Empregos

Número de entregadores por aplicativo dobraram entre fevereiro e março

Serviço de entregas crescem e são opções de trabalho para pessoas que atuavam antes em atividades regulares

03 de maio de 2020 - 17:42

Felipe Rey

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A vida durante a pandemia do novo coronavírus mudou drasticamente em todo o mundo. Apenas os serviços essenciais se mantêm abertos.

No entanto, para evitar aglomerações da população, é recomendado sair de casa apenas quando necessário, aponta a Organização Mundial da Saúde.

Assim, o serviço de delivery, seja ele de comida ou medicamentos, o entregador se tornou ferramenta fundamental durante a quarentena.

Os números, aliás, comprovam isso.

Entre fevereiro e março deste ano, o número de entregadores cadastrados mais do que dobrou no aplicativo iFood.

Antes,  eram 85 mil pessoas que procuraram o aplicativo para trabalhar. Na última quinzena de março, o crescimento dobrou, chegando a 175 mil pessoas. Os dados de abril ainda não foram fechados.

O auxílio monetário dado aos entregadores também aumentou, apontou o aplicativo.

Em março, a empresa repassou R$735 mil em gorjetas para entregadores, um aumento de 218% em relação a fevereiro.

Porém, não apenas a empresa ajuda o empregador. Os usuários da plataforma também podem oferecer gorjeta aos trabalhadores. Os valores, por sinal, foram aumentados para R$ 2, R$ 5 e R$ 10.

“Durante a última quinzena de março, o entregador que mais recebeu gorjetas em todo o país foi beneficiado pela funcionalidade do app 56 vezes em 15 dias”, informa a empresa.

Procurada pela reportagem, a UberEats e o Rappi, também aplicativos de entregas, não responderam até o fechamento.

 

Número de entregadores por aplicativo mais do que dobrou neste ano. Foto: Divulgação

Medidas econômicas

Já para os entregadores parceiros independentes, o aplicativo criou dois fundos solidários que já somam R$ 2 milhões.

Este fundo, no total de R$ 1 milhão, dá suporte para os que precisam permanecer em quarentena.

Segundo o iFood, o funcionário receberá um valor baseado na média dos repasses nos últimos 30 dias. No entanto, nem todos poderão receber.

Os aptos são apenas os que necessitam ou tenham sido atingidos pela covid-19.

“O iFood considerará como aptos a receber o auxílio todos os entregadores com pelo menos uma entrega feita desde 1º de fevereiro até 15 de março e que comprovarem a doença”, aponta.

Após abrir um chamado para reportar um diagnóstico positivo para covid-19, o entregador terá a sua conta automaticamente inativada por 14 dias e terá até 30 dias para enviar todas as evidências necessárias para receber o valor do Fundo.

Já o resto do montante será disponibilizado para atender o grupo de risco.

A medida procura auxiliar todos os entregadores com mais de 65 anos ou com doenças crônicas.

Os entregadores com mais de 65 anos terão a conta automaticamente inativada durante 30 dias.

“Os demais grupos de risco deverão entrar em contato via Portal do Entregador para solicitar o acesso aos valores do fundo, mediante comprovação das condições pré-existentes. Os parceiros que estiverem no grupo de risco receberão do fundo um valor baseado na média dos seus repasses nos últimos 30 dias”, ressalta.

 

Estabelecimentos

Aos restaurantes, a empresa anunciou três ações que já entraram em vigor.

Na primeira, o aplicativo destinará um montante de R$ 50 milhões para amenizar os impactos econômicos e sociais do vírus. O auxílio será pago em dois meses, até 31 de maio, podendo ter esse período prorrogado.

O dinheiro recebido dependerá do valor da comissão que os restaurantes pagam a empresa.

A expectativa, portanto, é que pelo menos 100 mil estabelecimentos tenham retorno de 20%, em média, nas taxas de cada compra realizada, informa.

Para empreendedores que possuírem mais de um estabelecimento cadastrado, ele receberá o auxílio por pedido realizado em cada um de seus restaurantes.

“A empresa irá antecipar os recebimentos dos restaurantes, sem custo adicional. Dessa forma, todo negócio que optar pelo benefício, receberá seu pagamento 7 dias após as vendas durante os meses de março, abril e maio. Com isso, a expectativa é injetar até R$ 2,5 milhões no mercado brasileiro em antecipações. Restaurantes de todo o Brasil poderão pedir ao iFood a antecipação do repasse utilizando o Portal do Parceiro.”

