As três corujas que vivem em buracos no final da pista de salto em distância olham, desconfiadas, tudo que está ao seu redor. Não sabem como será o futuro, se continuarão por ali nos próximos anos, tranquilamente. A mesma desconfiança delas paira sobre os frequentadores do Brasil Futebol Clube, na Aparecida.
Vivendo às voltas com insistentes ofertas de compra pelo setor imobiliário e tentando se equilibrar na corda bamba das dívidas, um dos únicos clubes destinados à prática esportiva olímpica em Santos, que resistiu ao tempo e à especulação imobiliária que tomou a cidade, luta para sobreviver. E permanecer nos trilhos do sucesso desportivo de outrora, à beira dos 100 anos.
O Brasil, como é carinhosamente chamado, completará o centenário no dia 21 de agosto de 2013. De 1913 a 1946, a sede era na Avenida Conselheiro Nébias, onde, atualmente, está o prédio do Senac. Em 1946, a diretoria comprou o terreno de 23 mil metros quadrados na rua Jurubatuba e instalou o clube. Hoje, tem aproximadamente 100 sócios contribuintes e outra centena de remidos. O único benefício do associado, que paga R$ 40,00 por mês, é jogar futebol aos domingos no campo.
A agremiação tem tradição na área esportiva, principalmente no atletismo nas décadas de 1960 e 1970 e, mais recentemente, pelos bons resultados na ginástica artística e rítmica. Mas isso não tem diminuído o ímpeto de investidores e especuladores, que insistem em fazer consultas para adquirir a área.
“Já recebi mais de 30 propostas e a última não faz muito tempo”, conta o presidente do clube, Fernando Antônio Coelho. “Mas espanto todo mundo”, diz, fazendo uma cara de mau antes de cair no riso. “Todos querem tirar uma casquinha, mas, bate um certo orgulho. Não quero ser o presidente responsável por vender o Brasil”.
As dívidas, segundo o mandatário, que está há pouco mais de três anos à frente do clube, “não são tão grandes como dos clubes da praia”. Giram em torno de R$ 1 milhão 500 mil, oriundas de taxas públicas, impostos e, o maior entrave, as dívidas trabalhistas. “Quando tomei posse, eram 60 processos. Conseguimos diminuir para 18, mas ainda há muita coisa”, frisa Coelho.
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| Presidente Antônio Coelho afirma ter orgulho e não quer ser responsável pela venda do clube. "Espanto todos que vem aqui" (Foto: Nara Assunção) |
Mesmo assim fica difícil dizer não a tantas (e volumosas) propostas. E o mandatário admite: “Se a situação apertar e não puder fazer mais nada, teremos que negociar. A gente não sabe o que passa na cabeça dos representantes da justiça. Meu medo é uma penhora”. Ele lembra que para que seja efetuado o processo de venda é preciso convocar os sócios para uma assembleia e o negócio ser aprovado pela maioria simples (50% mais um).
Renda - Hoje, a arrecadação mensal do Brasil é de R$ 40 mil, suficientes para pagar as contas mensais. A quantia é procedente do valor pago pelas mensalidades e das áreas arrendadas para as escolinhas de futebol Meninos da Vila e 11 Celeste e para as aulas de Ginástica, Judô, Boxe, Muay-Thai, MMA. “O que os alunos pagam por mês destinam-se 60% ao professor e 40% para o clube”, detalha o presidente.
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| No local também há uma escola de artes marciais (Foto: Nara Assunção) |
E ainda existem duas situações que envolvem o local. O salão de festas, que nas décadas de 1950 a 1980 abrigava grandes festas e bailes de Carnaval está fechado e lacrado pela Polícia Federal. No local, havia um bingo e, depois que a atividade foi proibida no Brasil, as autoridades fecharam um setor importante de arrecadação do clube. Mas, os responsáveis pela área continuam pagando R$ 5 mil de aluguel, mesmo sem a autorização para utilizar o salão.
“Eles (as pessoas responsáveis pelo antigo bingo) vêm toda tarde para cá. Pegam a chave, entram, e ficam trancados lá. Muita gente já me perguntou por que não faço bailes ali. Daí respondo: como? Eu não arrecadaria um valor próximo ao do pago pelo aluguel com o dinheiro de uma festa”, relata Fernando Antônio
Ainda há o setor que, durante anos, foi a sede da Faculdade de Educação Física da Unimes (Fefis). Personagens ilustres passaram pelo local, como Pelé e Leão, que se formaram na instituição em 1973. Após o campus sair do clube, em 1999, o prédio foi locado para uma escola.
