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Sob a alça de mira

A educação é vertente fundamental para o desenvolvimento de qualquer país.  Investir na formação de um jovem é oferecer base…

03 de julho de 2009 - 22:28

Da Redação

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A educação é vertente fundamental para o desenvolvimento de qualquer país.  Investir na formação de um jovem é oferecer base sólida para lidar com os desafios profissionais e pessoais da vida adulta. É abrir espaço para reflexões e permitir que ele influencie as diversas camadas da sociedade e por consequência, modifiquem e solucionem as deficiências de um país em constante crescimento.

Levando em consideração que grande parte das famílias brasileiras não têm condições de pagar pelo ensino particular aos filhos, o Governo tem trabalhado para que o nível educacional das escolas estaduais seja cada vez mais elevado. Apesar dos novos projetos e investimentos, os desafios crescem e exigem soluções cada vez mais abrangentes e aperfeiçoadas. Valorizar o papel do professor  é um desses desafios.

Vítimas de jovens desinteressados pelo aprendizado,  os professores, que detêm um papel fundamental nesse processo, estão sujeitos aos mais variados tipos de violência. Ele é destituído de autoridade e autonomia e essa lacuna dá margem para que o aluno em  sala  de  aula, ou  fora  dela, arbitre sobre o que é justo ou injusto, certo ou errado, segundo sua visão pessoal. A violência é, assim, relativizada em seu valor de transgressão e seus autores não se sentem transgressores:  pelo contrário, agem com tranquilidade, não se julgando fora dos princípios da boa educação ou da ética, pois se conduzem de acordo com o que estipulam ser o preceito correto e legítimo.

Violência

Exercendo a profissão de professora do Estado durante mais de 30 anos, Izamara (nome fictício) presencia, diariamente, situações de violência, física e moral, na sala de aula. “Já fui roubada três vezes dentro da sala de aula”, conta. A professora considera-se sortuda por não ter sofrido algum tipo de agressão física, mas relata os casos de colegas. “Muitos pediram exoneração por causa da violência da qual foram vítimas. Ficaram traumatizados”, relata.  “O mais recente foi o caso de alunos que colocaram várias drogas na água de uma colega  professora”, relata.

A violência pode extrapolar o limite da força física, atingindo âmbitos mais sérios, como a ameaça à mão armada. “Eles colocam a arma na mesa perguntando se vamos, ou não, dar nota”, diz.

Izamara atribui as ações à falta de limite e punição por parte das escolas e do Estatuto do Menor e da Criança. “Os alunos sabem que não vai acontecer algo porque no Estatudo diz que eles têm direito à aula. Então, se colocamos para fora da sala, eles voltam depois de cinco minutos apontando o dedo na nossa cara”, afirma. 

Segundo Izamara, a atitude mais agressiva está entre os alunos do Ensino Fundamental, na faixa etária de 11 e 13 anos,  que, desinteressados pelo conteúdo, pouco se preocupam com as orientações dos docentes.  “Eles não têm limite e respeito. Xingam e são muito agressivos. Por incrível que pareça os alunos do Ensino Médio são mais fáceis de lidar”, garante.

A aprovação automática, que impede que o aluno repita o ano letivo do Fundamental, colabora, segundo a professora, para esse comportamento.“Eles sabem que vão ser aprovados de qualquer jeito. Então, o que falamos não tem valor algum porque eles têm conhecimento que não podemos reprová-los”, afirma a professora, que critica o sistema educacional atual, burocrático, com a análise de dados estatísticos.
“A educação é um faz de conta. O que importa são os dados finais, computados pela Secretaria do Estado”, afirma.  Segundo ela, as unidades escolares não repassam notas vermelhas à Secretaria com o objetivo de evitar que os mesmos entrem em contato com a unidade para avaliar qual é o problema do corpo docente.

Lurdes (nome fictício) também é professora da rede do Estado e confirma a problemática com as notas.  “Se o coordenador da escola recebe o nosso diário com um número alto de notas vermelhas, somos chamados a atenção e obrigados a mudar”, conta.  “Eu estou aprovando alguns alunos, já adultos inclusive, que ainda são analfabetos. Mal sabem escrever três linhas”, relata.

