Disparidade na Baixada Santista também ocorre na vacinação contra a Covid | Boqnews
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Números distintos

27 DE MAIO DE 2021

Disparidade na Baixada Santista também ocorre na vacinação contra a Covid

Há disparidade de vacinação entre moradores da Baixada Santista. Não bastasse, em algumas cidades, quase 30% das vacinadas ocorrem em moradores de outras localidades.

Por: Fernando De Maria

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A disparidade da Baixada Santista não se limita apenas ao distanciamento social dos indicadores do IDH – Índice de Desenvolvimento Humano.

Na questão da vacinação contra a Covid-19, a realidade dos números díspares também se confirma.

Por exemplo, segundo o IBGE, Santos tem o terceiro melhor IDH entre os 645 municípios paulistas. (dados do último censo, de 2010).

Muito acima dos oito demais municípios da região metropolitana da Baixada Santista.

Os mais próximos são São Vicente (121ª), seguidos por Mongaguá e Praia Grande, ambos na 199ª colocação; Guarujá (219ª), Peruíbe (236ª), Itanhaém (265ª), Cubatão (330ª) e Bertioga (388ª).

No tocante à vacinação, a disparidade também é gritante.

E pior, o ritmo da vacinação é preocupante, ainda mais com a nova onda de casos que deverá provocar novo pico em junho, após a liberação das atividades e circulação de pessoas.

Algumas cidades como São Bernardo e Santo André, por exemplo, vão implantar toque de recolher a partir de segunda (31) em razão do aumento de casos.

Em Santos, no entanto, nada muda. Por enquanto. Mas a circulação de pessoas na região e a disparidade da vacinação é algo que preocupa.

Enfim, para se ter ideia, com base no vacinômetro do Governo do Estado, há uma incrível disparidade de pessoas vacinadas – apenas na primeira dose.

Na segunda dose, a disparidade é ainda maior.

Na média nacional, o atraso entre a primeira e segunda doses é de 20% no caso da Coronavac e de 52,7% no da AstraZeneca.

 

Região

Na região, porém, os indicadores de atraso são mais expressivos: 40,4% e 70,2%, respectivamente, conforme levantamento do Laboratório de Estatística e Ciências de Dados da Universidade Federal de Alagoas, em parceria com outras instituições de ensino superior, como USP, FGV entre outras instituições, dentro do programa ModCovid19.

Por exemplo, no ranking paulista entre as pessoas que tomaram apenas a primeira dose da vacina, Santos aparece em 39º lugar entre os 645 municípios do estado (dados até quarta, dia 26), com 33,5% da população vacinada – ainda que de forma parcial.

Assim, exatamente o dobro que a média de Cubatão, com 16,8% dos cubatenses vacinados.

Portanto, isso não tem relação partidária, pois ambos municípios são administrados pelo PSDB.

Os dados são móveis e dependem do ritmo de vacinação de cada cidade.

Assim, em um dia, o acréscimo percentual foi de ínfimos 0,1%.

Neste ritmo, a previsão de encerramento de vacinação preocupa.

 

Ritmo lento

Para se ter ideia, no ritmo atual de entrega de vacinas à população, a vacinação só terminará em 2026 em algumas cidades, como Praia Grande, Mongaguá e Bertioga.

Em Santos, em fevereiro de 2023. Portanto, diferença de três anos.

Conforme levantamento do Laboratório de Estatísticas, o atual ritmo de vacinação preocupa.

E coloca em risco a vida daqueles que esperam ser vacinados – tanto na primeira como na segunda doses.

 

Mais problemas

Não bastasse a disparidade percentual e no ritmo de vacinação, um outro problema é o elevado volume de pessoas que ainda não tomaram a segunda dose da vacina.

No caso da Coronavac, o prazo máximo e mínimo é de 14 a 28 dias.

No da Astrazeneca, entre 56 a 84 dias. Já no da Pfizer, 21 a 25 dias, conforme informado pelos laboratórios.

Conforme dados do Painel Vacinação Covid-19, da UFAL, chama a atenção o volume percentual de pessoas que não foram vacinadas, mas também as que faltam tomar a segunda dose.

Assim, pelo painel, que utiliza dados do Ministério da Saúde – o que pode provocar alterações em razão da demora pelos municípios e estados para envio das informações – são quase 5,5 milhões de brasileiros que ainda aguardam a segunda dose da vacina.

São 4 milhões (20%) no caso da Coronavac e 1,4 milhão (52,7%) em relação à Astrazeneca.

Na Baixada Santista, os índices são ainda piores.

Por sua vez, o atraso entre a primeira e segunda doses chega a 40,4% entre os que aguardam a Coronavac e 70,2% no caso da Astrazeneca.

