Criatividade

Economia Criativa ganha destaque em Santos com o Setembro Criativo

Será que Santos sabe realmente aproveitar o potencial do mercado da Economia Criativa que está em ascensão?

25 de setembro de 2015 - 19:14

Nara Assunção

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santoscriativoSantos trouxe um debate importante neste mês ao nomeá-lo de Setembro Criativo, mas será que a Cidade se enquadra neste conceito? Aliás, o que exatamente é a Economia Criativa? Para começar a responder, existe uma definição importante sobre criatividade que ajuda a entender a relevância que a palavra tem para a nova geração. É a definição do filósofo Adolfo Sánchez que a trata como uma sublime dimensão da condição humana. É da capacidade criativa, então, que existe a chave da evolução da humanidade.

Desta forma, o modelo atual da política econômica ganha um novo formato como explica o agitador cultural, Santiago Carballo. Segundo ele, o atual tripé se transforma em 4 dimensões, onde em primeiro lugar coloca-se a criatividade, depois a questão ambiental e social. Por último aparece o financeiro. Diferente do convencional tripé, onde o último é o primeiro em questão de importância. E o primeiro nem existe.

“A felicidade também aparece como pilar fundamental. Fazer o que gosta e conseguir trazer resultados financeiros é fundamental neste conceito”, explica Carballo, também atuando com Educação Criativa, que resumidamente seria uma maneira de estimular as crianças a conhecerem suas habilidades e ter sonhos.

De acordo com a produtora cultural, relações públicas e também pesquisadora do tema, Denise Covas, existem diversas definições para a Economia Criativa, mas essencialmente é um conjunto de atividades econômicas baseadas no conhecimento que fazem uso intensivo do talento criativo incorporando técnicas ou tecnologias e agregando valor ao capital intelectual e cultural.”Isso significa uma mudança de paradigmas no mundo dos negócios”, explica.carinha

E falando em tecnologia, a internet tem um papel fundamental neste processo. De acordo com escritor e também produtor cultural, Rodrigo Savazoni, ela é responsável por uma nova etapa da criatividade humana. “É um arranjo transformador, porque está baseado na ideia de que a inteligência está nas pontas do processo. A somatória entre internet e micro-informática mudou o mundo e nos trouxe até aqui onde estamos”, acredita Savazoni, que está representando o Brasil no MediaLab Prado, na Espanha, com o projeto de criação de uma nova instituição para trabalhar a cultura digital e a inovação cidadã.

“Tenho apoio internacional, financiamento da Fundação Ford para o desenvolvimento do conceito (que está sendo trabalhado abertamente no site www.tecnologiasalternativas.org.br) e parceria com o Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado de Cultura. Falta o espaço, que está sendo estudado. Adoraria que fosse em Santos. Faria muito sentido e seria algo único no Brasil”, ressalta.

Santos Criativa
De acordo com Savazoni, Santos é uma cidade historicamente criativa. “Cidades são feitas de pessoas, em encontros, e acho que o primeiro passo para que Santos possa efetivamente avançar nesse aspecto é a produção, o fortalecimento desses espaços de fruição, presenciais e virtuais, que criam as conexões incendiárias que uma cidade necessita para ser criativa. Isso pode ser feito por meio de políticas públicas e sei que a prefeitura está interessada nisso”, explica.

Para Denise, a iniciativa da prefeitura ao lançar o Setembro Criativo, por exemplo, teve importância, mas ainda faltam ações fundamentais para os pilares de uma verdadeira Cidade Criativa.

“Faltam mapear os setores com dados econômicos. A partir disso, entender quais são as atividades com maior potencial de Santos e assim criar as condições para que elas se potencializem com consistência”. Denise cita a pesquisadora Ana Carla Fonseca, especialista no assunto, que explica que existem seis pilares para uma cidade ser inserida neste conceito: inovação, conexão, cultura, talento, tolerância e tecnologia.

