Aos poucos, eventos tradicionais realizados na Cidade vão sendo extintos
No meu tempo era melhor… Quem nunca ouviu essa frase da boca de uma pessoa mais idosa? É fato que cada um tenha sua opinião, entretanto nota-se cada vez mais que os eventos outrora bem populares em Santos estão se modificando e, por vezes, encerrando suas atividades em razão da mudança de perfil da sociedade como um todo e a maior percepção do aumento de violência. Afinal, estamos perdendo a nossa identidade?
Quem não se lembra do saudoso Banho da Dorotéia, famoso desfile de Carnaval que reuniu milhares de santistas ao longo dos seus 74 anos de existência? (ver quadro). À frente da Secretaria de Cultura de Santos de 2001 a 2012, o jornalista Carlos Pinto relembra que a tradicional festa acabou “porque o pessoal abusou demais”. Em 1997, a atração foi extinta por causa de incidentes de violência e atos de vandalismo.
Segundo o ex-secretário, o Carnabonde caminha para o mesmo fim. “Pelas coisas que estão acontecendo nos últimos anos, a tendência é acabar com aquilo. Antes era uma festa família, com crianças, com características tradicionais. Mas hoje, você vai lá com a sua família para ser agredido por um bando de bêbados e vagabundos?”, questiona.
Barracas na praia
As barracas de entidades que ficam ao longo da extensão da praia já tiveram mais força. Há alguns anos eram comuns festejos dos mais variados estilos até altas horas.
Porém, após intervenção do Ministério Público (MP), a Lei Municipal 314/98 passou a ser cumprida 12 anos depois. “O rigor passou a existir por conta de acidentes, como carrinhos de ambulantes pegando fogo, além de problemas com barulho que irritava os moradores de edifícios próximos à orla”, explica o coordenador de Atividades de Praia da Secretaria Municipal de Esportes (Semes), Claudio Clarindo.
Para ele, a falta de segurança impede a ampliação dos horários de funcionamento das barracas, que hoje é até às 18 horas (estendido para às 20 horas durante o horário de verão). “Primeiro, que pelo dispositivo da lei não é permitido. Segundo, porque tememos pela integridade do munícipe e da realização do evento em questão. O pessoal bebia demais e ia pra água, havia afogamento, brigas. Não é um ambiente seguro, você não sabe para onde vai o desenrolar da festa”, diz.
Atualmente, abre-se exceção para a permanência das barracas apenas no Réveillon. Para tanto, são marcadas reuniões quatro meses antes com as entidades responsáveis.
Clarindo reconhece que o próprio santista largou de mão um pouco as barracas e o perfil do público mudou bastante de uns tempos para cá. “As entidades foram perdendo o gosto. Acho que elas passam pelo mesmo agravo dos clubes da Ponta da Praia. Aquele amor do associado não se tem mais. Hoje, o individualismo impera”.
Quermesse da Nova Cintra
Santos perdeu mais uma das suas tradições no início deste mês quando foi anunciado que a popular quermesse do Morro da Nova Cintra iria acabar, pelo menos nos moldes atuais. O padre Isac Carneiro da Silva, responsável pela Paróquia São João Batista, confessou que a festividade estava saindo do controle.
Entre as razões apontadas para a mudança está a insegurança dos participantes, aumento de consumo de bebidas alcoólicas e crescimento de despesas. A insatisfação fez a comissão de eventos da paróquia elaborar um panfleto enumerando 12 dificuldades que inviabilizam a realização da quermesse. A nova programação da festa será divulgada na próxima semana. A expectativa é que o caráter religioso seja priorizado em detrimento da parte comercial.
Happy hour 
Recentemente, mais uma polêmica se instaurou na Cidade. Boatos que bares e restaurantes do Centro Histórico teriam seu funcionamento restrito, acabando assim com as confraternizações após a jornada de trabalho, conhecido como happy hours.
O secretário de turismo de Santos, Luiz Dias Guimarães afirmou que essa discussão nunca existiu e que projetos de revitalização estão em andamento de comum acordo com os comerciantes locais. “Será um projeto autêntico de happy hour, portanto, das 18 às 21 horas, com pequenos grupos musicais”.
Sociedade Líquida
Todas as mudanças na sociedade e extinções das tradições culturais são descritas pelo pensador polonês Zygmunt Bauman, em um conceito denominado Sociedade Líquida.
De acordo com a análise de Bauman, com o passar das décadas a comunidade perdeu as verdadeiras tradições. No passado, festas juninas, por exemplo, eram sinônimo de quadrilha, fogueiras, além de comidas e músicas típicas. Hoje, as festas carregam o mesmo nome, porém não possuem apego histórico.
O sociólogo e professor da Universidade Católica de Santos (Unisantos), Claudio José dos Santos explica que a perda de identidade é mais um dos reflexos da Sociedade Líquida, já que as pessoas estão se distanciando cada vez mais das tradições. “Manifestações culturais também exitiam para que todos pudessem se comunicar. Com o surgimento da internet veio a facilidade: você não precisa sair de casa para estar em contato com o outro”, esclarece o sociólogo.
Outra característica da era da liquidez descrita por Bauman é a constante sensação de insegurança em todos os sentidos da palavra, tanto em relacionamentos interpessoais como temor da violência. “A falta de segurança pública é um dos motivadores para a diminuição de festas e confraternizações. Há uma tendência de ficarmos reféns do medo. Com isso, saimos menos da redoma e perdemos a nossa liberdade, uma vez que os delitos não têm mais hora para acontecer”.