Os resultados numéricos são conse-quência da falta de interesse do aluno na sala de aula. “Sempre têm os que se destacam,  mas a grande maioria não se preocupa com os estudos e conforme os anos passam notamos que o índice de violência contra a professor aumenta cada vez mais porque não há punição para o aluno”, comenta.

Drogas
Cada vez mais presente no ambiente escolar o uso de drogas colabora para o comportamento agressivo e, atualmente, é considerado um dos principais fatores que contribuem para a violência dentro da sala de aula. “Eles entram na aula de uma maneira. Quando voltam do intervalo estão com o comportamento completamente alterado”, diz Izamara. “O uso da droga dentro das dependências das escolas estaduais é muito alto porque não tem funcionário para fiscalizar. Não tem inspetor suficiente”, acrescenta.

O índice de criminalidade dentro das salas de aulas vem acompanhados pelo crescimento de alunos que são enviados à Fundação Casa (antiga Febem) por cometerem pequenos delitos. “Os alunos que voltam da Fundação viram ídolos dentro da classe. É triste ver bons alunos sendo influenciados por esse comportamento e tomando o  mesmo caminho”, diz.

De acordo com Izamara, o ideal seria dispor de classes separadas para oferecer uma educação especiais a esses alunos. “Eles não se recuperam na escola e ainda influenciam os bons alunos”, afirma.

O bem público também vira vítima de degradação, causada por atos de vandalismo e rebeldia. “Além de arrombar armários, alguns também roubam os mouses, teclados, quebram os computadores e cadeiras.” relata Lurdes. Levando em consideração que o aluno que pretende se matricular numa escola estadual precisa  fazê-lo na unidade mais próxima de sua casa, o índice de criminalidade dentro da escola estadual depende da localidade onde está situada.

Família
A violência escolar não vem desacompanhada de outros fatores. Não é algo que surge e termina dentro da sala de aula. É apenas uma das facetas dos variados tipos de violência que cercam o jovem diariamente: a violência familiar, social, estatal, verbal, física, comportamental, entre tantas outras. O aluno, influenciado por tipos de violência em casa ou na rua, é meio de transporte para que esta violência adentre às escolas.

“É difícil encontrar uma  justificativa que explique os casos de violência contra o professor, porque cada aluno é um caso”, diz a psicóloga Ewa Danuta Cicheka Denari.  “Tudo que uma pessoa fala ou faz tem um sentido de comunicação. O que será que esses adolescentes estão tentando comunicar? Pode ser uma questão de chamar a atenção (da família ou dos que estão ao redor) e, além da violência, o vandalismo na escola também pode ser uma maneira de comunicar algo a alguém”, explica.

A psicóloga comenta sobre a possível violência que o jovem pode sofrer em outras esferas da sociedade, levando, por consequência, para o ambiente escolar. “ Há jovens que passam por violência dentro de casa e retribuem da mesma forma. É uma forma de reação”, afirma.

O reconhecimento adquirido pelos colegas de classe a partir das atitudes agressivas é outro fator determinante para esse comportamento. “De alguma forma, eles se sentem valorizados por cometerem esses  atos”, diz  Ewa. “Também existem os casos patológicos, como os sociopatas, que têm a tendência à destrutividade, sem a mínima culpa”, complementa.
A psicóloga coloca a família e a educação como aspectos primordiais no desenvolvimento e na formação comportamental dos jovens. “Mãe e pai são exemplos essenciais e precisam acompanhar os filhos, que necessitam de segurança afetiva, amorosidade e atenção”, sugere.

Desenvolver a paciência, tolerância e estabelecer autoridade dentro do lar também é dever dos pais que, apesar de compreensivos e participantes, precisam exercer liderença. “Há um tempo surgiu uma crença de que não pode-se dizer não à criança para não frustrar ou traumatizar. Mas a frustração é importantente justamente porque o mundo é frustrante. Tem que aprender a lidar com a frustração para poder enfrentar o mundo”, garante. “Isso não é ensinado pelos pais, então, quando os filhos chegam à escola e a professora precisa exercer autoridade (que deveria ter sido exercida pelos pais), eles não sabem enfrentar e respeitar”, acrescenta.