A terceira e última iniciativa, segundo o iFood, é válida a parceiros já integrados e que também queiram desenvolver estrutura para instalar a solução ‘Pra Retirar’.

“Com grande parte dos salões fechados por leis estaduais e municipais, o delivery e a retirada da comida no local se tornaram as únicas formas do restaurante operar. Por isso, o valor arrecadado pelo iFood em taxas do serviço ‘Pra Retirar’ (no qual os usuários fazem o pedido via app e retiram diretamente no restaurante) serão devolvidos integralmente aos restaurantes parceiros. Serão mantidas apenas as taxas de meio de pagamento do pedido”, explica.

 

iFood disponibilizou dinheiro para motoboys não terem prejuízos durante pandemia. Foto: Divulgação

 

Plano de combate

De acordo com o aplicativo, foi disponibilizado gratuitamente um plano de vantagens em serviços de saúde aos profissionais de entrega.

Neste caso, os entregadores possuem acesso a uma rede de clínicas médias, laboratórios e farmácias. O pagamento, aponta a empresa, será com descontos de até 80%.

“Os benefícios serão válidos também para um dependente de escolha do entregador, sem a necessidade de vínculo familiar. A iniciativa tem abrangência nacional e duração inicial de três meses. Os parceiros de entrega que forem aceitos pela plataforma durante esse período também terão acesso ao benefício”.

Além disso, o aplicativo também está distribuindo álcool em gel e materiais informativos aos trabalhadores.

 

Vida complicada

As empresas de entrega de serviços também sofrem devido a queda da demanda, principalmente com a quarentena obrigatória.

Este é o caso da RR Courrier.

De acordo com o diretor comercial, Robson Garcia, a empresa, que é dividida em quatro setores, já apresentou queda de 80% no faturamento médio em abril.

O impacto econômico também afetou os motoboys da empresa.

Segundo Garcia, ainda não houveram cortes de funcionários, porém seis estão afastados por serem do grupo de risco.

Hoje, tentando viabilizar o trabalho da RR, o profissional diz que a empresa tem distribuído apostilas escolares para os alunos, tendo em vista a quarentena obrigatória.

“Estamos tentando abrir uma nova área e nos reinventar para não dispensar nenhum colaborador”, afirma.

 

Momento difícil

Mesmo com a dificuldade de se manter financeiramente estável, alguns entregadores trabalham em mais de um lugar para tentar sobreviver.

Este é o caso do motoboy Guilherme Bueno Alves, 28 anos, que trabalha em uma empresa de contabilidade durante o dia e em uma pizzaria à noite.

Na contabilidade, hoje ele encontra-se de férias.

Já na pizzaria, o entregador aponta que os serviços caíram bastante neste período. “Houve uma queda. De uma média de 25 entregas que fazia, agora são 15”, assegura.

Ele não trabalha por aplicativos de entrega.

O sócio-proprietário da Quality Contabilidade, Paulo Sergio Machado, afirma que a demanda da empresa caiu cerca de 80% com os serviços de entrega durante a pandemia.

Segundo Machado, quando há demanda, o entregador é chamado para o serviço e recebe o dia trabalhado, mais 20% da periculosidade.

Por outro lado, o entregador Matheus Gerlach, 22 anos, que trabalha para aplicativos como iFood e UberEats, revela que usuários dos apps não compreendem as orientações dadas pelas empresas.

De acordo com ele, em uma das entregas, ao deixar a comida na porta de um dos moradores, ele ouviu tosses e espirros em tom sarcásticos vindos de dentro do imóvel.

“Em outro caso, eu tive que subir no apartamento e o rapaz estava com sintomas do vírus. Ele deixou um cooler na porta da casa para deixar a comida, assim não tive contato”, afirma.

Para ele, nota-se que há mais demandas e também novos trabalhadores.

Muitos, segundo eles, não têm estrutura para conseguir levar a comida e acabam improvisando. Alguns, prendem um cooler na bicicleta e para colocar o alimento dentro.

Durante o período de pandemia, Gerlach relata que, por mais que não faça entregas regularmente, conseguiu R$ 600 para pagar as contas do mês.

Por isso, conseguiu parar de trabalhar no restante do mês de abril, porém, as contas de maio, segundo ele, precisam ser cobertas.

“Eu fiz o dinheiro suficiente apenas para quitar as contas deste mês e depois voltarei a trabalhar novamente”, finaliza.

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