Em números, são quase 65 mil pessoas nesta situação.

Por sua vez, Mongaguá é a cidade da região com os piores indicadores entre os munícipes que tomaram a primeira dose, mas não receberam a segunda.

Dessa forma, apenas 1196 (dados até 24/5) dos 3470 moradores da cidade haviam tomado a segunda dose da Coronavac.

No caso da Astrazeneca, a situação é ainda pior: apenas 60 dos 592 moradores receberam as duas doses.

 

Vacinação tem disparidade elevada entre os municípios da Baixada Santista

Santos

Em Santos, o percentual é de 24% e 75,3%, respectivamente, índice de que irá diminuir a medida que a vacinação da Astrazeneca para maiores de 80 anos iniciou no começo da semana.

“Ainda que os números estejam um pouco desatualizados em relação à realidade por causa da demora no envio dos dados ao ministério, o percentual de doses atrasadas é elevado”, destaca o coordenador do estudo, o professor da UFAL e matemático Krerley Oliveira.

Segundo ele, várias hipóteses podem ser elencadas para mostrar a disparidade.

Dessa forma, a falta de vacinas – com interrupção da fabricação por falta de insumos (no caso da Coronavac, o material chegou da China na terça (25). São 3 mil litros do IFA, capaz de produzir 5 milhões de doses) e também o não comparecimento de pacientes para tomar a segunda dose são algumas explicações para tais números.

“Seria importante as autoridades contatarem as pessoas para retornarem e tomarem a segunda dose”, salienta.

Especialista em saúde pública, o médico Marcio Aurélio Soares é didático para explicar os riscos da não vacinação completa.

“É o mesmo que pintar a parede com uma demão apenas de tinta. Assim, quem não toma a segunda dose fica desprotegido. O risco existe”, salienta.

Portanto, a situação tende a piorar com os indicadores em alta tanto em internações como em mortes – acrescido da confirmação da presença da nova cepa, mais agressiva, proveniente da Índia.

 

Mudanças

Portanto, diante de atrasos e disparidade na vacinação, é frequente que a população se desloque entre as cidades da região para ser vacinada.

Assim, é o caso do comerciário Robson de Souza, que trouxe sua mãe de Itanhaém para ser vacinada em Santos.

“Lá estava demorando muito”, relatou.

O estudo da UFAL mostra também o impacto dos deslocamento e a importância de uma maior padronização no volume de vacinas aplicadas em razão da movimentação constante de moradores em uma região metropolitana como a Baixada Santista, onde a conurbação é comum.

Para se ter ideia deste pêndulo vacinal, segundo o estudo, 5% das aplicações de vacinas aplicadas em Santos foram para pacientes de outras localidades (16% de São Paulo, 9% de Guarujá e 23% de São Vicente).

Outras cidades têm indicadores maiores de moradores de outras localidades.

Em Praia Grande, por exemplo, quase 3 em cada 10 pacientes que tomaram a vacina (27,9%) são de outras cidades, sendo 38% de São Paulo, 10% de São Vicente e 9% de Santos.

Além disso, outro município com elevado índice de pessoas de outras regiões ocorre em Itanhaém, com 29,1% dos vacinados de outras localidades, sendo 44% deste volume  proveniente de São Paulo.

Portanto, é o caso de Bertioga, com 22,5% das aplicações de cidadãos de outros municípios, como São Paulo (36%); e Peruíbe, com 26,6% de aplicações para moradores de outras cidades (39% deste montante de São Paulo).

Moradores de outras localidades

Uma das explicações para esta situação é que em razão da pandemia cresceu o número de moradores de outras localidades, especialmente da Capital e ABC, que tem casa no litoral e hoje residem em cidades litorâneas.

Assim, muitos foram vacinados por estarem morando, ainda que temporariamente ou não, nos municípios do litoral paulista, o que mostra esta movimentação.

“Todos os municípios importam e exportam pessoas. Isso significa que existem aquelas que têm casas em cidades, como na Capital, como no litoral, e optam onde a vacinação está mais avançada ou pela comodidade de onde estão residindo. Este tipo de desequilíbrio pode provocar a falta de vacinas em algumas cidades”, salienta Kreley Oliveira.

Dessa forma, não é à toa que vários municípios do litoral paulista registraram falta da segunda dose, em razão do número de pessoas vacinadas ser bem superior aos dados oficiais do IBGE.

Assim, os dados oficiais servem de referência para a distribuição das vacinas por faixas etárias em cada município.

 

Programa

Assista ao programa completo com os dois especialistas no Jornal Enfoque – Manhã de Notícias da última segunda (24)

 

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