Sem tendas, atendimentos a pacientes de Covid-19 ou não se misturam em unidades | Boqnews

Saúde

19 DE AGOSTO DE 2020

Sem tendas, atendimentos a pacientes de Covid-19 ou não se misturam em unidades

Desde a semana passada, as tendas que faziam a seleção de pacientes suspeitos com Covid-19 foram retiradas. Secretaria de Saúde de Santos alega queda na procura.

Por: Fernando De Maria

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Pacientes com suspeita de Covid-19 agora dividem o mesmo espaço entre aqueles que não têm sintomas da doença ao chegarem às três unidades de pronto atendimento de Santos.

Desde a última quinta (13), as tendas e a estrutura montada para atender pacientes com sintomas semelhantes ao Covid-19 foram desativadas.

Assim, agora os atendimentos ocorrem dentro das próprias unidades de saúde.

Ou seja, as UPAs Central e Noroeste, além do PS Provisório da Zona Leste.

A Prefeitura alega que a desativação do serviço de triagem decorre da diminuição na procura por pacientes com sintomas da doença.

A triagem começou a ser implantada em abril passado.

Na ocasião, em vídeo da Prefeitura de Santos, o secretário de Saúde, Fábio Ferraz, explicava que o objetivo da central de triagem era isolar o fluxo de pessoas dentro das unidades, distanciando-se eventuais infectados pelo Covid-19 dos demais pacientes que procuram o atendimento por outras moléstias.

No caso de necessidade, os pacientes poderiam ser encaminhados para internação em enfermaria – como na UPA Central – e até hospitais, em casos mais graves.

 

Risco maior

Ao misturar o público como ocorre hoje, há uma preocupação com uma eventual contaminação de pacientes sem o vírus dentro das próprias unidades.

“O risco é grande”, enfatiza o o médico infectologista Evaldo Stanislau.

“A despeito de desativar, deve haver uma triagem de sintomáticos respiratórios antes de entrar na recepção. Sintomáticos respiratórios devem ser separados dos demais e ter atendimento prioritário para sair logo o fator de risco”, alerta.

Na prática, porém, isso não ocorre.

A Reportagem do Boqnews esteve nas unidades da UPA Central e no PS provisório da Zona Leste na última segunda (17), entre 15h e 16h.

Retornou no PS nesta quarta (19) pela manhã, por volta das 9 horas.

O movimento era intenso em ambas as unidades e dias.

Na UPA Central, há um espaço separado, com cadeiras – estavam todas ocupadas na ocasião – para quem chega.

Mas não há qualquer indicativo de orientação para informar para onde ir entre aqueles que estão com sintomas do Covid-19 ou não.

Assim, cabe ao paciente perguntar antes de entrar na fila – sempre com distanciamento mínimo ou não respeitado.

No entanto, a Reportagem indagou a situação e fora informada que quem tinha sintomas poderia se encaminhar diretamente ao espaço (localizado logo à esquerda de quem entra no imóvel).

 

O PS provisório da Zona Leste não tem espaço adequado para atendimento de pacientes com suspeita de Covid-19 ou não, potencializando o risco de contaminação. Foto: Nando Santos

PS provisório da Zona Leste

Porém, a situação é mais complexa no PS provisório da Zona Leste.

Antes, a tenda fazia o atendimento prévio de pacientes em espaço ocupado do lado externo da unidade em parte da Rua Pedro Ivo, ao lado da unidade de saúde.

E em frente à unidade, uma tenda fora instalada (já foi retirada) para realização de testes complementares.

Com a desativação, os pacientes precisam percorrer um extenso corredor até chegar à sala de espera localizada no andar térreo no final do imóvel onde as pessoas aguardam o atendimento.

Aliás, a sala tem menos de 20 metros quadrados, onde os pacientes  se aglomeram.

Nos dois dias quando a Reportagem esteve no local, entre 12 a 15 pacientes aguardavam o atendimento pelos mais variados motivos, após o preenchimento dos dados.

Várias delas, no entanto, preferem ficar de pé, ao longo do estreito corredor de acesso em razão do espaço acanhado na sala de espera.

Lá, após serem chamadas pelas atendentes, as pessoas aguardam sentadas – quando sobram assentos nas cadeiras azuis de plástico.

Aliás, as faixas zebradas colocadas para garantir um distanciamento mínimo praticamente inexistem.

Até porque, sem assentos disponíveis, a alternativa é ficar em pé ao longo do estreito corredor.

A única separação é que há uma sala específica para atendimento – no interior da unidade de saúde – apenas para suspeitos de covid-19.

 

Antes, havia uma tenda no local para realização de exames. A mesma foi retirada e os testes são feitos no interior da unidade. Foto: Nando Santos

Tudo junto e misturado

A aposentada Maria da Graça Augusta de Souza, 71 anos, se deparou com a situação do famoso ‘tudo junto e misturado’ no PS provisório da Zona Leste.