Mas, por conta de problemas do pagamento no aluguel (segundo informações apuradas pela Reportagem o valor, aproximadamente de R$ 12 mil, não é pago há meses), existe um processo para que a unidade deixe o local.
“Como solução, poderíamos até negociar uma parte do clube, onde hoje existe esta escola, e, assim, acertar uma grande parte das dívidas. Mas tudo tem que ser visto com calma”, explica o mandatário, sem querer se aprofundar no assunto.
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| Ginástica Rítmica é um dos carros-forte do Brasil FC (Foto: Nara Assunção) |
Esportes - Desde 1913, muitos atletas que brilharam em campos, pistas e quadras de todo o País e do mundo saíram do Brasil Futebol Clube. Nas primeiras décadas de atividades, o atletismo era o carro-chefe. Vários esportistas que treinavam na agremiação defenderam a nação em competições mundiais.
Hoje, os destaques estão nas ginásticas artística e rítmica. Treinam no local atletas que representam Santos e outras cidades nos jogos Regionais e Abertos. Nomes como Vítor Camargo e Danilo Nogueira, que participaram dos Jogos Panamericanos de 2003 e 2007 na ginástica artística, saíram do clube e frequentam o local até hoje.
“Temos o apoio da Fundação Pró-Esportes (Fupes) para participar de competições e a agremiação cede o local para os treinos”, conta Camargo. “Conseguimos alunos por causa do nome que o Brasil conquistou nos últimos anos”, afirma o treinador da ginástica rítmica, Thiago Hermenegildo.
E assim segue a vida no Brasil. As corujas estão lá, atentas, sempre de olho no que acontece. Tranquilas, esperam pela definição do futuro. Torcem tanto quanto os participantes do clube esportivo tradicional de Santos permanecerem na área, mesmo com o frequente assédio imobiliário.
Valorizada - R$ 6 milhões é o valor da área do Brasil, segundo o corretor de imóveis Marcelo Teixeira. "Mas se eu fosse o presidente não negociaria por esse valor. Se ele abrir a boca pedindo R$ 8 milhões, vende fácil, as construtoras farão leilões para comprá-la". Segundo ele, o terremo é uma "mercadoria extremamente vendável, pois é algo que não se encontra no mercado santista, por causa do tamanho e da localização, numa área nobre".
As três corujas que vivem em buracos no final da pista de salto em distância olham, desconfiadas, tudo que está ao seu redor. Não sabem como será o futuro, se continuarão por ali nos próximos anos, tranquilamente. A mesma desconfiança delas paira sobre os frequentadores do Brasil Futebol Clube, na Aparecida.
Vivendo às voltas com insistentes ofertas de compra pelo setor imobiliário e tentando se equilibrar na corda bamba das dívidas, um dos únicos clubes destinados à prática esportiva olímpica em Santos, que resistiu ao tempo e à especulação imobiliária que tomou a cidade, luta para sobreviver. E permanecer nos trilhos do sucesso desportivo de outrora, à beira dos 100 anos.
O Brasil, como é carinhosamente chamado, completará o centenário no dia 21 de agosto de 2013. De 1913 a 1946, a sede era na Avenida Conselheiro Nébias, onde, atualmente, está o prédio do Senac. Em 1946, a diretoria comprou o terreno de 23 mil metros quadrados na rua Jurubatuba e instalou o clube. Hoje, tem aproximadamente 100 sócios contribuintes e outra centena de remidos. O único benefício do associado, que paga R$ 40,00 por mês, é jogar futebol aos domingos no campo.
A agremiação tem tradição na área esportiva, principalmente no atletismo nas décadas de 1960 e 1970 e, mais recentemente, pelos bons resultados na ginástica artística e rítmica. Mas isso não tem diminuído o ímpeto de investidores e especuladores, que insistem em fazer consultas para adquirir a área.
“Já recebi mais de 30 propostas e a última não faz muito tempo”, conta o presidente do clube, Fernando Antônio Coelho. “Mas espanto todo mundo”, diz, fazendo uma cara de mau antes de cair no riso. “Todos querem tirar uma casquinha, mas, bate um certo orgulho. Não quero ser o presidente responsável por vender o Brasil”.
As dívidas, segundo o mandatário, que está há pouco mais de três anos à frente do clube, “não são tão grandes como dos clubes da praia”. Giram em torno de R$ 1 milhão 500 mil, oriundas de taxas públicas, impostos e, o maior entrave, as dívidas trabalhistas. “Quando tomei posse, eram 60 processos. Conseguimos diminuir para 18, mas ainda há muita coisa”, frisa Coelho.
