O desfile das escolas de samba de Santos, que começa neste sábado (5) e segue até segunda-feira (7), é por vezes visto com doses de saudosismo pela velha guarda do samba. Lembranças das décadas de 60, quando as agremiações locais superavam, de longe, as de São Paulo, ou dos anos 80, época na qual o desfile municipal foi alcunhado como o segundo melhor do Brasil, voltam à tona e enchem de expectativas e dúvidas discurso acerca do futuro das escolas santistas, vistas hoje como “inferiorizadas”, em comparação ao passado “glorioso”.
Mas se os mais antigos vêem com alguma apreensão os próximos carnavais, aqueles que estão na avenida acreditam que, no vocabulário do futebol, “o jogo está longe de terminar”. Não à toa, muitas agremiações apostam, cada vez mais, em jovens carnavalescos, não apenas na intenção de rejuvenescer alas, mas suscitar a empolgação da festa e do samba em outras crianças, para que não apenas aquela escola, mas o próprio carnaval de Santos, não caia no esquecimento e fique restrito às memórias, em jornais e livros.
Um dos exemplos é visto na Real Mocidade Santista. A agremiação do Marapé não conta com um barracão, mas mesmo assim, consegue desenvolver o projeto "Meu Primeiro Amor", que consiste na formação de jovens para os postos de mestre-sala e porta-bandeira, além de ritmistas (instrumentos e bateria), na própria escola. Para 2011, a previsão é de que as aulas comecem em abril. E atualmente, conforme o diretor social Edson Ferreira, o Edinho, cerca de 40 crianças participam dos trabalhos, vindos não apenas do Marapé, mas da Zona Noroeste e dos morros do Marapé e São Bento.
“As crianças são o futuro desta escola e do carnaval”, considera Edinho. “O próprio estatuto da Real prevê trabalhos como esse, e historicamente, somos formadores. Temos carnavalescos e compositores que começaram aqui, conosco, e estão em outras agremiações da cidade”, conta, em alusão ao compositor Fernando Negrão, que participou do samba de Amazonense, Vila Mathias, Sangue Jovem e Padre Paulo, e ao intérprete da Vila Mathias, Joãozinho. Ambos, conforme o diretor da Mocidade, começaram na escola.
Um dos frutos do “Meu Primeiro Amor” é João Pedro. Pequeno, mas notável, tem apenas 7 anos, mas já vai a seu terceiro desfile, e como diretor-mirim da bateria. “E o pessoal respeita e obedece, viu?”, enfatiza Edinho. De fato, João Pedro já está imerso e integrado na festa. Ajuda na arrumação dos equipamentos, brinca com os demais membros da escola e é bastante querido pelos companheiros. Além disso, segue os passos de seu tio (Felipe, atual mestre de bateria), que iniciou na escola aos 7 anos; da mãe, que já desfilou pela X-9, e da avó, destaque da Real Mocidade na avenida.
A formação de mais “Joões Pedros” é constante, mas, na visão de Edinho, pode ir além. Falta, no entanto, um espaço maior. “Sentimos a necessidade de um espaço para desenvolver outros trabalhos. Hoje, fazemos tudo na rua ou quando conseguimos o ginásio ao lado emprestado, para os ensaios de mestre-sala e porta-bandeira, o que limita nossas possibilidades. Se com uma sede pequena, conseguimos algumas coisas que às vezes quem tem ginásio não faz, imagina com a sede? O aluguel de um barracão, porém, não é nada barato”, lamenta.
Para o diretor da Real Mocidade, com a estrutura, além das aulas para novos mestres-salas, portas-bandeiras e ritmistas, há a possibilidade de formar passistas e mesmo especialistas para as áreas de corte e costura e criação de fantasias. “Professores para isso tudo, nós temos. É a partir desses trabalhos que você cativa a criança, insere ela no meio carnaval, cria identidade. E a criança se empolga quando há a oportunidade. O Carnaval tem saída, sim”, considera.
Novas águias
Os atuais campeões também não ficam atrás e se “reciclam”. Há mais de três anos, a Mocidade Independente Padre Paulo conta com uma escola de percussão para jovens e adultos, coordenada por Mestre Rogério, que também é o mestre de bateria da escola, além de aulas para formação de mestre-sala e porta-bandeira. O resultado já poderá ser visto na avenida, de acordo com o presidente Roberto dos Santos Silva. “A Padre Paulo sempre trabalhou com criança, desde o começo. Digo principalmente porque sou exemplo vivo. Comecei com 9 anos, como passista e passei pela bateria. E isso continua. Se você olhar a nossa bateria, é tudo praticamente molecadinha”, conta.
