Entrevista

Rodrigo Savazoni fala sobre Economia Criativa e de projetos em Santos

Escritor e produtor cultural, Savazoni participa de residência no MediaLab Prado, em Madri. Ele fala sobre economia criativa e como vê a cidade inserida neste conceito

28 de setembro de 2015 - 12:27

Nara Assunção

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rodrigoEm busca de uma cidade mais aprazível para se viver – como definiu na entrevista – o paulistano Rodrigo Savazoni se mudou para Santos em 2011. Escritor e produtor cultural, Rodrigo está no momento em Madri, onde participa de uma residência no MediaLab Prado, que é um centro de cultura digital e inovação cidadã. Referência para todos que atuam nesse campo. Confira entrevista com Savazoni que foi um dos fundadores da Casa da Cultura Digital e criador do Festival CulturaDigital.Br (www.culturadigital.org.br) e possui projeto de cultura digital e inovação cidadã, que pretende implantar na Cidade. Como escritor é autor de CulturaDigital.br, em parceria com Sergio Cohn (Azougue, 2009), A Onda Rosa-Choque – Reflexões sobre redes, cultura e política contemporânea (Azougue, 2013), Os Novos Bárbaros – A aventura política do Fora do Eixo (Aeroplano, 2014) e Poemas a uma mão (Azougue, 2015).

Atuando na área digital, dentro do conceito de Economia Criativa, gostaria de saber como defini este conceito?

Bom, antes de mais nada, quero dizer que tenho um certo desconforto com esse termo. Eu acredito que a cultura e a criatividade não podem ser reduzidas a seu aspecto econômico. Para mim, é preciso que pensemos a cultura sempre articulada em três dimensões, como direito, fruição simbólica e, sim, economia. E que essas três dimensões devem se equilibrar. Nos últimos 30 anos, a partir de uma experiência anglo-saxã, em especial inglesa e australiana, começou a onda de economia criativa global, inclusive com organismos internacionais promovendo o que chamavam de indústrias criativas, que seriam as indústrias do século 21, baseadas na produção imaterial. É sempre difícil demarcar onde começa e termina essa concepção e há muitas abordagens para isso.

Quando ganhou força no país?

No Brasil, no plano nacional, essa questão ganhou impulso mais forte a partir da criação da Secretaria de Economia Criativa, durante o primeiro governo Dilma, com a preparação do programa Brasil Criativa, que propunha uma inflexão do conceito anglo-saxônico ao trazê-lo para uma aproximação com os estudos e artigos de Celso Furtado sobre a economia da cultura. Mais recentemente, com nova mudança ministerial, essa secretaria foi extinta. No plano local, a questão da economia criativa está no epicentro dos debates sobre as cidades criativas, ou inteligentes, ou smartcitzens, que são, quase todos, termos produzidos por alguma consultoria internacional em busca de vender projetos e serviços a nossos prefeitos. Processos de cima para baixo cujos resultados são bastante questionáveis. Um paradigma dessa ideia foi Barcelona, que hoje está revendo essa posição porque se encheu de iniciativas nessa direção que não apresentaram os resultados esperados e afastaram a cidadania dos processos de construção da cidade. Tudo isso posto, eu definiria, portanto, a economia criativa como uma tentativa de ordenar o sistema de produção do capitalismo cognitivo em torno de uma nova bandeira, que seria a de que a criatividade – e não mais a força de produção ou de fabricação – passa para o centro da produção do valor. Quando a gente fala, por exemplo, da composição do preço, e do quanto hoje o design é responsável, por exemplo, pela diferenciação do produto. A economia criativa se ocuparia, nessa abordagem, dos aspectos que buscam ampliar o desejo, da fabricação simbólica de desejo, no processo de produção. Mas há outras abordagens mais otimistas, como a apresentada no livro De Baixo pra Cima, organizado por Eliane Costa e Gabriela Agustini, do qual fui consultor editorial, que pensa a economia criativa como um forma de potencializar experiências e trabalhos criativos periféricos que, de outra forma, estariam sempre à margem dos processos produtivos.

Você foi um dos fundadores da Casa da Cultura Digital e criador do Festival CulturaDigital.Br. Morando agora em Santos, como você avalia o poder público local dentro deste conceito? O que falta para a Cidade se tornar um local criativo?