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| Presidente Antônio Coelho afirma ter orgulho e não quer ser responsável pela venda do clube. “Espanto todos que vem aqui” (Foto: Nara Assunção) |
Mesmo assim fica difícil dizer não a tantas (e volumosas) propostas. E o mandatário admite: “Se a situação apertar e não puder fazer mais nada, teremos que negociar. A gente não sabe o que passa na cabeça dos representantes da justiça. Meu medo é uma penhora”. Ele lembra que para que seja efetuado o processo de venda é preciso convocar os sócios para uma assembleia e o negócio ser aprovado pela maioria simples (50% mais um).
Renda – Hoje, a arrecadação mensal do Brasil é de R$ 40 mil, suficientes para pagar as contas mensais. A quantia é procedente do valor pago pelas mensalidades e das áreas arrendadas para as escolinhas de futebol Meninos da Vila e 11 Celeste e para as aulas de Ginástica, Judô, Boxe, Muay-Thai, MMA. “O que os alunos pagam por mês destinam-se 60% ao professor e 40% para o clube”, detalha o presidente.
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| No local também há uma escola de artes marciais (Foto: Nara Assunção) |
E ainda existem duas situações que envolvem o local. O salão de festas, que nas décadas de 1950 a 1980 abrigava grandes festas e bailes de Carnaval está fechado e lacrado pela Polícia Federal. No local, havia um bingo e, depois que a atividade foi proibida no Brasil, as autoridades fecharam um setor importante de arrecadação do clube. Mas, os responsáveis pela área continuam pagando R$ 5 mil de aluguel, mesmo sem a autorização para utilizar o salão.
“Eles (as pessoas responsáveis pelo antigo bingo) vêm toda tarde para cá. Pegam a chave, entram, e ficam trancados lá. Muita gente já me perguntou por que não faço bailes ali. Daí respondo: como? Eu não arrecadaria um valor próximo ao do pago pelo aluguel com o dinheiro de uma festa”, relata Fernando Antônio
Ainda há o setor que, durante anos, foi a sede da Faculdade de Educação Física da Unimes (Fefis). Personagens ilustres passaram pelo local, como Pelé e Leão, que se formaram na instituição em 1973. Após o campus sair do clube, em 1999, o prédio foi locado para uma escola.
Mas, por conta de problemas do pagamento no aluguel (segundo informações apuradas pela Reportagem o valor, aproximadamente de R$ 12 mil, não é pago há meses), existe um processo para que a unidade deixe o local.
“Como solução, poderíamos até negociar uma parte do clube, onde hoje existe esta escola, e, assim, acertar uma grande parte das dívidas. Mas tudo tem que ser visto com calma”, explica o mandatário, sem querer se aprofundar no assunto.
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| Ginástica Rítmica é um dos carros-forte do Brasil FC (Foto: Nara Assunção) |
Esportes – Desde 1913, muitos atletas que brilharam em campos, pistas e quadras de todo o País e do mundo saíram do Brasil Futebol Clube. Nas primeiras décadas de atividades, o atletismo era o carro-chefe. Vários esportistas que treinavam na agremiação defenderam a nação em competições mundiais.
Hoje, os destaques estão nas ginásticas artística e rítmica. Treinam no local atletas que representam Santos e outras cidades nos jogos Regionais e Abertos. Nomes como Vítor Camargo e Danilo Nogueira, que participaram dos Jogos Panamericanos de 2003 e 2007 na ginástica artística, saíram do clube e frequentam o local até hoje.
“Temos o apoio da Fundação Pró-Esportes (Fupes) para participar de competições e a agremiação cede o local para os treinos”, conta Camargo. “Conseguimos alunos por causa do nome que o Brasil conquistou nos últimos anos”, afirma o treinador da ginástica rítmica, Thiago Hermenegildo.
E assim segue a vida no Brasil. As corujas estão lá, atentas, sempre de olho no que acontece. Tranquilas, esperam pela definição do futuro. Torcem tanto quanto os participantes do clube esportivo tradicional de Santos permanecerem na área, mesmo com o frequente assédio imobiliário.
Valorizada – R$ 6 milhões é o valor da área do Brasil, segundo o corretor de imóveis Marcelo Teixeira. “Mas se eu fosse o presidente não negociaria por esse valor. Se ele abrir a boca pedindo R$ 8 milhões, vende fácil, as construtoras farão leilões para comprá-la”. Segundo ele, o terremo é uma “mercadoria extremamente vendável, pois é algo que não se encontra no mercado santista, por causa do tamanho e da localização, numa área nobre”.