Ewa cita o caso retratado na novela da Globo, Caminho das Índias, pelos personagens Ilana e César e o filho, rebelde, Zeca. “Os pais também têm um comportamento adolescente e, emocionalmente, estão no mesmo patamar do filho, que só reproduz o que vê dentro de casa. Não há exemplo e nem limites”, afirma.

Coerência e atenção são aspectos que a família precisa desenvolver e praticar diariamente pois, segundo Ewa, colaboram na construção de um bom caráter. “Não adianta os pais falarem uma coisa e fazerem outra”, afirma.

As mudanças sociais, que acontecem de uma forma cada vez mais rápida, são colocadas pela psicóloga com um aspecto importante no aumento da incidência da violência escolar, refletida por meio do comportamento dos alunos. “Os valores estão de ponta cabeça. Tudo está muito banalizado por essa falta de carinho e amor, que começa na família”, afirma.

No caso de famílias que estão enfrentando problemas de rebeldia com os filhos, Ewa aponta como essencial a ajuda e orientação de um profissional capacitado. “É importante reconhecer o problema e buscar soluções seja por meio de terapias com psicólogos ou grupos de discussão”, finaliza.

Apeoesp

O Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, que dá suporte aos professores de escola estaduais, afirma que o quadro de violência da sala de aula é grande se comparado aos anos anteriores. “Alguns colegas de trabalho estão afastados porque estão jurados de morte por alunos, em razão de problemas com notas”, diz o coordenador da Apeoesp Baixada Santista, Carlos Eduardo Vicente. “ Os casos mais recente de colegas que temos conhecimento são de uma aluna que atirou uma cadeira contra a professora e de outra que teve o carro queimado. Sem contar os que são ameaçados com arma dentro da sala de aula”, afirma.

Lecionando no Estado por oito anos, ele afirma que muitos casos não chegam ao sindicato com  intenção de preservar a imagem do ensino estadual. “Além de não querer desvalorizar o Estado, os professores têm medo de denunciar por conta da reação dos alunos”, diz.  “Também sabemos que existe a questão social por trás desse comportamento em razão de famílias desestruturadas. Por isso os professores tentam, na medida do possível, se aproximar: para ter um poder de persuasão maior e estabelecer vínculos afetivos”, comenta.

Em relação à organização e agilidade para solucionar os casos de violência contra o professor, Vicente critica o trabalho do poder público. “A direção da escola não funciona para resolver problemas do aluno. Muito menos o Conselho Tutelar. O primeiro tenta segurar o aluno na escola e o segundo dá uma bronca e às vezes uma punição, como pagar uma cesta básica por exemplo, ” exemplifica.

O coordenador indica que, no caso de uma agressão física, o professor faça um boletim de ocorrência. “Podemos colocar nosso serviço jurídico a serviço do docente”, afirma. Segundo Vicente, a alternativa para melhorar a educação nas escolas públicas é aumentar a carga horária, com o objetivo de desenvolver atividades extra curriculares atrativas, e melhorar as condições na sala de aula.

Delegacia do Ensino
A dirigente do ensino de Santos, Maria Lúcia Ferreira dos Santos, afirma que os problemas de violência contra o professor devem ser tratados dentro da própria escola. “A unidade resolve e coloca a ocorrência no site da Secretaria de Educação do Estado”, diz.  “Caso a ocorrência chegue à delegacia de ensino, fazemos uma apuração detalhada e analisamos, também, se o professor não teve participação nessa agressão”, afirma.

Orientando os docentes para os casos de alunos problemáticos, a dirigente indica que a escola faça trabalhos de conscietização dos alunos, exercendo o papel na educação, para que esses atos não ocorram.  Projetos de conservação do patrimônio também são colocados por Lúcia como importantes. “Os casos de agressão contra o professor e degradação do patrimônio público nas escolas estaduais da região são exceção”, finaliza a dirigente, que leciona há 33 anos.

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