Livros são o companheiro diário de morador de rua
por Ivan De Stefano (*)
Douglas Damião Gomes, 22 anos, utiliza a leitura como forma de adquirir conhecimento e fugir da realidade das ruas das cidades. Morador de rua há 12 anos, adotou os livros como seus companheiros diários há dois anos e considera a leitura como um tipo de relaxamento à mente, um tempo para refletir.
Douglas largou os estudos aos dez anos, época na qual cursava a 4ª série, para ajudar a avó doente. Passou a trabalhar como vendedor ambulante de transporte coletivo, porém, após o falecimento da avó, foi morar nas ruas. Ex-morador de São Paulo, já passou por vários estados à procura de oportunidades de emprego e melhor qualidade de vida. Dentre eles, Minas Gerais, Rio de Janeiro e grande parte das praias do Litoral Norte.
Agora, Douglas diz aprender graças aos livros, dedicando parte do seu dia à leitura, enquanto caminha pelas areias de Santos. “Não custa nada tirar meia hora do seu dia para aprender”, completa.
Entre os títulos lidos, ele diz gostar muito daqueles que mostram a realidade. Estação Carandiru, escrito pelo médico Drauzio Varella, foi um dos livros citados por Douglas como um de seus prediletos. “A obra conta os fatos como eles realmente ocorreram, diferente do filme que usa uma imagem mais teatral da história”. Outra obra literária citada foi O Código da Vinci, do escritor americano Dan Brown, livro no qual retirou emprestado da biblioteca municipal de São Paulo, na época em que morava na Capital. “Sempre pegava livros de lá, sem nenhum preconceito por parte dos funcionários”, revela.
Livros de matemática e de Yoga também são da preferência de Douglas, que diz entender boa parte daquilo que lê, apesar da pouca escolaridade. “Até têm palavras que eu não entendo. Essas, eu vou guardando comigo e montando um quebra-cabeça para entender o que eles explicam”, relata.
Dos livros lidos, boa parte foi encontrada nos lixos das cidades pelas quais passou ou foram adquiridos em bibliotecas municipais. “O lixo de Santos é rico”, diz o morador de rua, que revelou já ter encontrado relógios, pulseiras de ouro, óculos e cadernos novos pelos lixos da Cidade.
Douglas diz que são poucos moradores de rua que leem. Segundo ele, a maioria passa boa parte do dia conversando entre eles e “gostam mais é de um futebol”, quando os banhistas emprestam a bola ou os convidam para participar do jogo.
Douglas revela também ser leitor de jornais, apesar de não ser com tanta freqüência. Para ele, o jornal é importante por relatar o dia-a-dia, alertando a população sobre os investimentos da prefeitura, dos acidentes ocorridos no trânsito e da violência.
Apesar da intimidade com os livros, ele nunca foi ao cinema. “Nem imagino como seja”, diz o morador de rua. Como todo ser humano, espera conseguir sucesso pessoal e profissional e sonha em cursar uma faculdade de Arqueologia. “Esta profissão me atrai bastante. Ela mexe com muitas relíquias perdidas há milhares de anos”, completa.
“A sociedade é preconceituosa”
por Michael Gil (*)
De acordo com Douglas Damião Gomes, a sociedade trata de forma preconceituosa os moradores de rua.
Para ele, somente 30% da sociedade trata bem pessoas que moram nas ruas. Isso aparece nas reações que ele sofre quando pede esmolas. “Já chegaram a cuspir na minha cara. Pensam que têm ‘um rei na barriga’”, diz, demonstrando em sua face a tristeza pela situação.
Outro problema que o rapaz aponta é o desperdício de alimentos que ocorre em Santos. Ele explica que é costumeiro ver restaurantes jogando sacos de comida no lixo, o que se torna motivo de desaprovação para o morador de rua.
“Às vezes, passo quatro ou cinco dias sem comer arroz e feijão, comendo somente pão. Sinto falta de comer melhor”, ressalta.
A saúde de quem vive a mesma situação de Douglas também é afetada pelo comportamento social em relação àqueles que vivem nas ruas. Ele afirma que “os hospitais tratam mal os pedintes que sofrem alguma lesão ou estão doentes, deixando de lado estas pessoas”.
Mais uma dificuldade aos moradores de rua, que o rapaz coloca, é o medo de dormir, pois cada noite é passada sem a certeza de que verão um novo amanhecer. Um exemplo disso acontece em São Paulo. Douglas Damião confidencia que conheceu pessoas que passavam as noites embaixo de marquises e que foram assassinadas enquanto dormiam.
O morador de rua, por fim, analisou a sociedade como um todo e seu comportamento com pessoas que enfrentam os mesmos problemas que ele: “Diria para a sociedade pensar mais na população de rua, porque após a morte, não vão levar nada para o caixão. Coisas materiais ficam”, pondera.
OPINIÃO
Livros: o escape da vida real
por Michael Gil e Ivan De Stefano (*)
O que se espera de um morador de rua? Muitos têm medo, outros os tratam com indiferença. Com certeza, poucas são as pessoas que acreditam que tais indivíduos pensem em adquirir cultura, ler livros e sonhar em ter profissões ocupadas por pessoas mais “elitizadas”.