Com sintomas típicos da Covid-19 (ausência de paladar, olfato, falta de ar e forte cansaço), ela esteve na terça (18) pela manhã, onde foi atendida.

“Fica todo mundo junto na sala de atendimento”, atesta.

“Assim, um fica sentado ao lado do outro, pois o espaço é pequeno. Caso contrário, aguardam no corredor”, enfatiza.

Ela confirma que as pessoas aguardam em pé em uma fila para fazer a ficha de atendimento e depois esperam – sentadas ou em pé – para serem atendidas pelo médico.

Naquela manhã, havia apenas um médico, segundo ela, para atender o público (“entre 12 a 15 pessoas”, lembra).

Assim, a espera era maior, na mesma proporção do risco de exposição do vírus aos pacientes que estavam na sala, caso houvesse algum contaminado.

Sem fazer qualquer exame, como raio-X ou tomografia nos pulmões, a despeito de fazer parte do grupo de risco, a aposentada voltou para casa com uma receita de medicamentos, como sulfato de salbutamol, prednisona e ivermectina.

Fez o exame de swap (o do cotonete), cujos resultados só sairão em dez dias úteis, ou seja, no início de setembro.

 

Realidade

Apesar da prefeitura assegurar (veja nota abaixo) que os pacientes passam previamente por medição de temperatura, a Reportagem em nenhum momento identificou esta prática nem no PS da Zona Leste nem na UPA Central, locais visitados.

E também não há separação prévia entre pacientes com Covid-19 ou não, conforme garantido pela Prefeitura (veja nota abaixo)  – fato que não ocorre na unidade do PS provisório da Zona Leste .

Quanto à paciente, o simples fato dela fazer parte do grupo de risco em razão da idade e dos sintomas relatados pela mesma recomenda-se a realização de exames nos pulmões, como raio-X e/ou tomografia, segundo médicos consultados pelo Boqnews, para evitar o risco de progressão da doença, que, infelizmente, é de rápida evolução.

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Resposta I

Em nota, a Secretaria de Saúde justifica que desativou os centros de testagem nas áreas externas das unidades de pronto atendimento Central e Noroeste e no PS Provisório da Zona Leste, mas o atendimento de casos suspeitos e a coleta de amostras para o teste RT-PCR (laboratorial) seguem sendo realizados nas áreas internas das unidades.

Para isso, foram redefinidos fluxos e destinadas salas específicas para consultas e coletas visando a separação dos pacientes.

Os atendimentos e coletas de amostras para o teste também são feitos nas policlínicas de segunda a sexta, a partir das 12h30.

De acordo com o protocolo estadual, é preciso estar entre o 3º e o 7º dia do início dos sintomas.

Conforme a secretaria, a desativação dos centros de testagem foi realizada porque os atendimentos voltados aos pacientes covid-19 diminuíram drasticamente nos últimos meses.

“Em junho, pico do número de casos da doença na Cidade, foram 9.096 atendimentos/mês nas três unidades juntas e, em julho, reduziu para 6.124 (- 32%)”.

“A tenda do centro de triagem covid-19 do PS Zona Leste realizou no mês de junho cerca de 100 atendimentos por dia”.

“Já em agosto, o número caiu para 60/dia – redução de 40%. Em junho, estes atendimentos representavam 75% do total realizado pela unidade e, neste mês de agosto, correspondem a 36%”.

 

Resposta II

Em complemento aos fatos narrados pela reportagem, a Secretaria de Saúde de Santos informa que é realizada a medição de temperatura à distância das pessoas que ingressam nas unidades de pronto atendimento.

A UPA Central realiza a separação dos casos suspeitos após o acolhimento de técnico de enfermagem, que também realiza a aferição da pressão arterial e o nível de oxigênio no sangue, antes da consulta médica.

Os pacientes covid-19 aguardam e passam por atendimento em espaços separados dos demais pacientes.

No PS Provisório da Zona Leste (Av. Afonso Pena, 382), a separação dos casos suspeitos de covid-19 é feita durante a classificação de risco, com aferição dos sinais vitais e priorização dos casos suspeitos.

A partir do dia 27, o atendimento de urgência e emergência deixará de ser feito no local e será realizado na UPA Zona Leste (Praça Visconde de Ouro Preto s/nº, Estuário), que tem 3 mil m² e funcionou por quase quatro meses como hospital de campanha.

Já o imóvel do PS Provisório seguirá como um centro de testagem da covid-19.

Sobre o atendimento citado, os médicos seguem o protocolo municipal, de acordo com o do Ministério da Saúde.

A paciente citada na Reportagem apresentava quadros leves e não tinha indicação de exames de raios-X, recomendado para pacientes com alterações respiratórias e queda da oxigenação no sangue.

 

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