Santos é uma cidade historicamente criativa. Foi epicentro de muitas experiências artísticas e culturais do país. Onde convivem aspectos fundantes da nossa diversidade cultural. Interessante notar que hoje está muito centrada na cultura do café, mas a história colonial de Santos, pré-café é tão ou mais rica, mas minorizada por não ser a narrativa produzida pelas elites locais. Penso por exemplo no primeiro hacker brasileiro, o padre Bartolomeu de Gusmão, cantado em prosa por José Saramago, ou nas iniciativas ainda no século 19 de trocas culturais ocasionadas pelo porto. No século 20 todo o peso de Santos para a experiência modernista, de Oswald e Pagu. Santos teve por meio século um festival que apresentava o contemporâneo na música mundial para o Brasil. Portanto, é uma cidade de vocação vanguardista. Não precisa fazer nada para ser criativa. Precisa é que a criatividade existente seja valorizada e que aquilo que falta seja buscado em outras localidades. É preciso entender que parte do que Santos se tornou hoje é consequência da ditadura militar e seu projeto estratégico de esvaziar essa dimensão mais contestatória da cidade. Ainda assim, vejo pipocar muita coisa bacana por todos os lados, embora muitos “criativos” de Santos optem por sair da cidade para ganhar a vida. Uma cidade é tão mais criativa quanto mais diferente, mais diversa. A criatividade brota do convívio das diferenças. Essa para mim é uma questão central e não à toa São Paulo explodiu mundialmente como uma cidade com uma das cenas culturais mais vigorosas do mundo. Cidades são feitas de pessoas, em encontros, e acho que o primeiro passo para que Santos possa efetivamente avançar nesse aspecto é a produção, o fortalecimento, desses espaços de encontro e fruição, presenciais e virtuais, que criam as conexões incendiárias que uma cidade necessita para ser criativa. Isso pode ser feito por meio de políticas públicas e sei que a prefeitura está bastante interessada nisso. Para chegar a isso é preciso entender os territórios, se associar às realidades específicas, e começar a trabalhar forte, a produzir encontros, projetos, diálogos, invenções. E garantir que as melhores cabeças da cidade – e outras que podem vir de fora, como é o meu caso – ajam na cidade e não fora dela. Já imaginou como seria São Franciso se os seus jovens e criativos fossem para Los Angeles para criar? Pois é isso. Por fim, quero fazer contigo um exercício de cenário. – Santos é a segunda cidade mais conectada do país, de acordo com pesquisa da FGV; Santos está entre as dez cidades mais digitais do Brasil, de acordo com o Índice Brasil de Cidades Digitais de 2012; Santos é uma cidade que desperta o imaginário de inovação em políticas públicas e também nas artes e humanidades; Santos está a 70 quilômetros do aeroporto de Congonhas e a 100 quilômetros do Aeroporto de Guarulhos, permitindo assim seu fácil acesso nacional e internacional; Santos vive um novo ciclo de investimentos ocasionado pela descoberta de reservas de petróleo em sua baía marinha, e deve aproveitar a energia do século 20 para projetar saídas para o século 21. Que cidade, ou região, porque é preciso pensar Santos como epicentro da Baixada Santista, tem essas condições a seu favor?

Qual a maior dificuldade nesta mudança de conceitos, onde a criatividade aparece em primeiro lugar antes do dinheiro? E como a área digital está inserida nisso? Acredito que muito desta mudança de conceitos surgiu até por conta das inovações tecnológicas, da internet, onde os serviços ganharam novas dimensões e maneiras de divulgação.

A internet é responsável por uma nova etapa da criatividade humana. É um arranjo transformador, porque baseado na ideia de que a inteligência está nas pontas do processo. A somatória entre internet e micro-informática mudou o mundo e nos trouxe até aqui onde estamos. Já vivemos uma fase de muito otimismo com a internet. Hoje já podemos olhar pras coisas com mais equilíbrio e o que me parece é que, sim, há uma economia gigantesca a ser desenvolvida, e muitas coisas bacanas a serem feitas, a partir da internet. Mas como eu dizia, mais que uma economia, há uma cultura digital livre a ser fortalecida e defendida, pois há muita vida, muita vida mesmo, para além do Facebook. No Brasil, somos enormes usuários da rede, mas criamos muito pouco a partir daí, no que se refere a hardwares e softwares. Acho que se alguém, alguma cidade, perceber que poderia de fato fazer uma revolução investindo fortemente, desde as escolas, na criação digital, poderia liderar algo indescritível. Mas ainda não chegou esse momento. Embora seja perceptível o crescimento do interesse dos governantes nessa temática. Mais uma vez, no entanto, é preciso fazer o alerta sobre esse modelo de cima pra baixo vendido pelas corporações de uma cidade criativa ou inteligente. A inteligência de uma cidade ou é produzida por sua cidadania, ou não será efetiva. Nesse sentido, faço parte da rede iberoamericana de inovação cidadã, que tem atuado em todos os países da Ibero-américa difundido nesses conceitos de uma inovação associada às capacidades e interesses da cidadania. Inovar para transformar o mundo em um lugar melhor.

