Enquanto os usuários de fretados, que reivindicam a liberação da Pista Sul da Rodovia Imigrantes em função do caos do tráfego viário e preocupação iminente de acidentes na Anchieta, a situação não é tão simples assim.
Um ano após a inauguração da nova pista da Imigrantes, a Ecovias, concessionária do sistema SAI (Anchieta-Imigrantes), fez uma consulta à Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) para o desenvolvimento de um possível estudo com o objetivo de verificar a possibilidade da circulação de veículos de carga pesada. Como resultado, a Agência de Transportes do Estado de São Paulo (Artesp) emitiu a Portaria de nº 11/2002 (que proíbe a passagem de frotas de categorias como ônibus, microônibus e caminhões). A preocupação existente há mais de dez anos consiste na constatação de que o trecho descende 11 quilômetros, com rampa média de declive de 6%. Na prática, liberar a pista Sul da Imigrantes representaria, segundo a justificativa, um risco ainda maior em relação à descida de declive pela Anchieta.
“A preocupação é maior com os túneis existentes na pista sul da Imigrantes. Eles possuem uma extensão maior que os na Anchieta”, justifica o engenheiro Antonio Carlos Canale, professor do Departamento de Engenharia de Materiais, Aeronáutica e Automobilística e um dos autores do laudo que resultou na portaria. Isso significa que um acidente envolvendo automóveis e veículos maiores, inclusive os microônibus, podem ocasionar um colapso maior.
“A operação, além de ser de alto risco, pode provocar acidentes de grandes proporções. Em um acidente com incêndio, o ônibus produzirá grande quantidade de fumaça e liberará energia térmica suficiente para elevar muito a temperatura no local do acidente. Isto dificultará a ação dos bombeiros e poderá até colapsar os dispositivos de segurança ou a própria estrutura do túnel. Após o acidente, o túnel poderá ficar em manutenção por longo período, causando grande impacto para toda comunidade que se utiliza deste sistema rodoviário”, calcula.
E qual seria a solução exata para esse caso? “A construção de uma rodovia para os veículos comerciais de médio e grande portes poderia ser uma solução, tendo ela um declive percentual menor, túnel paralelo para a evacuação das pessoas e entrada dos bombeiros e retirada da fumaça”, explica o engenheiro.
Canale é um dos mantenedores do estudo que elaborou o laudo de 2003, divulgado em 2005. A viabilidade da pesquisa, que foi patrocinada pela Ecovias, se deu pelo oferecimento de uma bolsa de pós-doutorado concedida pela Fundação de Apoio à Pesquisa e o Aperfeiçoamento Industrial (FIPAI).
Brecha
Porém, o questionamento das autoridades da Baixada Santista e dos usuários dos fretados tem relação com um importante ponto previsto no laudo, que não proíbe a liberação da Pista Sul da Imigrantes: o setor automobilístico já possuía, desde aquela época, tecnologia capaz de “garantir segurança aos veículos e compatibilizá-los com declives longos e acentuados”. Isto é: fisicamente, a tecnologia de qualquer veículo não é incompatível para passar pela Imigrantes. “Mesmo assim, pelo estudo de 2005, constatamos que muitos ônibus trafegam no seu limite operacional”, explica Canale. Foram testados 34 veículos diferentes e, nesse objeto de estudo, estiveram nove montadoras presentes. Todos os testes eram feitos durante a madrugada.
Outro fator defendido pelo especialista e professor da USP de São Carlos é que por mais que a tecnologia seja avançada, a prudência dos condutores não pode ser ignorada – no laudo, um curso específico foi proposto.
Contexto
Considerada um marco na história da infraestrutura brasileira nos anos 70, a Rodovia dos Imigrantes era a menina dos olhos do Governo Federal, na ocasião, presidido por Ernesto Geisel, nos tempos de ditadura militar.
Inaugurada no dia 28 de junho de 1978, a mídia impressa na época também reforçou o coro da rodovia como uma fortaleza da engenharia do País. O extinto Jornal da Tarde, por exemplo, levou o repórter Francisco Santos para circular na pista. Na publicação daquele ano, o jornalista relata:
“Considero a Rodovia dos Imigrantes uma das melhores estradas em que já transitei”, e acrescenta “Em alguns aspectos, está acima das melhores estradas expressas de montanha existentes na Áustria, Itália e Suíça”.
Impressionado com o tamanho das curvas da estrada, o jornalista em questão até mesmo tinha uma visão positiva sobre a até então futura construção da Pista Sul da Imigrantes. “[Elas] oferecem o máximo de visibilidade ao longo de toda a sua extensão (…) não oferecem qualquer perigo, mesmo que um dia venham um dia a ser utilizadas no sentido descendente”.
Evidente que muitas mudanças ocorreram ao longo dos 37 anos de existência da estrada. Mudanças essas que incluem não somente as obras e manutenções das pistas, como também o considerável aumento da frota rodoviária, especialmente de caminhões, uma realidade inevitável no Século 21 – com a logística crescente de cargas para o Porto de Santos, por exemplo.
Após 24 anos, uma das “previsões” do jornalista paulista havia se concretizado: a construção da Pista Sul da Imigrantes deixaria de ser um sonho e, então, no dia 18 de dezembro de 2002, o Governo do Estado de São Paulo inaugurou o novo trecho da rodovia, com 21quilômetros e um investimento de US$ 300 milhões. Nessa época, a Ecovias já era a concessionária da estrada.