A filosofia se reflete nos ensaios da escola, lotados de crianças das mais diversas idades. Levados desde cedo pelos pais, os jovens criam desde cedo a identidade com a agremiação e com o samba. Simone Godoi, por exemplo, mãe da pequena Ana Beatriz, não sairá na avenida, mas não esconde a empolgação com a primeira participação da filha na passarela. “É o primeiro ano dela, mas ela já quase nasceu na Padre Paulo, pois meu sogro é um dos fundadores da escola! (risos). Ela está muito ansiosa e feliz. É legal que as crianças tenham essa oportunidade, de aprender, além de um esporte, instrumentos musicais, descobrir uma aptidão. Além de ser um ritmo que faz parte da nossa cultura”, destaca Simonal.
O interesse de meninas (como Ana Beatriz) e meninos fez com a que a escola desenvolvesse um projeto para integrar a criançada ao samba, a partir das aulas para formação de mestre-sala e porta-bandeira, o Águia Guerreira. “A gente observava, durante os ensaios, que as crianças ficavam empolgadas. tinham carinho pela gente e pelo que fazíamos. Isso nos deu a ideia de preparar esse projeto”, conta Jussara, porta-bandeira principal da Padre Paulo e que auxilia nos trabalhos com a garotada.
E o Águia Guerreira já terá “frutos” neste ano. “O Felipe e a Milena, que começaram conosco nas aulas, já irão para a avenida. E teremos mais um casal mirim, que sairá no bairro”, conta Jussara. “É importante porque além da identificação da criança com o carnaval, é uma atividade que ajuda a tirá-las das ruas. E é legal que nossa escolinha funciona aos sábados, então não prejudica os estudos”, acrescenta a porta-bandeira.
Tal qual a Real Mocidade, porém, a Padre Paulo está em busca de uma quadra definitiva, para estender os trabalhos “Fechamos uma parceria com a Casa da Criança, onde poderemos desenvolver e ampliar o projeto. Mas com uma quadra própria, manteríamos as aulas por ainda mais tempo, bem como crianças longe da criminalidade. Temos também um projeto, para esse ano, para formar novos passistas, que andam em falta hoje em dia nas escolas”, explica Roberto.
Década de renovação
Na União Imperial, por sua vez, o trabalho para formação de jovens ritmistas para o carnaval já existe há dez anos, antes mesmo do retorno do desfile das escolas de samba, sob o comando de Mestre Simonal, também comandante da bateria da verde-e-rosa santista. “Com a paralisação, havíamos perdido totalmente a bateria. Teríamos que fazer tudo lá do começo, e começamos a preparar os alunos para o futuro”, conta.
O trabalho, conforme Simonal, é de formiguinha, mas é necessário. “Em tudo, é preciso trabalhar a base, para que os ciclos sejam renovados. Com as escolas de samba, não é diferente. Porque daqui há uns dias nós vamos estar na velha guarda, vendo os jovens desfilarem. Mas é preciso ensinar o samba correto. Ensinar o amor à escola, o que é o samba, o que é a música. Se você pergunta a um aluno daqui o que é música, ele te responde: ‘Música é a arte que usa o som como matéria-prima’. Enquanto isso, muitos outros músicos que estão por aí não conseguem te definir o que é música”, destaca.
Voltadas à garotada entre 8 e 17 anos, as aulas ocorrem às sextas-feiras, são gratuitas e atingem principalmente o público infantil do Marapé. “O que é importante, pois mostra que as crianças da comunidade já estão desde cedo se identificando com o pavilhão, com o carnaval e com o samba”, avalia Simonal.”E a garotada vem porque gosta. Tem época que chegamos a ter 40 alunos em aula, de livre e espontânea vontade. Não vou buscar ninguém em casa. Eles vêm pela qualidade da aula e porque sabem que vão aprender a tocar bem”, explica. “Basta dizer que 60% dos nossos ritmistas já são formados aqui”, conta.
Dentre as atividades desenvolvidas, está o aprendizado com os instrumentos de percussão pesada, específico da bateria da escola, e os de percussão fina (pandeiro, cuíca, etc.). Além disso, de acordo com Simonal, as aulas não se limitam ao samba. “Buscamos também formar músicos de carreira. Não ensino só samba, mas marcha rancho, marcha militar, salsa, pagode... E vem dando resultado. Para se ter uma ideia, o China, um dos nossos melhores ritmistas, não vai desfilar conosco porque vai fazer um show com o Karametade em Belo Horizonte. Por um lado, perco um músico que me vai fazer falta. Por outro, fico feliz por ver que ele está crescendo na profissão”, conta.
