurso autorreferente, de lugar de última geração, de exemplo de modernidade. É a retórica que realimenta o provincianismo e mantém as coisas como estão. E sabemos o quanto esta cidade precisa de mudanças.
O debate em torno da Cadeia Velha também expôs as trapalhadas e a inércia dos gestores públicos. Soa risível o andamento de uma obra (atrasada), na qual se desconhece o destino do imóvel. A definição do uso do espaço tinha que estar atrelada ao projeto da reforma. Corre-se o risco de improvisações, puxadinhos, serviços a serem refeitos depois que a fita for cortada pelos engravatados sorridentes. Os exemplos moram no próprio Centro de Santos.
Governo do Estado e Prefeitura são como bombeiros com as mangueiras secas. Apenas reagem diante da pressão política. Ambos ignoram o que será feito com o espaço. Ninguém assume a responsabilidade para sacramentar a questão. O Governo estadual joga com a retórica para acalmar os ânimos e ganhar tempo. Não há projeto, não há dotação orçamentária, não existe nada para a transformação da Cadeia Velha em centro cultural. Só palavras à imprensa.
A Cadeia Velha precisa se soltar da negligência, se libertar o discurso de ano eleitoral. Os artistas e outros setores precisam se estruturar como movimento político e seguir com lupa cada passo desta obra. Os avanços são de poucos degraus, porém significativos. Caso contrário, há o risco de a Cadeia ficar como está: silenciosa, melancólica, refém de carcereiros que a punem pela omissão contínua.
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