O tema vem sendo debatido em eventos pontuais na região. O próprio agitador cultural Carballo já realiza encontros com pessoas ligadas a diferentes segmentos e criou a #tâmusaê no facebook para mobilizar o assunto. Inclusive, o movimento traz nesta semana o minicurso Práticas em Fluxonomia 4D.

Na oficina que debate a Economia Criativa, Compartilhada, Colaborativa e Multivalores 4D, Lala Deheinzelin recebe os convidados Soledad Giannetti e Fernando Jeger (de LA Usina Cultura Chascosmús, Argentina). O minicurso acontece na terça (29) e quarta (30), das 19 às 23 horas. Em Santos, a transmissão via streaming acontece na Triares Treinamentos, à Av. Pedro Lessa, 2721, na sala 14. Valor para quem assistir em Santos é aberto. Ou seja, cada participante irá pagar de acordo com a experiência que tiver ao final da primeira noite. Informação pelo site da Triares.

 

A produtora cultural Denise Covas também está formatando um curso, que pretende difundir na região o conceito de Economia Criativa. Informações serão divulgadas em breve.

História
Rodrigo Sazavoni explica que nos últimos 30 anos, a partir de uma experiência anglo-saxã, em especial inglesa e australiana, começou a onda de economia criativa global, inclusive com organismos internacionais promovendo o que chamavam de indústrias criativas, que seriam as indústrias do século 21, baseadas na produção imaterial.

No Brasil, a questão ganhou impulso mais forte a partir da criação da Secretaria de Economia Criativa, durante o primeiro governo da presidente Dilma Rousseff, com a preparação do programa Brasil Criativa, que propunha uma inflexão do conceito anglo-saxônico ao trazê-lo para uma aproximação com os estudos e artigos de Celso Furtado sobre a economia da cultura. Mais recentemente, com nova mudança ministerial, a secretaria foi extinta.

No plano local, a questão da economia criativa está no epicentro dos debates sobre as cidades criativas, ou inteligentes, ou smartcitzens, que são, quase todos, termos produzidos por alguma consultoria internacional em busca de vender projetos e serviços aos prefeitos. “Processos de cima para baixo cujos resultados são bastante questionáveis”, explica Sazavoni.

Trabalho em rede
Já na reta final, o mês de setembro foi marcado pela realização de diversos eventos por toda a Cidade em sete segmentos: música, cinema e audiovisual, gastronomia, tecnologia, artesanato, design e literatura. A Tarrafa Literária, por exemplo, fecha o mês com chave de ouro, enaltecendo a sétima área mencionada. Denominada como Setembro Criativo pela prefeitura de Santos, a iniciativa envolveu poder público, instituições – como o Sesc – e universidades.

De acordo com o secretário de Cultura, Fábio Nunes, o Fabião, a iniciativa teve a participação de todas as secretarias municipais, como a pasta de Cultura, que ficou mais na parte operacional. “É um trabalho de rede, que é um dos principais marcos da criatividade. Interligar as áreas e beber em outras vertentes é fundamental neste processo”, explica Fabião.

O balanço, segundo o secretário, é positivo e a intenção é fazer com que a iniciativa continue nos próximos anos. Para ele, a criatividade é fundamental no processo de reinvenção nos rumos atuais e Santos está no caminho para esta nova era. “Neste mês, inauguramos equipamentos importantes como a Vila Criativa e começamos um projeto de grande relevância junto ao COMEB (Conselho Municipal de Entidades de Bairros) para realizar um mapeamento dos artistas de cada localidade. É uma maneira perene de fazer um cadastro das pessoas que criam dentro da Cidade”, explica.

Unesco
Santos pleiteia o selo de Cidades Criativas da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) pela área do cinema e do audiovisual. “Temos o Curta Santos, Instituto Querô, espaços como Cine Arte Posto 4, reaberto na sexta (25). É uma oferta fantástica no setor da sétima arte que pode ser ainda mais explorada”, explica.

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Entrevista completa com Rodrigo Savazoni, que abrange o tema Economia Criativa e fala mais sobre projeto que pretende implantar de cultura digital e inovação cidadã.

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