Prédios históricos conservam fósseis marinhos de até 400 milhões de anos | Boqnews
Foto: Carlos Nogueira/PMS
27 de janeiro de 2022

Prédios históricos conservam fósseis marinhos de até 400 milhões de anos

Se você é apaixonado por história, sobretudo ao que se refere aos períodos Paleozoico e Jurássico, saiba que o Centro de Santos é um museu a céu aberto, uma verdadeira assembleia fóssil. Isso porque o Paço Municipal, a Bolsa do Café, a Igreja do Valongo e a Alfândega abrigam fósseis marinhos de até 400 milhões de anos em seus pisos e paredes. Todo esse acervo histórico da vida na Terra vem sendo catalogado pela geóloga Angela Frigerio, da Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedurb).

No prédio da Prefeitura (Praça Visconde de Mauá, Centro), logo no saguão principal, é possível notar extintos moluscos rudistas nas paredes laterais da escadaria. Esses fósseis encontrados no lioz (tipo de calcário) português são organismos do antigo mar de Tethys, o precursor do Mediterrâneo. O mesmo fóssil também pode ser visto em uma bancada, atrás da escadaria, que dá acesso a salas administrativas do térreo e ao subsolo do Paço Municipal.

E a história do planeta continua por outras referências do Centro santista. A 400 metros da Prefeitura, em uma caminhada de apenas três minutos, está a Bolsa Oficial do Café. No chão da Sala de Pregões, os visitantes se deparam com mais uma importante parcela da vida no planeta. Em meio aos traços do mármore estão braquiópodes, animais importantes nas eras Paleozoica e Mesozoica, além dos cefalópodes, carnívoros que habitaram o planeta há cerca de 150 milhões de anos. São animais que têm os pés (podes) na cabeça (cefalo), daí a origem do nome. Polvos e lulas fazem parte dessa classe de moluscos e todos os animais pertencentes a essa classe são predadores marinhos.

“Mais do que a história de Santos e o encontro da Cidade com Portugal, todos esses registros mostram a própria vida no planeta. Muitos desses animais marinhos foram extintos junto com os dinossauros e essa história precisa ser preservada”, explica Angela, que trabalha na Sedurb há 25 anos.

As edificações do Centro utilizam matéria-prima proveniente de diferentes locais do Brasil e do mundo. São granitos extraídos do Estado de São Paulo a materiais vindos da Europa, como os mármores carrara branco, azul turco, rosso Verona e o lioz português, usado como lastro (peso para manter estabilidade) nos barcos portugueses que aportavam em Santos. Os fósseis de animais extintos, por sua vez, ficaram gravados durante milhões de anos em tais pedras.

A geóloga descobriu o primeiro fóssil no Centro da Cidade em 2012, durante o 46º Congresso Nacional de Geologia, e desde então está à frente da curadoria deste acervo milenar. “O trabalho de geodiversidade ainda é algo recente, principalmente no Brasil. Em países como Portugal e França, por exemplo, esse tipo de estudo já é desenvolvido há duas décadas e faz parte do turismo local”, conta.

Outro local que abriga material precioso é a Alfândega (Praça da República s/nº, Centro). Na antessala, antes do hall, uma parede de mármore inglês é desenhada por corais isolados e ramificados. Eles formam desenhos que lembram uma pluma e, segundo Angela, também são raros. “Essa parede à direita é um festival de corais. Uma peça maravilhosa de 400 milhões de anos”, ressaltou a profissional, que também já encontrou fósseis marinhos na Igreja do Valongo e no prédio do Banco do Brasil (Rua XV de Novembro, 195).

Embora não conte com nenhum fóssil prensado em sua estrutura, uma calçada na Rua Riachuelo, próxima ao cruzamento com a Rua Tuyuti, é outro ponto de atenção para geólogos, munícipes e turistas.

O piso é formado por rochas duras e históricas, datadas de 600 milhões de anos, e provavelmente oriundas da Pedreira dos Beneditinos, que funcionou até o século 19, no Rio de Janeiro.

Para a geóloga, trata-se de um trecho especial do Centro santista. “Particularmente, creio que essa seja a calçada mais bonita de Santos, principalmente pelo seu alto valor histórico. É um pedaço sui generis, especial, que pouquíssimas pessoas sabem de sua existência”, conclui.

Da Redação
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