Arte: Mala

Direitos Humanos

28 DE JULHO DE 2018

Refugiados buscam recomeçar as próprias vidas no Brasil

Refugiados buscam proteção em outros países por diversos fatores, dentre eles a crise econômica do país de origem, guerras, e perseguições

Por: Lucas Freire

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O tema sobre os refugiados é o grande destaque em Santos neste mês de julho.

Além de ser algo a ser discutido em todo território nacional, anos atrás já era motivo de medidas políticas de urgência na União Europeia.

Houve dois destaques sobre o tema na Cidade.

A primeira é a Ação do Coração, que se pautou justamente para a reflexão sobre a situação dos refugiados no mundo, nomeando o projeto de “Nosso Coração, Nosso Território – Refugiados, Excluídos e Migrantes”.

De acordo com os envolvidos e organizadores, a temática desta edição da Ação do Coração quer sensibilizar a população.

Levantando a reflexão e proporcionar ações para aceitar e acolher os refugiados, excluídos e migrantes.

A segunda atividade que envolve os refugiados, foi a participação da Orquestra Mundana Refugi, no Santos Jazz Festival.

A orquestra sob a direção Carlinhos Antunes foi composta por brasileiros, migrantes, e refugiados.

As apresentações envolveram temas tradicionais da Palestina, Irã, Guiné, Congo e Brasil, além de composições próprias.

Um estudo feito pela ACNUR em 2015, mostrou que o tempo que um refugiado tem para sair de casa é de um minuto.

Eles só levam a roupa do corpo, deixa tudo para trás, roupas, história, todos os bens materiais que adquiriu até mesmo animais de estimação, para salvar a própria vida e dos filhos.

Em 4 de dezembro de 2014, Salam desembarcou no aeroporto de São Paulo (Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação)

Nova vida

Salam Alzubedi, de 31 anos, é um exemplo de uma pessoa que buscou refugio no Brasil. Que logo em seguida seu destino era a cidade de Santos.

Ele explicou que há quatro anos, ele veio sozinho ao Brasil com o visto de refugiado – quatro meses depois chegou a sua esposa -, e desembarcou em São Paulo. Onde havia um amigo de Santos, que o aguardava no aeroporto. Com o auxílio desse amigo, ele veio morar na Cidade.

A vivência de Salam, que passou a ser sobrevivência, fez com que ele tivesse que se resguardar em outro lugar.

‘’Na Síria estava tudo maravilhoso. Eu tinha casa própria, emprego fixo, e minhas coisinhas. Éramos todos em paz. Assim que a guerra começou tudo ficou complicado, e a situação só piorava. Perdi o emprego, vivíamos sem segurança’’, relatou.

A vinda ao Brasil de Salam é justamente a mesma dos demais refugiados no país. A busca de uma melhorar a vida, de começar uma vida nova.

Durante pesquisas para qual país ele iria buscar refugio, ele chegou à seguinte conclusão; “Não há outro país que receba os refugiados de braços abertos igual ao Brasil”.

Quando começou a morar aqui, Salam não possuía nada. Apenas roupas, e cerca de 200 dólares. “Foram momentos muitos difíceis, que duraram cerca de 3 a 4 meses”.

Salam é formado em Tecnologia da Informação, e atualmente exerce a função de analista de DevOps.

Para ele, dentre as suas grandes conquistas, está o nascimento de sua filha brasileira, chamada Júlia, que tem 10 meses de idade. Portanto, estar ao lado de sua esposa e filha é o motivo no qual traz alegria e paz para Salam.

 

Local

No mês de junho deste ano, foi inaugurado o Observatório do Migrante, na Unisanta.

Coordenado pela advogada e professora Patricia Gorisch, o foco do Observatório é contribuir na Baixada Santista com políticas públicas aos imigrantes.

De acordo com a coordenadora, há dois objetivos principais. O primeiro é a pesquisa de dados da região, do Brasil e do mundo, para realização de artigos científicos e acadêmicos.

Já o segundo ponto, é de realizar palestras. Assim como foi feito no lançamento da Campanha Ação do Coração.

Patricia questionou a falta de estudos na região. ‘‘Não temos dados da região e isso é inconcebível. Temos diversas universidades na região, o maior porto da América Latina e do Caribe e não temos dados, logo, não existem políticas públicas para essas pessoas’’, destacou a professora.

 

2º Santos Film Fest 

Ano passado, a segunda edição do Santos Film Fest encerrou com o filme “Somos Todos Estrangeiros” (Brasil/Síria, 2016).

