Educação

Educação vive cenário de muitas incertezas

Ensino no País enfrenta dificuldades para adaptar um método capaz de atender milhares de alunos durante a quarentena

14 de julho de 2020 - 14:11

João Pedro Bezerra

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A Covid-19 escancarou ainda mais a desigualdade e os problemas da educação no Brasil. Do ensino básico ao superior, estudantes convivem com as dificuldades de acesso aos meios digitais, sobretudo a população mais vulnerável à pobreza.

Desde o início da quarentena, colégios particulares e públicos adotaram o ensino remoto como tentativa de suprir a lacuna deixada pelo isolamento social obrigatório. Dessa forma, as aulas são aplicadas por meio de aplicativos como o Zoom, Microsoft Teams, Google Classroom e Skype, além dos grupos de Whastapp, que se tornaram uma das importantes ferramentas na interação entre alunos e professores.

Pesquisa

A pesquisa realizada em 2019, pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), atestou que cerca de 30% das moradias brasileiras não tinham acesso à internet. Dados da Unicef também atestam essa precariedade. O levantamento da entidade revela que 4,8 milhões de crianças e jovens no País, com idades entre 9 e 17 anos, não conseguem assistir às aulas devido à falta da tecnologia. Por conta disso, o Senado Federal tem tentado elaborar leis para garantir a educação aos mais pobres. Dois projetos já foram apresentados, um pelo senador do Paulo Palim (PT) e outro por Jorge Kajuru (Cidadania), ambas as propostas visam criar auxílio financeiro, concedendo bolsas e vouchers para que os alunos contratem planos de internet. Contudo, são quase quatro meses sem aulas e até um projeto sair do papel, o retorno presencial já deverá ter acontecido.

Em recente pronunciamento, o presidente da República, Jair Bolsonaro, ressaltou os problemas da educação: “A garotada que não está na sala de aula terá dificuldades na readaptação, essa é uma preocupação nossa. Temos que dar atenção para o vírus sim, mas também é preciso olhar para a economia e a educação”.

Impactos

A pedagoga Sabrina Soares destacou que 2020 trará impactos para todos os estudantes das mais diversas idades, mas principalmente para as crianças que estão no período de alfabetização. “Os alunos com 7 anos precisam de tutoria e nem todos os pais terão paciência e disciplina para ensinar. Por mais que elas estejam inseridas na era da tecnologia e tenha facilidade com o manuseio dela, o que estabelece essa fase é o conhecimento dos sons das letras e consequentemente a leitura e a coordenação motora fina”, afirma.

Sabrina também é de opinião de que as aulas online não suprem de forma completa o ensino para todos e assim seria necessário criar mais um ano de ensino presencial.

Aulas

Os colégios municipais, estaduais e particulares adotam métodos próprios para atender professores e alunos. Em Santos, a Secretaria de Educação deu carta branca para cada escola seguir da maneira que julgasse ser adequada, mas exigiu que as atividades fossem colocadas no Portal Educa Santos.

A professora Priscilla Justus, que ministra aulas no Colégio Olavo Bilac para o Ensino Fundamental, enfatiza a reinvenção dos mestres para poder atender as mudanças devido a quarentena: “Está sendo um grande desafio, principalmente com os alunos que não têm acesso à internet e com aqueles que não se sentem motivados a participar das aulas. Estamos em casa, usando nossos equipamentos, trabalhando muitas horas por dia”.

Os alunos da escola recebem as lições e atividades pelo Whatsapp, visto que muitos celulares não têm capacidade para baixar aplicativos por conta do espaço reduzido de armazenamento.

Rede Estadual

Na rede estadual de ensino foram adotadas uma série de medidas, como entrega de materiais e livros que precisaram ser retirados nas escolas, aulas transmitidas pelo Centro de Mídias em parceria com a TV Cultura abrangendo a Educação Infantil até o Ensino Médio e o aplicativo que é gratuito para todos os alunos, bastando fazer o cadastro na Secretaria Digital.

Os professores do Estado devem preparar roteiros semanalmente, publicando atividades e correções no Google Classroom todos os dias. A medida adotada pelo Secretário da Educação Rossieli Soares foi positiva, contudo grande parte dos estudantes não acessam a aula. Em maio último, apenas 47% dos alunos acompanhavam o conteúdo aplicado pelos professores. Por essas circunstâncias, o secretário estadual de Educação, Rossieli Soares, não descarta a criação de um “4° ano” do Ensino Médio, na tentativa de preencher esse espaço causado pela pandemia, com base no Plano de Contingência do Estado. Nas escolas particulares, a situação é um pouco melhor, pois a ampla maioria dos alunos possuem internet em casa. Com isso, as aulas são disponibilizadas em diferentes aplicativos, com o diálogo dos pais e diretorias das escolas.

Atualmente as instituições de ensino privadas começam a enfrentar o desafio de superar a crise financeira. Por conta da pandemia, muitos pais perderam o emprego e por problemas econômicos pretendem retirar os filhos das escolas particulares. Além de descontos nas mensalidades, acordos estão sendo feitos para que ambas as partes não sejam prejudicadas. Algumas escolas, no entanto, convivem com o medo de fecharem as portas.

Dificuldades

O acesso à internet não é a única dificuldade encontrada pelos estudantes, muitos alunos precisaram dividir seus equipamentos com os pais que trabalhavam em home office e com os irmãos. Além disso, vários alunos possuem dificuldades na aprendizagem, como déficit de atenção, que podem se agravar ainda mais nas aulas onlines. Para uma criança do Ensino Fundamental ter um bom aprendizado é necessário um conjunto de fatores. Além da qualidade do ensino oferecido, o acompanhamento de pais ou responsáveis, o acesso à internet banda larga e um computador de uso exclusivo para o horário da aula são fundamentais para o sucesso do ensino remoto.

Ensino Médio

Um dos grupos mais prejudicados pela pandemia são os alunos do 3° ano do Ensino Médio que deveriam prestar o vestibular no fim do ano, porém as dificuldades na hora dos estudos e o adiamento das provas colocam o desejo de cursar uma faculdade no ano que vem em cheque.

O Ministério da Educação divulgou, no último dia 8, a data das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) que vão acontecer em 17 e 24 de janeiro de 2021, provas impressas; e 31 de janeiro e 7 de fevereiro provas onlines. Assim, os estudantes já começam a se preparar para o exame que dá vaga nas Universidades Federais.

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