Se diferentemente de Real Mocidade e Padre Paulo, a União Imperial conta com um barracão, a agremiação também busca aportes para expandir as ações. “Precisamos hoje é de um maior apoio financeiro. Precisa-se investir em uniforme, lanche, instrumento... Os instrumentos de percussão fina são caros, às vezes não tem para todo mundo. Seria ideal uma TV de tela grande, para mais videoaulas, passar o conhecimento de outros músicos, mostrar aos garotos os exemplos de onde eles podem chegar. É importante que essas crianças tenham referências e acreditarem no potencial”, indica.
Mestre aos dezesseis
O carnaval santista tem o mais jovem mestre de bateria do Brasil, considerando os grupos especiais. Trata-se de Kawuan Grande Fernandes da Silva, de apenas 16 anos, que desde o ano passado comanda os ritmistas da Mocidade Dependente do Samba, uma das mais jovens agremiações da Cidade.
Filho de sambistas (o pai, Abelardo, é o presidente da Dependente, enquanto a mãe, Denise, é porta-bandeira), Kawuan sempre esteve no meio carnavalesco. “Comecei em 2000 como ritmista da Padre Paulo. Quando o carnaval voltou, em 2006, voltei a desfilar na bateria, pela Brasil. Na ocasião que a Mocidade foi fundada, saí como diretor da bateria em 2009, e em 2010 virei mestre”, conta.
Idade não é problema para Kawuan. “Nunca tive dificuldade com o pessoal. Todos me respeitam e gostam da escola, além de muitos já serem amigos. A dificuldade maior é mesmo a ansiedade. Mas, por exemplo, no ano passado, recebemos dez dos três julgadores de bateria, o que nos deixou bem felizes e na expectativa, além de mais tranquilos”, destaca.
E o próprio Kawuan já ajuda na preparação de sua “equipe” para o carnaval. Desde o final de 2009, a Dependente está com uma escolinha para formação de ritmistas. “Para se ter uma ideia, dos 120 que estarão na bateria neste ano, a maioria, cerca de 70%, já é formado conosco”, conta o jovem mestre de bateria, que disse, ainda, ter interesse em seguir na música. “Penso em fazer uma faculdade no meio”, conclui.
Abrindo alas para o futuro
O desfile das escolas de samba de Santos, que começa neste sábado (5) e segue até segunda-feira (7), é por vezes visto com doses de saudosismo pela velha guarda do samba. Lembranças das décadas de 60, quando as agremiações locais superavam, de longe, as de São Paulo, ou dos anos 80, época na qual o desfile municipal foi alcunhado como o segundo melhor do Brasil, voltam à tona e enchem de expectativas e dúvidas discurso acerca do futuro das escolas santistas, vistas hoje como “inferiorizadas”, em comparação ao passado “glorioso”.
Mas se os mais antigos vêem com alguma apreensão os próximos carnavais, aqueles que estão na avenida acreditam que, no vocabulário do futebol, “o jogo está longe de terminar”. Não à toa, muitas agremiações apostam, cada vez mais, em jovens carnavalescos, não apenas na intenção de rejuvenescer alas, mas suscitar a empolgação da festa e do samba em outras crianças, para que não apenas aquela escola, mas o próprio carnaval de Santos, não caia no esquecimento e fique restrito às memórias, em jornais e livros.
Um dos exemplos é visto na Real Mocidade Santista. A agremiação do Marapé não conta com um barracão, mas mesmo assim, consegue desenvolver o projeto “Meu Primeiro Amor”, que consiste na formação de jovens para os postos de mestre-sala e porta-bandeira, além de ritmistas (instrumentos e bateria), na própria escola. Para 2011, a previsão é de que as aulas comecem em abril. E atualmente, conforme o diretor social Edson Ferreira, o Edinho, cerca de 40 crianças participam dos trabalhos, vindos não apenas do Marapé, mas da Zona Noroeste e dos morros do Marapé e São Bento.
“As crianças são o futuro desta escola e do carnaval”, considera Edinho. “O próprio estatuto da Real prevê trabalhos como esse, e historicamente, somos formadores. Temos carnavalescos e compositores que começaram aqui, conosco, e estão em outras agremiações da cidade”, conta, em alusão ao compositor Fernando Negrão, que participou do samba de Amazonense, Vila Mathias, Sangue Jovem e Padre Paulo, e ao intérprete da Vila Mathias, Joãozinho. Ambos, conforme o diretor da Mocidade, começaram na escola.