Com a experiência que possui, existem projetos sendo projetados para Santos?

Cheguei em Santos em 2011, vindo de São Paulo, em busca de uma cidade mais aprazível para viver. Em São Paulo, criei e participei da experiência da Casa da Cultura Digital, que foi um laboratório autogestionado com inúmeras iniciativas de cultura digital associadas. Algo que marcou uma época. Eu ainda, em 2011, estava muito vinculado às experiências paulistanas e só passei mesmo a me voltar para tentar fazer algo em Santos em 2012, quando alugamos uma pequena casa da na Ponta da Praia e a chamamos de casa de praia da cultura digital, com a intenção de ser um espaço a mais de trabalho para os amigos de São Paulo e também conectar pessoas em Santos. O que percebi, no entanto, nesse ano, é que a cidade tem demandas diferentes, inclusive no que se refere à essa conexão. Ao longo dos últimos anos, fui me aproximando dos produtores locais, entendendo melhor suas experiências. O que me parece é que há uma pulverização de iniciativas na cidade porque todos estão muito concentrados em conseguir sobreviver, pois não é fácil fazer coisas por aqui – embora isso seja um paradoxo enorme, uma vez que há tanta riqueza ao entorno. Sou muito amigo do Zé Tahan, da Realejo, e acho que poucos lugares no Brasil têm, por exemplo, uma experiência como a dele, que é de uma livraria de rua, que é um espaço cultural que leva a literatura para rua, que é uma editora, que faz eventos e um festival. E, por exemplo, estou quase sempre lá na Realejo, e somos quase sempre as mesmas 20 pessoas a estar ali – o que é ótimo, porque gosto de todas elas – mas não consigo compreender porque se aproveita, se participa tão pouco do que está rolando. Há uma desconexão, por exemplo, com o enorme contingente estudantil que vive na cidade, à margem dos fluxos da cidade. Eu tentei me acercar disso em 2012, quando fizemos uma semana de jornalismo digital no SESC, mas tenho dúvidas sobre o que pensar. Ainda assim, há muita coisa bacana rolando e não tenho dúvidas de que Santos vai se reinventar por meio da cultura. Atualmente, estou trabalhando na criação de uma nova instituição para trabalhar a cultura digital e a inovação cidadã. Provavelmente um laboratório de inovação cidadã. Tenho apoio internacional, financiamento da Fundação Ford para o desenvolvimento do conceito (que está sendo trabalhado num open process no site www.tecnologiasalternativas.org.br) e parceria com o Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado de Cultura. Iniciei uma conversa anos atrás com a prefeitura, por meio do Raul Christiano, estávamos avançando bem, inclusive com chances de usar uma parte da Casa da Frontaria Azulejada para estabelecer esse lab, mas ele acabou saindo. Tenho tido conversas com o Professor Fabião, cuja trajetória passa por temas semelhantes, e mais recentemente conversei com o chefe do gabinete do prefeito, Rogério Santos, que sinalizou para uma possível parceria, mas ainda nada de concreto. Ficamos de falar melhor no meu retorno. Adoraria que esse lab fosse em Santos, acho que faria muito sentido, e seria algo único no Brasil. Para mim, bastaria o espaço, encontrar um espaço físico adequado, porque o resto eu consigo articular. Tenho propostas de outras cidades para fazê-lo, mas ainda não é hora de decidir.

Você está participando em Madri, do MediaLab-Prado, como está sendo a experiência? 

Esse projeto, dessa nova instituição de cultura digital, foi selecionado entre mais de 30 projetos Ibero-americanos, para uma residência no MediaLab Prado, que é um centro de cultura digital e inovação cidadã de Madri que é uma referência para todos que atuam nesse campo. Eu, um argentino de Santa Fé, Dardo Ceballos, e uma uruguaia de Montevidéu, Andrea Apolaro, fomos selecionados para passar duas semanas aqui conhecendo em detalhes a experiência do MediaLab-Prado e para desenvolvermos nossos projetos com apoio deles. Participamos, nos últimos três dias, de um LabMeeting, um encontro desses laboratórios de inovação cidadã de toda Espanha que nos deu uma panorâmica do que está rolando por aqui. Depois vou a Zaragoza, conhecer a experiência de economia criativa do Zaragoza Activa, e a Barcelona, para reuniões e conhecer outros labs de lá. O Brasil é muito respeitado por tudo que já fizemos nesse campo, mas ao mesmo tempo padecemos de uma estrutura mais sólida para trabalhar essas questões. É isso que estou querendo sanar, ou ao menos começar a sanar, com esse novo projeto, que pretende trabalhar a articulação, o fomento, a produção e pesquisa permanente da produção da cultura digital livre no Brasil.

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