Fortes ressacas evidenciam a necessidade de medidas contra erosão nas praias | Boqnews
Foto: Thalles Galvão

Santos

26 DE JUNHO DE 2015

Fortes ressacas evidenciam a necessidade de medidas contra erosão nas praias

A erosão já alterou a paisagem da Ponta da Praia e Aparecida com força das marés; Ações antrópicas potencializaram o fenômeno

Por: Thalles Galvão

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praiaerosao1Na semana passada, as praias da Ponta da Praia e Aparecida amanheceram em um cenário de caos. Raízes de árvores, tubulações e fios da iluminação ficaram expostos depois de uma grande parte da areia ser levada pelo mar. Em alguns pontos, o desnivelamento ultrapassou os 50 cm. A forte ressaca que atingiu a costa reforçou um problema que já não vem de hoje. É fato que há algum tempo a faixa de areia da Ponta da Praia e Aparecida vem diminuindo de tamanho ao passo que as do Gonzaga e Pompeia vêm aumentando. Isso sem falar na Praia do Goes, em Guarujá, que também sofre com as ressacas.

A coordenadora do curso de Oceanografia do Centro Universitário Monte Serrat (Unimonte), Maria Fernanda Palanch Hans, explica que o que ocorre naquela região é uma faixa de areia que está sendo transportada da Ponta da Praia e Aparecida para Gonzaga e Pompeia por conta das correntes marítimas.

Contudo, a oceanógrafa e pesquisadora em erosão e sedimentação costeira e marinha, Mariângela Oliveira de Barros, ressalta que esse processo foi acentuado por alguns fatores, entre eles a dragagem (escavação do fundo do mar) no canal de navegação do Porto para a movimentação dos navios. “Aumentando a profundidade do canal, a velocidade do fluxo da água é intensificada”.

Para Maria Fernanda, a dragagem não é o único motivo para os problemas de erosão.  “Qualquer centímetro que aumentamos no canal interfere na dinâmica de ondas, mas ainda não sabemos o tamanho da parcela de culpa da dragagem. Precisamos de um estudo para descobrir”. As construções do Emissário Submarino e da avenida à beira-mar sobre a própria praia também podem ter influenciado na criação da erosão, segundo ela.quadroerosao

O professor da Universidade Santa Cecília (Unisanta) e ex-perito ambiental do Ministério Público, Élio Lopes, lembra que a dragagem sempre existiu. “O que temos agora é uma dragagem de aprofundamento e alargamento do canal. Antigamente, o procedimento era para manter os 12 metros de profundidade. Agora, fazem dragagem para aumentar para 15 metros e querem chegar a 17 metros”. Segundo ele, o impacto já deveria ser conhecido e estar presente no EIA – Rima (Relatório de Impacto Ambiental) da dragagem.

Em nota, a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp) — responsável pela administração do Porto — diz que já realiza um monitoramento do perfil praial de Santos desde 2010. Os resultados são compilados e encaminhados semestralmente para a avaliação do IBAMA.

Força das ondas
Ressacas fazem parte do cotidiano das cidades litorâneas. Todos os anos ocorrem algumas. A natural elevação da maré — sobretudo nas fases cheia e nova da lua — e a entrada de frentes frias vindas do sul são a combinação para uma ressaca.

Mariangela esclarece que a força das ondas tem relação com a direção da nossa baía. Voltada para o sul, ela é a primeira a receber as frentes frias. “Como estamos no fundo de uma baía, tínhamos uma proteção natural. A onda batia  e vinha perdendo a força.

Agora, ela não é mais amortecida totalmente porque o fundo não está mais raso, pelo contrário, está mais profundo por causa da dragagem. As ondas incidem próximo da praia com energia acumulada. E aí ocorre a erosão”.

O pesquisador e oceanógrafo físico, Marcos Tonelli, afirma que a maior frequência de frentes frias e a elevação global do nível do mar tem como principal motivo as mudanças climáticas. “O que vem acontecendo é o que chamamos de expansão térmica. A água esquenta e seu volume aumenta. Se o planeta está esquentando, o oceano esquenta junto. Calor é energia. Esses eventos de ressacas são modos de dissipar  essa energia”, explica.

Providências
De acordo com Tonelli, uma medida emergencial que iria ajudar seria o engordamento da praia, isto é, levar areia de uma região e jogar em outra. Nos últimos dias, a Prefeitura tem feito um trabalho de reposição.