O longa teve a produção do crítico de cinema santista Rubens Ewald Filho, e a direção de Germano Pereira.

O filme foi baseado no livro O Estrangeiro, obra de Albert Camus.

A obra conta a história  de um jovem que é condenado por assassinato dias após do falecimento de sua mãe. Considerado frio e apático, ele é um estrangeiro, diferente das outras pessoas no seu modo de sentir e se expressar.

O diretor Germano diz que nunca se esteve tão atual a questão dos imigrantes no mundo (Confira abaixo a entrevista completa).

”Acredito que poucas pessoas não saibam alguma coisa sobre o tema, ainda mais com a postura negativa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, separando os pais e mães de seus filhos mexicanos, em um ato horrendo e pavoroso. Assim como querendo construir o imperioso, fictício e alienante muro que divide os Estados Unidos do México”, criticou o diretor, sobre o atual cenário de imigração dos país norte-americano.

Germano considera que após dirigir o filme, ele cresceu com o tema, mantendo a mesma visão sobre a questão de imigração,”o filme apenas reforçou a minha questão que invoca a aceitabilidade do outro e sua integração enquanto indivíduo”.

Diocese de Santos

A Diocese de Santos também contribui para que os refugiados tenham uma perspectiva de vida. De acordo com o padre Valdeci, dois refugiados já estão inseridos no Ensino Superior, com 100% de bolsa na Unisantos.

Além disso, mensalmente a Diocese auxilia com gastos de moradia dos refugiados. O padre explicou que eventualmente surgem refugiados que pedem acolhimento por dias. Até que eles consigam outro lugar para passar as noites.

 

Direitos Humanos

Direitos básicos, para quem foge para salvar a sua vida, se enquadram nos cinco motivos que a legislação internacional indicou.

Os cinco motivos básicos são relacionados à perseguição por conta de raça, religião, nacionalidade, opinião política, e pertencimento a grupo social.

No âmbito da America Latina inclui-se, pelo tratado, o sexto motivo; as ações que ser caracterizem como graves violações contra os direitos humanos.

Assim que os refugiados chegam ao Brasil, se direcionam para a Polícia Federal oficial de fronteira.

Em seguida, a pessoa já tem direito a CPF e carteira de trabalho. Além disso, ganha permanência no Brasil até que seu processo seja julgado pelo CONARE, órgão do ministério da justiça.

“Essas pessoas chegam com uma força de vontade incrível. Eles trabalham normalmente, pagando seus impostos como qualquer outro cidadão”, afirmou a advogada.

 

Resultados

Patricia Gorisch explicou que é importante lembrar que os refugiados já veem capacitados para trabalhar, com suas formações.

“Essa semana, por exemplo, eu atendi uma família nigeriana em Santos, que são jornalistas. Essas pessoas já vêm com um grau superior, pronta para o mercado de trabalho”, contou Patricia.

Através de todos os trabalhos realizados na Cruz Vermelha, no Conare, e também no Observatório de Migrantes da Unisanta, a advogada vê que essas pessoas chegam com uma força de trabalho muito forte.

“É isso que o país precisa pessoas trabalhando e pagando impostos”.

A advogada voluntária acredita que é necessário fazer a reflexão de que além serem pessoas, os refugiados tem a capacidade de reaquecer a economia brasileira.

“A faculdade de Oxford, lançou estudos que afirma que a Alemanha ganhou um crescimento significativo em seu PIB, com 4% de aumento”.

 

Confira a Entrevista com Germano Pereira

Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Boqnews: O senhor acha que a questão dos imigrantes é pouco abordada no País?

Germano Pereira: Nunca se esteve tão atual a questão dos imigrantes no mundo. Não preciso ir muito longe. Mas acredito que aquela imagem do menino morto, de camiseta vermelha, deitado a beira mar,  que ficou impresso em todos os sites e revistas do mundo. Acredito que essa imagem se tornou arquétipo conflituoso daquilo que é ser um imigrante e um refugiado.

Tudo é envolto em uma postura política sórdida entre as partes dos países que beiram a extremos, tanto de violência quanto de aceitação.

Uma amiga da minha mulher, que mora na Suíça, e que tem casa na Sicília, na Itália, disse que nunca o país recebeu tantos imigrantes refugiados africanos. Todas as semanas, quiçá todos os dias, barcos aportam na cidade com dezenas de imigrantes.