Um dos frutos do “Meu Primeiro Amor” é João Pedro. Pequeno, mas notável, tem apenas 7 anos, mas já vai a seu terceiro desfile, e como diretor-mirim da bateria. “E o pessoal respeita e obedece, viu?”, enfatiza Edinho. De fato, João Pedro já está imerso e integrado na festa. Ajuda na arrumação dos equipamentos, brinca com os demais membros da escola e é bastante querido pelos companheiros. Além disso, segue os passos de seu tio (Felipe, atual mestre de bateria), que iniciou na escola aos 7 anos; da mãe, que já desfilou pela X-9, e da avó, destaque da Real Mocidade na avenida.
A formação de mais “Joões Pedros” é constante, mas, na visão de Edinho, pode ir além. Falta, no entanto, um espaço maior. “Sentimos a necessidade de um espaço para desenvolver outros trabalhos. Hoje, fazemos tudo na rua ou quando conseguimos o ginásio ao lado emprestado, para os ensaios de mestre-sala e porta-bandeira, o que limita nossas possibilidades. Se com uma sede pequena, conseguimos algumas coisas que às vezes quem tem ginásio não faz, imagina com a sede? O aluguel de um barracão, porém, não é nada barato”, lamenta.
Para o diretor da Real Mocidade, com a estrutura, além das aulas para novos mestres-salas, portas-bandeiras e ritmistas, há a possibilidade de formar passistas e mesmo especialistas para as áreas de corte e costura e criação de fantasias. “Professores para isso tudo, nós temos. É a partir desses trabalhos que você cativa a criança, insere ela no meio carnaval, cria identidade. E a criança se empolga quando há a oportunidade. O Carnaval tem saída, sim”, considera.
Novas águias
Os atuais campeões também não ficam atrás e se “reciclam”. Há mais de três anos, a Mocidade Independente Padre Paulo conta com uma escola de percussão para jovens e adultos, coordenada por Mestre Rogério, que também é o mestre de bateria da escola, além de aulas para formação de mestre-sala e porta-bandeira. O resultado já poderá ser visto na avenida, de acordo com o presidente Roberto dos Santos Silva. “A Padre Paulo sempre trabalhou com criança, desde o começo. Digo principalmente porque sou exemplo vivo. Comecei com 9 anos, como passista e passei pela bateria. E isso continua. Se você olhar a nossa bateria, é tudo praticamente molecadinha”, conta.
A filosofia se reflete nos ensaios da escola, lotados de crianças das mais diversas idades. Levados desde cedo pelos pais, os jovens criam desde cedo a identidade com a agremiação e com o samba. Simone Godoi, por exemplo, mãe da pequena Ana Beatriz, não sairá na avenida, mas não esconde a empolgação com a primeira participação da filha na passarela. “É o primeiro ano dela, mas ela já quase nasceu na Padre Paulo, pois meu sogro é um dos fundadores da escola! (risos). Ela está muito ansiosa e feliz. É legal que as crianças tenham essa oportunidade, de aprender, além de um esporte, instrumentos musicais, descobrir uma aptidão. Além de ser um ritmo que faz parte da nossa cultura”, destaca Simonal.
O interesse de meninas (como Ana Beatriz) e meninos fez com a que a escola desenvolvesse um projeto para integrar a criançada ao samba, a partir das aulas para formação de mestre-sala e porta-bandeira, o Águia Guerreira. “A gente observava, durante os ensaios, que as crianças ficavam empolgadas. tinham carinho pela gente e pelo que fazíamos. Isso nos deu a ideia de preparar esse projeto”, conta Jussara, porta-bandeira principal da Padre Paulo e que auxilia nos trabalhos com a garotada.
E o Águia Guerreira já terá “frutos” neste ano. “O Felipe e a Milena, que começaram conosco nas aulas, já irão para a avenida. E teremos mais um casal mirim, que sairá no bairro”, conta Jussara. “É importante porque além da identificação da criança com o carnaval, é uma atividade que ajuda a tirá-las das ruas. E é legal que nossa escolinha funciona aos sábados, então não prejudica os estudos”, acrescenta a porta-bandeira.
Tal qual a Real Mocidade, porém, a Padre Paulo está em busca de uma quadra definitiva, para estender os trabalhos “Fechamos uma parceria com a Casa da Criança, onde poderemos desenvolver e ampliar o projeto. Mas com uma quadra própria, manteríamos as aulas por ainda mais tempo, bem como crianças longe da criminalidade. Temos também um projeto, para esse ano, para formar novos passistas, que andam em falta hoje em dia nas escolas”, explica Roberto.
