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Instinto selvagem

Dois lados de uma mesma moeda pautam as torcidas organizadas no Brasil. De um lado, as festas que seus membros…

12 de junho de 2009 - 19:12

Da Redação

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Dois lados de uma mesma moeda pautam as torcidas organizadas no Brasil. De um lado, as festas que seus membros promovem, com bandeiras e movimentos manuais que contagiam ao menor interessado no jogo em questão, com cânticos entoando as vitórias do time e incentivando os atletas. Na outra ponta, estão os conflitos com torcedores de organizadas adversárias, cada vez menos ocasionais e mais premeditados, incluindo emboscadas para agressão, por vezes, de inocentes, além de cantorias, prometendo “matar” o adversário, e dizendo que “não têm medo do pau”. É justamente essa situação que mais tem se evidenciado nos estádios e fora deles.



Nas últimas semanas, dois casos, sendo um deles na região, chamaram a atenção. No dia 31 de maio, membros da Torcida Jovem do Santos entraram em conflito com torcedores do Corinthians que deixaram os carros estacionados em um hipermercado da Cidade, depois da vitória santista sobre o rival por 3 a 1, no Campeonato Brasileiro. Três dias depois, antes do jogo entre o time paulistano e o Vasco pela semifinal da Copa do Brasil, uma briga entre torcedores organizados de ambos os clubes resultou na morte de um torcedor corintiano.




A briga em Santos resultou na prisão de 112 pessoas, cujo Boletim de Ocorrência (BO), enquadrou o caso como delito de menor potencial ofensivo. Segundo o coronel do 6º Batalhão de Polícia Militar do Interior (6º BPM-I), Armando Bezerra Leite, todos os santistas envolvidos portavam carteirinhas de associados da Torcida Jovem.

O diretor da Torcida, Eduardo Romanini, isentou a agremiação, afirmando que a ação contra os corintianos no hipermercado não partiu da direção. “A torcida fez, como sempre, o papel de incentivar o Santos, e depois do jogo, o pessoal foi embora. Às vezes, infelizmente, acaba acontecendo algo assim, pois há muitos torcedores e alguns acabam se metendo nessas brigas. Estamos aguardando um parecer da Federação (Paulista de Futebol) para que o Conselho possa estabelecer a punição aos envolvidos”, declara.

Diretor de Torcidas e Associados do Santos, Carlos Manoel da Silva, por sua vez, critica a ação, mas alega que houve precedente. “Com a vitória no primeiro jogo da decisão do Paulista, os corintianos fizeram uma arruaça no hipermercado, satirizando o clube, a Cidade e os moradores. Isso acabou não caindo bem para os santistas, pois estavam fazendo isso no Município deles”, relembra, apesar de Bezerra Leite não concordar com essa tese: “Mais da metade dos torcedores do Peixe envolvidos pertenciam à sede da Torcida Jovem na Capital, com suas devidas carteirinhas”, rebate.

Versões e opiniões à parte, o fato é que tais casos reacenderam as discussões sobre a existência e participação da torcidas organizadas no âmbito não apenas do futebol, mas da sociedade, de forma geral. E uma das grandes implicações para que tais ocorrências prossigam é a impunidade, como admite Bezerra Leite, do 6º BPM/I.

“Além do anonimato, a lei acaba sendo muito branda. Enquadrar esses casos como delitos de menor  potencial ofensivo, conforme a Lei 9.099, de 1995, é pouco. Muitas dessas brigas são planejadas, o que as tornaria evidenciadas como formação de quadrilha, seguindo o Artigo 288 do Código Penal, mas que não é utilizado. Não precisamos fazer uma nova lei, mas saber usar a que temos”, considera.  “O cara faz e não é punido como deveria, então ele volta a agir”, conclui o coronel.

Organização
Algumas ações envolvendo torcidas, clubes e Polícia Militar são feitas para limitar os danos, como encontros promovidos pela Federação Paulista de Futebol uma semana antes dos clássicos, para definir a melhor maneira de se promover a segurança, dentro e fora de campo. A reunião envolve, ainda, membros da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) e, quando o jogo é na Capital, do metrô e do sistema ferroviário. Ainda assim, de acordo com o diretor de Torcida e Associados do Santos, o consenso é relativo.

“A gente tenta dar ideias até pelo conhecimento que temos sobre jogo e torcida, com mais de 30 anos de futebol. Já sugerimos, por exemplo, que o tobogã do Pacaembu (onde fica a torcida visitante) deveria ter uma proteção lateral alta, com impossibilidade de visão para as arquibancadas ao lado, e construída com polietileno, para evitar o lançamento de bombas e provocações. O problema é que há pessoas que não são da área e querem se meter na organização. Falta ouvir mais quem está no meio e pode dar soluções”, critica.

Fora dos estádios
Por um lado, de fato, vêem-se menos incidentes dentro do estádio hoje em dia do que fora deles no Brasil. Conforme Manoel da Silva, quem vem de outra cidade para a Vila Belmiro passa por todo um processo de averiguação. “Antes de saírem de onde moram, eles já são revistados pela polícia e escoltados até Santos. Aqui, são novamente vistoriados e recebem nova escolta até o estádio, onde recebem uma última revista antes de ir para o campo. Posso dizer até que o Santos se tornou referência nacional e internacional na segurança interna de torcedores visitantes”, enaltece.

