Foto: Divulgação Aids

15 a 19 anos

28 DE SETEMBRO DE 2018

Cresce participação de jovens infectados com o vírus da Aids em Santos

Em média, um novo caso de Aids é registrado em Santos a cada dois dias. A preocupação agora incide entre jovens de 15 a 19 anos

Por: Felipe Rey

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“Eu fiquei da finura de um palito de fósforo”. O relato dado por José (nome fictício) sobre o estado de saúde em que se encontrava, enquanto o vírus da Aids se alastrava pelo corpo pode ser comparado a alguns casos de celebridades que também morreram devido à doença.

José descobriu que era portador aos 35 anos. Era usuário de drogas desde os 14 anos.

“Usei todos os tipos. Fui do cigarro ao crack. No entanto, não usei injetáveis”, relata.

Além disso, José também se relaciona com outros homens. Após receber o prontuário médico com o diagnóstico, José percebeu que estava morrendo.

“Fiquei todo estourado. Estava com HIV, sífilis, hepatite c herpes zóster. Ainda descobri o transtorno psiquiátrico devido ao uso de drogas”, disse.

Ao descobrir que acabara de virar portador, ele relembra o choque sofrido.

O suicídio foi uma das opções levantadas na época. “Depois que eu peguei o resultado médico, a primeira coisa que veio à minha cabeça era a morte. Eu já estava começando a falar sozinho, pensava que era o fim”, afirmou.

Desde o nascimento

Já Renata (nome fictício), 24 anos, é portadora do vírus desde que nasceu.

“O meu pai passou para minha mãe, que passou para mim”, diz.

A catarinense declara não sentir raiva da mãe por transmitir o vírus. No entanto, relata que quando frequentava os grupos de apoio à AIDS, ela vivenciou muitos discursos de ódio.

“Eles não reagiram muito bem. Havia inúmeros casos de revolta contra os pais”, relembra a caçula da família.

Dos grupos frequentados, alguns amigos não sobreviveram. Por outro, uma das suas amigas permanece viva, mas desistiu de utilizar a medicação.

Renata afirmou sofrer preconceito das cinco irmãs, todas sem a doença. Mesmo elas sabendo da soropositividade, a jovem salienta que nenhuma delas se colocava no lugar dela para saber como estava se sentindo.

No entanto, o preconceito não a impediu de seguir adiante. Hoje, ela é noiva e mãe de um menino.

Contudo, mesmo sendo portadora, tomou todos os cuidados para que o filho não tivesse Aids, o que ocorreu.

“Quando contei ao meu marido, ele me aceitou do jeito que eu era”.

Outros personagens

“Fui ver se tinha algum problema. Descobri que sim”. O relato sincero de Maria, também portadora, mostra que não apenas por meio de relações sexuais ou de forma vertical (mãe para filho) pode se contrair o vírus.

Usuária de droga há mais de 20 anos, Maria relata que apenas a mãe e irmãs sabem da doença. “Tenho dois irmãos que também tem. Então foi mais tranquilo”, salientou.

Maria relembra que devido a vergonha preferiu se tratar em Guarujá. Mas após um período que ela considera ‘difícil’, resolveu começar o tratamento em Santos. “Resolvi encarar todo mundo”, disse.

No entanto, ao ser perguntada os motivos pelos quais ela realiza o tratamento, Maria sempre mente para não sofrer preconceito. “Eu sempre falo que estou me cuidando da tuberculose.

Não falo que tenho HIV devido a discriminação”, explicou.

Em relação ao preconceito sofrido, mesmo que de forma indireta, Maria disse que a própria comadre fala mal das pessoas soropositivas. “Já ouvi relatos de pessoas que não deixaram a filha beber água na casa do portador”.

Entretanto, mesmo tentando mostrar como acontece a contaminação, as pessoas continuam evitando os portadores. Para ela, tudo isso é culpa da desinformação.

“Sempre falo que há doenças piores como o câncer ou a diabetes. Mas não existe respeito”, relatou.

Recente

O caso mais recente entre todos foi de Joaquim (também nome fictício), que descobriu a soropositividade em janeiro passado. Ele acabou se contaminado após se relacionar com uma mulher.

No entanto, a saúde fragilizada parece não ter afetado Joaquim. Segundo ele, o choque ao descobrir o vírus foi difícil, porém, atualmente, já faz parte da rotina.

“Dou graças a Deus que minha família é unida e estamos superando”, disse.

No entanto, ele relata que os familiares mais distantes não sabem sobre a doença. Além disso, Joaquim agradece aos amigos por não afastá-los da vida deles.

Contudo, ele relembra que ao frequentar o GAPA não se recorda da doença.

“Eu só lembro que preciso tomar o remédio. Já incorporou na minha rotina, então está tudo bem”, finaliza.

Arte: Mala

Casos em Santos

Em Santos, dados da Secretaria de Saúde informam que os números têm caído nos últimos anos, mas crescido entre os jovens, especialmente na faixa dos 15 aos 19 anos. Em 2016, eles representavam 1,5% do total de pessoas infectadas. No ano passado, 4,7% do total.

E até o primeiro semestre deste ano, 8,4%, ou seja, 6 dos 71 novos casos.

Assim, para auxiliar na assistência de jovens diagnosticados com HIV, a Seção de Atenção Especializada (SAE) – Criança e Adolescente ampliará sua faixa de atendimento de 0 a 18 anos até 21 anos de idade.

Voltados ao auxílio do público mais jovem, o programa Santos Jovem Doutor ganha destaque.

A iniciativa é voltada para alunos de 16 escolas da rede municipal, dos 8º e 9º anos do Ensino Fundamental.

Munícipes que querem fazer o exame de HIV podem realizá-lo na policlínica de referência de seu bairro, na ocasião da consulta médica.

Também podem ir direto ao Centro de Testagem e Aconselhamento (Rua Silva Jardim, 94), onde recebem orientações e são submetidos a exames, entre eles o teste rápido, com resultado em 30 minutos, segundo a secretaria.

Ainda para melhorar o entendimento sobre o assunto são desenvolvidas nas escolas ações de prevenção da saúde com os estudantes por meio da utilização de recursos de computação gráfica, imagens tridimensionais do corpo humano, entre outras ações, segundo a secretaria.

Boletim atualizado

De acordo com o boletim epidemiológico de 2017, estima-se que 830 mil pessoas vivam com o HIV no País.

Ainda no boletim, a taxa de detecção de casos de AIDS é em torno de 18,5 casos a cada 100 mil habitantes em 2016.

O Brasil apresentou, em 2016, queda de 5,2% dos casos de taxa de detecção de AIDS em relação a 2015, com 18,5 registros para cada grupo de 100 mil habitantes em relação a 2015 (19,5 casos).

Já a mortalidade apresenta redução desde 2014, passando de 5,7 óbitos por 100 mil habitantes em 2014 para 5,2 casos, em 2016.

Por outro lado, a doença cresceu entre homens que fazem sexo com homens, mudando o perfil, nos últimos 10 anos, quando a proporção maior de caso era de heterossexuais.

 

Taxa de parceiros que utilizam camisinhas também reduziu. Foto: Divulgação

 

Na comparação a 2006, observou o aumento de 33% nos casos de transmissão de homens que fazem sexo com homens.

A Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas indica queda no uso regular do preservativo entre os que têm de 15 a 24 anos, tanto com parceiros eventuais – de 58,4% em 2004 para 56,6%, em 2013 – como com parceiros fixos – queda de 38,8% em 2004 para 34,2% em 2013.

Portanto, sinal de alerta para esta faixa etária.

 

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