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Com o intuito de sensibilizar as autoridades sobre o tema, o grupo MARÉ — Movimento de Apoio na Restauração da Erosão da Ponta da Praia em conjunto com o Clube da Ponta Futebol de Praia reuniu mais de 3 mil assinaturas cobrando providências. O documento já foi entregue ao Ministério Público Federal e Estadual. “Todo desenvolvimento tem um preço. Queremos que o porto se desenvolva desde que  seja feito de maneira responsável”, diz Orlando Parra, membro do MARÉ e presidente do Clube da Ponta.

Para o professor Elio Lopes, mais do que encontrar culpados, o momento é de se fazer intervenções  emergenciais. “Não está na hora de se fazer estudo para saber o que está acontecendo, saber de quem é a culpa. Agora é hora de pesquisar para saber qual a medida de contenção a ser feita. Caso contrário daqui a dez anos ainda estaremos estudando enquanto a praia vai desaparecendo”.

O especialista lembra também que ocorreram consequências econômicas, principalmente no âmbito turístico. “Uma economia não pode prejudicar a outra. Não sou contra a dragagem. E sim contra a omissão das autoridades que não tomam providências”.

praiaerosao3Em busca de recursos
O prefeito Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) determinou que a Secretaria de Desenvolvimento Urbano contratasse uma empresa que terá a obrigação de compilar o material acadêmico existente sobre o tema e completar estudos, caso seja necessário, de modo que seja oferecida uma ação emergencial 45 dias após a assinatura do contrato. Feito isso, a empresa precisa apresentar uma alternativa em definitivo em até 180 dias.

O estágio atual é a fase de obtenção de recursos para o estudo, orçado em R$ 1,1 milhão. Entre as alternativas propostas por especialistas está a construção de uma estrutura de contenção, como existe em outros portos ao redor do planeta.

Para definir a melhor opção, o secretário de desenvolvimento urbano Nelson Gonçalves diz que  “é necessário que o estudo seja de uma equipe plural, capacitada, com conhecimento na área. Nesse processo, certamente, irão aparecer os culpados. Estou preocupado em achar uma solução. Enquanto isso, continuaremos o trabalho de recuperar o sedimento”, finaliza. Os trabalhos, portanto, prosseguem.

NPH
Antes da última grande ressaca, o Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas da Universidade Santa Cecília (NPH) já havia previsto a força das ondas que chegariam à costa. A avaliação é feita pelo software Aquasafe, um programa para receber e processar dados meteorológicos e oceanográficos.nphsoftware

O biólogo e pesquisador do NPH, Renan Ribeiro, explica que as informações executadas em tempo real são possíveis graças a um convênio com a Praticagem de São Paulo e em contrapartida são oferecidas as previsões de ondas e marés para os próximos sete dias. “Os dados oferecidos pela Praticagem permitem um alto grau de confiabilidade do software, em torno de 90%”.

O mesmo programa foi instalado no mês passado no Laboratório Ambiental da Prefeitura de Santos e em breve também será disponibilizado à Defesa Civil. O objetivo do projeto é a antecipação da ocorrência de ressacas e evoluir o sistema para a previsão de alterações na qualidade das águas da região futuramente. “Além de criar um banco de dados de balneabilidade, queremos simular e trazer prognósticos”.

Nível do mar
Antes da implantação do Aquasafe, o NPH produziu um estudo inédito que mostrava três cenários da possível invasão do mar na orla e ruas de Santos com base na expectativa de elevação do nível do mar à época. Coordenado pelo engenheiro e professor Gilberto Barzin, o levantamento levou em consideração os possíveis efeitos provocados pela elevação do nível do mar em 0,5; 1,0 e 1,5 metros.

Observou-se que só com um aumento de 0,50 m, em períodos de marés mais altas, a faixa da praia ficaria encoberta pela água, e algumas pequenas áreas da Ponta da Praia seriam alagadas. Com mais 1,0 m, constatou-se que toda a faixa da areia da praia e grande partes dos jardins seriam alagados a cada maré mais alta. Se chegasse a 1,50 m, será o caos total na urbanização da Cidade.

“A estimativa foi feita com base em prognósticos anteriores. Hoje não temos qualquer estudo preciso como esse atualizado. O que sabemos é que existe uma tendência do aumento do nível do mar em torno de 0,5 m até 2100”, explica Renan.

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