Quando comecei a fazer a pesquisa do Longa Somos Todos Estrangeiros, no qual dirijo, encontrei embaixo do minhocão de São Paulo, angolanos que estavam vendendo bermudas da Nike. Parei para falar com eles, comprei a tal da bermuda que tenho até hoje. Porem o principal foco era bater um papo com eles. Na nossa conversa ficou claro para mim que eles tinham medo de estarem aqui no Brasil, olhavam para todos os lados com receio de serem pegos pela polícia, acreditando que estavam de modo ilegal. Os Sírios tinham uma postura mais tranquila e sabiam de seus direitos e como se portarem de modo burocrático para regularizarem suas situações aqui no país.


Boqnews: Após produzir o filme ‘’Somos Todos Estrangeiros’’, o senhor mudou ou acrescentou alguma perspectiva sobre o tema?

Germano Pereira: Eu somente cresci com o tema. Minha visão continua sendo a mesma, o filme apenas reafirmou a minha questão que invoca a aceitabilidade do outro e sua integração enquanto indivíduo.

Vou colocar a seguinte situação: se você que está lendo esta matéria perdesse o pai, a mãe, por causa de uma bomba, ou que ainda não os perdesse, mas que estivesse em um local que é foco de bombas, você não se tornaria um imigrante refugiado? Outra situação, se um bebê estivesse se afogando numa piscina e por acaso você estivesse ali do lado e pudesse o salvar? Você não salvaria este bebê?

Boqnews: A conscientização, e o acolhimento dos refugiados no país devem ser reforçados?

Germano Pereira: Toda conscientização deve ser reforçada. Consciência nunca é demais. Ela elimina a violência como abre caminhos para a aceitação do outro. A prática é infindável, pois não é apenas de um único indivíduo, mas centenas, milhares. Ou seja, a prática da consciência de massas é uma maratona infinita. E talvez sempre fadada à tragédia, já que a consciência absoluta da massa é uma tarefa que muitas vezes sai do poder de um único indivíduo, e se divide nos poderes de vários indivíduos, tanto de instituições quanto de consciências particulares.

Boqnews: Com todo o histórico Norte-Americano, e o da Europa, como o senhor acha que o Brasil se posiciona sobre os refugiados?

Germano Pereira: O Brasil se posiciona quase da mesma maneira que todos os outros países se posicionam, o evento de percepção acontece através das mídias sociais, jornais e televisões, mas talvez nada de efetivo seja feito. Como falei na resposta acima, fatos isolados são feitos e o todo caminha de forma trôpega e caótica.

Tudo é mais complexo porque a questão dos imigrantes envolve aquilo que mexe no bolso dos países. O muro que Trump quer construir, tanto o físico e concreto, quanto o muro que são as leis que ele está colocando em voga (igualmente absurdas, pois surtem o mesmo efeito trágico). É única e exclusivamente por causa, do dinheiro. Em como não se dividir o dinheiro, em como se continuar sendo um império, em como privilegiar as classes mais abastadas.

Boqnews: A xenofobia entre os estados brasileiros ainda é uma realidade, principalmente em época de eleições presidenciáveis. Você acredita que isso se deve a frustração política, ou a questão ‘’cultural’’ do brasileiro?

Germano Pereira: Não é uma questão do brasileiro, mas algo muito maior, e sim da humanidade. Toda e qualquer forma de preconceito é uma exclusão da liberdade do outro; da falta de compaixão, do se colocar no lugar do outro, em todos os sentidos.

Como falei antes, sobre a dificuldade da consciência das massas, que é, reforçando, a erva daninha que Hamlet fala em Shakespeare. Você corta uma erva daninha dos jardins do mundo, e milhares de outras nascerão sem que você se dê conta. Isto é, você pode resolver a falta de consciência em determinados 100 indivíduos, por exemplo. No entanto é quase que inevitável outra safra de 100 indivíduos baderneiros e sem a mínima consciência. E pior, sem a vontade de adquirir o conhecimento e flexibilidade basal. Algo que todo indivíduo deve ter ao viver em sociedade.

A tragédia está posta no mundo e não é de agora. Sempre existiu. E nunca vai deixar de existir, pode ter certeza. Talvez amenizada. Mas mesmo que amenizada, pode ter a certeza, que como um pêndulo nietzschiano do eterno retorno. A tragédia da falta de consciência, da falta de compaixão estará imperando no mundo. E uma sociedade lá no futuro, acreditando falar de algo novo, não perceberá que na genética de sua história está traçada uma linha de sangue, de guerra e de poder.

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