Semana é marcada por polêmicas no cenário político brasileiro
De um lado, gritos de Não Vai ter Golpe, a favor do governo. Do outro, Fora Dilma. Fora Lula. Os ânimos se exaltaram nas ruas e – principalmente – nas redes sociais nos últimos dias diante dos fatos que ocorreram desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi indiciado na Operação Lava Jato. A situação ficou ainda pior quando foi nomeado ministro da Casa Civil na quinta (17).
Para o cientista político Alcindo Gonçalves, o momento é grave e demonstra claramente as dificuldades que o Governo Federal enfrenta. “A presidente está acuada pelas denúncias que se avolumam a cada dia. Aumentou muito a probabilidade do impeachment acontecer. Esta manobra de colocar o ex-presidente [Lula] como ministro foi um ato de desespero. Situação que se agravou com a divulgação dos grampos”.
Para Alcindo, só um milagre resolverá a situação. “Ainda que não aconteça o impeachment, o que o governo Dilma fará nos próximos três anos? Este é um cenário de crise aguda. Caminha cada vez mais rápido para uma situação de mudança de governo. Isso não quer dizer que todos os problemas se resolverão no dia seguinte. O próprio vice-presidente [Michel Temer] não tem condição de fazer uma mudança radical a curto prazo. Mas se cria uma condição de governabilidade”, ressalta.
O cientista político analisa a Lava-Jato como uma espada em cima da política brasileira. Todos que estão envolvidos – para Alcindo – estão também pensando na própria pele e este é um fator importante para acelerar a possível queda da presidente. “Se o governo cai, o foco muda”, acredita.
A mídia
Para o professor universitário da área de comunicação Ari Brito, o que está acontecendo hoje é também um efeito colateral de uma eleição mal resolvida. Em relação à mídia, ele faz uma análise que ela pauta o coletivo e fomenta a discussão.
“Falar que a mídia manipula é um pouco ingênuo devido às proporções destes casos. Os veículos de comunicação, enquanto empresas, têm relações comerciais seja com iniciativas particulares ou com o Poder Público, que sempre existiram”, explica.
Para ele, as redes sociais estão fazendo a diferença na comunicação neste momento. “É um ingrediente novo pensando historicamente. Tínhamos uma comunicação de massa com poucos veículos informando. Hoje, todo mundo se comunica”, explica. Ambiente virtual está, inclusive, insustentável e agrava as discussões.
Para Ari, as pessoas com opiniões mais tranquilas já se afastaram das redes sociais. “Os visitantes únicos diminuíram. Por outro lado, quem é multiplicador, militante de um partido ou ideologia, continua a fazer muito barulho nas redes sociais, que tem predominância com pessoas da oposição. Quem é pró-governo está sendo massacrado”, analisa.
“Espero que este cenário não se reflita nas ruas”. Se isso acontecer, Ari acredita que o País viverá momentos difíceis de conflito pelos grupos mais radicais.
Escutas da discórdia
O juiz Sergio Moro ganhou maior notoriedade nos últimos dias. Durante as manifestações do último final de semana era e ainda é visto como herói por parte da população. Somos Todos Moro é a mensagem de cartazes vistas nas manifestações contra o governo. Mas depois de tornarem públicas as gravações grampeadas entre a alta cúpula do Governo e o ex-presidente Lula, o juiz provocou polêmicas com pessoas a favor e contra esta decisão.
Para o promotor de Justiça Landolfo Andrade, a divulgação das conversas entre Dilma e Lula foi absolutamente legal. “Quando você quebra o sigilo de uma pessoa é porque tal pessoa é investigada pela prática de algum crime grave. Então, todo mundo que se comunica com essa pessoa tem os registros captados. O fato de o outro interlocutor ter sido a Presidente Dilma é decorrência de ela ter mantido contato com o alvo, no caso, Lula, cujo sigilo telefônico estava quebrado por ordem judicial. Uma coisa precisa ficar clara: podia ser até mesmo o Papa o outro interlocutor, que não haveria problemas em divulgar essa conversa, pois o juiz já havia levantado o sigilo das investigações antes da sua divulgação”, explica.
Em coletiva, a presidente Dilma Rousseff afirmou que há politização nas ações de investigação no Brasil. “O meu governo garantiu a autonomia para a Polícia Federal investigar quem fosse necessário. O meu governo respeita o Ministério Público e o Judiciário. Agora, nós consideramos uma volta atrás na roda da história a politização de qualquer um desses órgãos”, reclamou.