Por outro, o lado externo é onde mora o perigo, como se evidenciou no caso do hipermercado. Bezerra Leite explica que há um esquema de acompanhamento dos visitantes, que é traçado diretamente com os torcedores que os contatam na semana dos confrontos. “O acompanhamento acaba acontecendo, primordialmente, com os torcedores visitantes, por serem os mais vulneráveis. No entanto, os corintianos que foram atacados não haviam solicitado a escolta, embora, na volta deles, tivéssemos programado uma proteção. Não era costume acompanhar os torcedores santistas de fora, mas passaremos a monitorar a saída deles daqui para frente. Não estava previsto algo como o que ocorreu. Foi uma surpresa”, admite.

Soluções
O que fazer, então, para o futuro não reservar mais estragos, especialmente porque, em cinco anos, o Brasil receberá uma Copa do Mundo e Santos está na luta para ser selecionada para sediar uma seleção que disputará o Mundial? Por hora, as ideias são paliativas. Destacam-se nessa história a defesa da torcida única, como ocorre, por exemplo, na Argentina, em clássicos mais acirrados, e o incentivo à política de sócio-torcedores, algo em evidência no Rio Grande do Sul.
“O Internacional é um exemplo, tendo mais sócio-torcedores do que a capacidade do Beira Rio. É uma consequência natural do futebol atual, e o Santos também tem caminhado para isso. As subsedes dos clubes espalhadas pelo País podem colaborar. É o perfil futuro do futebol e tende a ser uma solução para esses problemas”, conclui o coronel do 6º BPM-I.


Pm pede “extinção” da Torcida Jovem


Uma padronização de casos envolvendo torcidas organizadas junto a uma legislação mais firme estão entre os pedidos do (6º BPM-I) , que incluem, ainda, a não-confecção de uma segunda via da carteirinha — apreendida pela PM – e a extinção da Torcida Jovem. Os requerimentos foram encaminhados à Promotoria e estão sob aguardo de resposta judicial. Um novo combate ao fim das organizadas à vista?

O coronel do 6º BPM-I, Armando Bezerra Leite, reconhece que pedir a extinção da Torcida Jovem ou de qualquer torcida é um mero paliativo, embora creia que possa ser um sinal de que a questão está em discussão. “Não se resolverá isso de uma hora para outra.

O fim de uma torcida resolve por um tempo, mas depois surgirá outra, com os mesmos membros. Além disso, para os clubes também é importante que elas existam, pois elas colocam gente no estádio. Até por isso, ganham certos privilégios”, reflete.

Eduardo Romanini, diretor da Torcida Jovem, por sua vez, defende a permanência das torcidas pela manutenção da festa. “As torcidas são as que conseguem fazer as belas comemorações nos estádios. Não se pode extinguir isso. O que não pode existir é quem não tem entidade e diz que é torcedor da organizada. A gente torce para que os órgãos públicos olhem para o nosso lado também, e nos permitam participar da discussão, com bom senso. Quem cuida disso, só mostra o lado ruim, mas esquece que as torcidas também fazem coisas boas”, ressalta.
De fato, há ações sociais organizadas por torcidas como a Jovem, responsável, por exemplo, por projetos de doação de roupas e mantimentos durante a Páscoa, Dia das Crianças, Natal e, principalmente, Dia de Cosme e Damião.


Violência também é praticada no exterior


Evitar casos como os ocorridos nas últimas semanas é uma tarefa árdua, até porque isso não é uma realidade do Brasil, mas também internacional. Por vezes, episódios como esses ficam marcados de tal forma que criam, inclusive, estereótipos de que determinada torcida é violenta, racista ou recheada de marginais.




No Rio Grande do Sul, por exemplo, nos últimos anos, a rivalidade entre Grêmio e Internacional se acirrou de forma, por vezes, crítica, a ponto de, no Brasileirão de 2006, torcedores do Tricolor terem ateado fogo em banheiros químicos do Beira Rio, em episódio que causou revolta nacional. A alegação era que, meses antes, os colorados haviam destruído os banheiros do estádio Olímpico, em partida onde Grêmio era o mandante.

Fora do Brasil, há casos históricos, como a acirrada birra entre Boca Juniors e River Plate, na Argentina. As costumeiras brigas entre os rivais de Buenos Aires, que já resultaram — e ainda resultam — em emboscadas e mortes no país vizinho fizeram com que se decidisse que, no confronto entre os dois times, somente o da casa poderia estar com a torcida no estádio. Tal atitude ainda é mantida.

Na Europa, os casos são tão comuns quanto por aqui, por vezes, até mais. O mais famoso envolveu torcedores do inglês Liverpool e da italiana Juventus, em 1985, na decisão da Copa dos Campeões. Na época, 39 torcedores, em sua maioria, da Vecchia Signora, foram mortos após tumulto provocado por simpatizantes dos Reds. O caso fez com que os clubes ingleses fossem banidos de competições européias, e clarificou o boom dos hooligans no futebol britânico.

Recentemente, a ascensão de Catania e Palermo na Série A italiana evidenciou a imensa rivalidade entre os dois times. Em 2007, por exemplo, um policial morreu durante o embate entre as torcidas organizadas – denominadas “ultras” – das equipes. O fato paralisou o futebol local por duas rodadas.

Há, ainda,  rivalidades culturais e sociais, como as ques envolvem os católicos do Celtic e os protestantes do Rangers, na Escócia, ou a tradicional briga entre simpatizantes do Estrela Vermelha, da Sérvia, com equipes de origem croata, que muito pautou os anos de Slobodan Milosevic no comando da antiga Iugoslávia.

Muitos dos grandes atentados e mortes ocorridos em estádios sérvios, na ocasião, ocorreram pelo “bom relacionamento” de Milosevic com o líder dos Ultra Bad Boys, torcedores organizados do Estrela, Arkan, e que serviam para mostrar a força sérvia perante os vizinhos dos balcãs.


 

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