Década de renovação
Na União Imperial, por sua vez, o trabalho para formação de jovens ritmistas para o carnaval já existe há dez anos, antes mesmo do retorno do desfile das escolas de samba, sob o comando de Mestre Simonal, também comandante da bateria da verde-e-rosa santista. “Com a paralisação, havíamos perdido totalmente a bateria. Teríamos que fazer tudo lá do começo, e começamos a preparar os alunos para o futuro”, conta.
O trabalho, conforme Simonal, é de formiguinha, mas é necessário. “Em tudo, é preciso trabalhar a base, para que os ciclos sejam renovados. Com as escolas de samba, não é diferente. Porque daqui há uns dias nós vamos estar na velha guarda, vendo os jovens desfilarem. Mas é preciso ensinar o samba correto. Ensinar o amor à escola, o que é o samba, o que é a música. Se você pergunta a um aluno daqui o que é música, ele te responde: ‘Música é a arte que usa o som como matéria-prima’. Enquanto isso, muitos outros músicos que estão por aí não conseguem te definir o que é música”, destaca.
Voltadas à garotada entre 8 e 17 anos, as aulas ocorrem às sextas-feiras, são gratuitas e atingem principalmente o público infantil do Marapé. “O que é importante, pois mostra que as crianças da comunidade já estão desde cedo se identificando com o pavilhão, com o carnaval e com o samba”, avalia Simonal.”E a garotada vem porque gosta. Tem época que chegamos a ter 40 alunos em aula, de livre e espontânea vontade. Não vou buscar ninguém em casa. Eles vêm pela qualidade da aula e porque sabem que vão aprender a tocar bem”, explica. “Basta dizer que 60% dos nossos ritmistas já são formados aqui”, conta.
Dentre as atividades desenvolvidas, está o aprendizado com os instrumentos de percussão pesada, específico da bateria da escola, e os de percussão fina (pandeiro, cuíca, etc.). Além disso, de acordo com Simonal, as aulas não se limitam ao samba. “Buscamos também formar músicos de carreira. Não ensino só samba, mas marcha rancho, marcha militar, salsa, pagode… E vem dando resultado. Para se ter uma ideia, o China, um dos nossos melhores ritmistas, não vai desfilar conosco porque vai fazer um show com o Karametade em Belo Horizonte. Por um lado, perco um músico que me vai fazer falta. Por outro, fico feliz por ver que ele está crescendo na profissão”, conta.
Se diferentemente de Real Mocidade e Padre Paulo, a União Imperial conta com um barracão, a agremiação também busca aportes para expandir as ações. “Precisamos hoje é de um maior apoio financeiro. Precisa-se investir em uniforme, lanche, instrumento… Os instrumentos de percussão fina são caros, às vezes não tem para todo mundo. Seria ideal uma TV de tela grande, para mais videoaulas, passar o conhecimento de outros músicos, mostrar aos garotos os exemplos de onde eles podem chegar. É importante que essas crianças tenham referências e acreditarem no potencial”, indica.
Mestre aos dezesseis
O carnaval santista tem o mais jovem mestre de bateria do Brasil, considerando os grupos especiais. Trata-se de Kawuan Grande Fernandes da Silva, de apenas 16 anos, que desde o ano passado comanda os ritmistas da Mocidade Dependente do Samba, uma das mais jovens agremiações da Cidade.
Filho de sambistas (o pai, Abelardo, é o presidente da Dependente, enquanto a mãe, Denise, é porta-bandeira), Kawuan sempre esteve no meio carnavalesco. “Comecei em 2000 como ritmista da Padre Paulo. Quando o carnaval voltou, em 2006, voltei a desfilar na bateria, pela Brasil. Na ocasião que a Mocidade foi fundada, saí como diretor da bateria em 2009, e em 2010 virei mestre”, conta.
Idade não é problema para Kawuan. “Nunca tive dificuldade com o pessoal. Todos me respeitam e gostam da escola, além de muitos já serem amigos. A dificuldade maior é mesmo a ansiedade. Mas, por exemplo, no ano passado, recebemos dez dos três julgadores de bateria, o que nos deixou bem felizes e na expectativa, além de mais tranquilos”, destaca.
E o próprio Kawuan já ajuda na preparação de sua “equipe” para o carnaval. Desde o final de 2009, a Dependente está com uma escolinha para formação de ritmistas. “Para se ter uma ideia, dos 120 que estarão na bateria neste ano, a maioria, cerca de 70%, já é formado conosco”, conta o jovem mestre de bateria, que disse, ainda, ter interesse em seguir na música. “Penso em fazer uma faculdade no meio”, conclui.