Drama

“A gente enxuga gelo e não avança”, relata médico infectologista

Atuando na linha de frente no combate à pandemia, o médico infectologista Evaldo Stanislau defende a continuação do lockdown e revela as formas para sair dele.

30 de março de 2021 - 21:20

Fernando De Maria

Compartilhe

Com leitos lotados, stress e tensão constante, diante do aumento expressivo de casos de Covid-19,  o atual momento vivido pelos profissionais de Saúde é o mesmo de um trabalhador que, após um dia exaustivo de trabalho, chega em casa com a sensação de dever cumprido e ao retornar às atividades  no dia seguinte se depara com o mesmo cenário ‘dantesco’, onde precisa começar tudo do zero novamente.

Sem ver, muitas vezes, avanços em suas atitudes.

E isso ocorre há quase um ano.

 

Emocionado, o médico destacou a difícil missão dos profissionais da saúde e defendeu a extensão do lockdown. Foto: Reprodução

 

“A gente está enxugando gelo. Não avança”, lamenta o médico Evaldo Stanislau, que atua no Hospital das Clínicas, na Capital, integrante da diretoria da Sociedade Paulista de Infectologia e atua no apoio ao comitê de contingenciamento de Santos, no litoral paulista, entre outras colaborações.

No seu currículo, acrescente-se a atuação como professor universitário e mestre e doutor (PhD) pela Faculdade de Medicina de São Paulo – FMUSP, além de ex-vereador santista.

Stanislau participou do Jornal Enfoque – Manhã de Notícias desta terça (30), onde analisou vários aspectos ligados à pandemia.

 

Exaustão

O profissional enfatizou que os profissionais da saúde (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, auxiliares de enfermagem e demais envolvidos no combate ao Covid-19 nos hospitais) vivem um stress contínuo.

 

“Mesmo as pessoas que sobrevivem à doença e saem do hospital  apresentam várias sequelas, como feridas na pele e dificuldades para falar. Elas nos lembram, vagamente, o que é um ser humano”, disse, emocionado, ao relatar o cenário que tem encontrado nos hospitais neste longo período de atuação no combate ao Covid-19.

Por isso, ele refuta aqueles que defendem a retomada das atividades econômicas e acham que o problema se limita apenas à abertura de leitos.

“Não estamos dando conta fisicamente. Ou se interrompe (o ciclo da doença) ou não sei onde vamos parar”, alerta.

Afinal, após um ano, a Covid-19 ainda é um mistério para a humanidade sob vários aspectos.

A única certeza é que a convivência com a morte é latente e frequente.

Que o digam os profissionais que estão na linha de frente, como Evaldo.

 

Gráfico elaborado pelo estudo realizado por médicos a respeito das internações de pacientes Covid-19

 

Pesquisa

Os números reforçam este triste cenário.

Pesquisa realizada pelo médico infectologista Otavio Ranzani, ex-aluno de  Stanislau, e outros pesquisadores  revela uma triste constatação: 37% dos internados por Covid-19 acabam morrendo da doença.

E 53% dos que são encaminhados à UTI têm o mesmo destino.

Pior: quase 80% dos que ficam entubados perdem a guerra para a Covid.

O post do médico no Twitter sobre a pesquisa feita com quase 255 mil pacientes internados no Brasil e publicada na conceituada The Lancet  traz um retrato fiel ao cenário identificado entre fevereiro e agosto do ano passado – sem ainda contar com a circulação das cepas mais agressivas.

E os números são preocupantes.

A idade média dos internados é de 60 anos, sendo que 1/3 tem menos de 50 anos.

Quatro em cada dez vão para UTI e 23% precisam de ventilação mecânica invasiva.

 

Medicamentos

Stanislau salientou que ao contrário do que outros profissionais que insistem em recomendar medicamentos como a Ivermectina e Cloroquina aos pacientes, passado um ano da doença, já se sabe dos riscos presentes nestes remédios.

“No início, estes medicamentos ainda poderiam ser aceitos, pois tudo era novo em relação à doença. Passado um ano, sabe-se que eles trazem mais riscos que benefícios, como problemas no coração e no fígado”, alerta.

Ele salienta que mesmo aquelas pessoas que puderam receber os medicamentos mais modernos e serem internadas nos hospitais de alto padrão tiveram o mesmo destino.

“Esta doença atinge a todos, de todas as classes. E ainda existem muitas dúvidas sobre ela”, salienta.

 

Lockdown

Favorável ao lockdown e um dos defensores da medida, o médico reconhece que a iniciativa deve vir junto com um pacote de medidas de apoio à população, como auxílios financeiros, especialmente à população mais carente, e apoio aos pequenos e médios comerciantes.

“Hoje a meta é salvar vidas. O Brasil está aprisionado pela Covid. Ou a enfrenta ou a enfrenta. Não tem alternativa”, salientou, destacando que o País se tornou o centro das atenções no mundo em razão da velocidade de contaminados e mortes pelo Covid-19 nas últimas semanas, sem perspectivas de mudanças em razão dos problemas sociais, ausência de isolamento em vários locais e morosidade na vacinação.

No entanto, ele reconhece que o lockdown na Baixada Santista é o único remédio para dar fôlego ao atendimento hospitalar.

Coincidência ou não, a Prefeitura de Santos divulgou um vídeo na noite de hoje, após uma semana do lockdown, onde traz sinais que o mesmo deverá será prorrogado.

 

E defende, aliás, a expansão do prazo do mesmo. Inicialmente, a data é que ele se encerre no domingo, dia 4.

No entanto, há uma tendência dos prefeitos da Baixada Santista o estenderem até, pelo menos, dia 11, acompanhando a fase emergencial implantada pelo Governo do Estado.

Uma reunião será realizada até o final da semana para definir o que será feito.

“O lockdown precisa ser estendido. E este não será o primeiro. Se sairmos dele e voltar como era antes, entraremos em outro lockdown. Sem as vacinas, vamos ter vários lockdowns seguidos”, salientou.

 

Testagem maciça

Ele salienta a forma como a sociedade poderá sair do lockdown, com testagem maciça para identificar quem está contaminado ou não. “Assim, é possível saber quem está transmitido ou não a doença e isolar esta pessoa”, salienta.

O médico ficou encarregado de fazer um plano sobre os testes a serem adotados para a fase do pós-lockdown na Baixada Santista.

Na entrevista, o médico também falou sobre vacinas, novas cepas, novo ministro da Saúde, e o trabalho realizado pelo Município.

Ex-vereador de linha ideológica oposta (pertenceu ao PT, PDT e Rede) ao PSDB, partido que governa a Cidade, o profissional reconheceu o trabalho desenvolvido pelo prefeito Rogério Santos e pelo secretário Adriano Catapreta, digno de elogios.

“Fica o meu reconhecimento por tudo que eles estão enfrentando”.

Confira a entrevista completa