Contudo, essa não é a realidade de Douglas Damião, 22 anos. Morador de rua desde os seus 10 anos, cursou apenas a quarta série do Ensino Fundamental. Atualmente, anda pelas praias de Santos lendo seus livros encontrados nos lixos, para passar o tempo, adquirir conhecimento e, principalmente, relaxar. O que ele gosta de ler: livros que retratem a realidade, em decorrência de sua própria situação social.
Qual é a razão para buscar na leitura o escape? Não fazer tudo aquilo que ele chama de “coisas erradas”, como o uso de drogas e álcool, comum entre a população de rua.
Apesar de ter na leitura um prazer, Douglas precisou largar a escola ainda jovem para ajudar sua avó, que tinha problemas de saúde. Diferente daquilo que se esperaria, ele vem de família classe média alta, sendo que sua mãe é psicóloga e sua irmã, veterinária. Também tem um irmão portador de Síndrome de Down.
Desde o momento que saiu de casa não procurou ajuda da sua família. Ele relembra de seus parentes com tristeza, citando a razão do porquê deste sentimento: “Fui jogado no lixo pela minha mãe assim que nasci. Minha avó me pegou, levou para casa e cuidou de mim”. Este é o motivo de nem mesmo passar pela sua mente a ideia de procurar ajuda da mãe. Ele não conheceu seu pai biológico.
A partir de seus 17 anos, ele começou a andar por várias regiões do Brasil. É bom deixar claro que andar não é forma literal de dizer. Ele tem andado por lugares e estados diferentes. Com esta idade, já estava pelas ruas, mas próximo da avó. Quando ele morreu, ficou um tempo em São Paulo, mas o medo de morrer ou ser assaltado na noite paulistana fez dele o andarilho que se tornou. Para ele, a noite é a plena escuridão, a sombra.
Nas histórias que conta deste tempo, lembra de companheiros de rua que foram cruelmente assassinados enquanto dormiam, até com pedradas. O medo o levou a vários lugares. Passou por Poços de Caldas e Viçosa, em Minas Gerais, depois Rio de Janeiro e cruzou o litoral norte até chegar a Santos.
Nestas viagens, o Rio foi o local onde teve a melhor receptividade e ajuda. Já em Santos, apesar de achar o lugar muito tranqüilo, reconhece que não é um local dos mais receptivos para pessoas como ele, que não tem um teto para viver.
Aqui, sua alimentação é ruim. “Como arroz com feijão, só de quatro em quatro ou cinco em cinco dias”, diz. Sua comida favorita é simples, porém lhe faz muita falta. É o simples arroz, acompanhado do feijão com farinha. Muitos dispensam esse alimento, acham-no muito normal, básico, mas é o que Douglas mais queria degustar.
Douglas é jovem, mas já é pai. Sua filha não tem menos de um ano, e é fruto de um relacionamento com uma mulher que vivia nas ruas, onde se conheceram. Eles já não estão mais juntos, pois a mulher achou um outro homem que cuida dela e Douglas perdeu o contato com a filha. A menina foi tomada pela avó, assim que nasceu e ele nunca mais a viu ou ouviu sobre ela.
O morador das ruas goza de plena saúde, entretanto já passou por problemas para ser atendido quando precisou de atendimento hospitalar em Santos. Ele relembra: “Fui mal tratado. É difícil de ser atendido por causa do descaso”.
Douglas Damião já pensou em procurar abrigo, mas, por conhecer histórias de pessoas que passaram por albergues, desistiu da ideia. Outros moradores de rua lhe contaram que num lugar como este, onde procuram ajuda, existem assaltos e tentativas de assassinatos, fatos que tira-lhe a vontade de ir até lá.
Em Santos, ele reconhece ter sofrido com o comportamento das pessoas. Por sua vez, a Cidade é bem receptiva aos moradores de rua, que dormem em frente a estabelecimentos comerciais, tomam banho nos chuveirinhos da praia, e sempre durante o dia por causa do frio da noite.
A polícia não é um problema em seu cotidiano. Não há abuso, nem agressão, a menos que estivessem fazendo aquilo que o rapaz chama de errado, como o consumo de drogas.
Douglas afirma que já foi usuário de drogas e álcool, e encontrou nos livros o estímulo para esquecê-las. E como gosta de ler. Achar um texto, uma frase que seja é o suficiente, fazendo-lhe desligar do mundo real e entrar em um lugar onde não é inferior a ninguém, que não é tratado com indiferença. É como se fosse para uma terra onde não houvesse qualquer problema, um verdadeiro “mundo das fantasias”.
Ele sente a indiferença na sociedade, mas encontrou na leitura este “porto seguro”. Douglas tem cadastro em bibliotecas. Não anda como indigente, sempre levando consigo seu RG e carteira de trabalho. E sonha…
Sonha em ter uma família, em ser arqueólogo. Tentou voltar a estudar, mas não consegue preencher qualquer ficha de cadastro, porque lhe pedem comprovante de residência e, logicamente, ele não possui.
Todavia, não deixa de viver e traçar planos. Em breve, irá andando literalmente para a Bahia, terra de seu pai, que também não conheceu. Viajará assim que passar o inverno, pois em sua sabedoria de nômade, viajar no frio é muito pior.
Então segue sua vida, pelas praias, cidades, vilas e vilarejos, sem nunca deixar a sua paixão o seu escape: os livros.
(*) Alunos do curso de Jornalismo da Universidade Santa Cecília – Unisanta