SuperEscola forma campeões no esporte e na vida
Geovana Soares de Lima, de 12 anos, estuda na rede municipal de Praia Grande desde os seis anos de idade. Em 2004, aos sete anos, começou a fazer aulas de judô na escola municipal Carlos Roberto Dias, no horário oposto ao das aulas regulares do Ensino Fundamental. Ela não queria, mas sua mãe a matriculou e acabou se apaixonando pelo esporte.
Um ano depois ganhava sua primeira medalha de ouro, em Santos, num campeonato regional. De lá para cá, a atleta não parou mais de competir, sempre ganhando medalhas. Atualmente, é campeã pan-americana, peso meio-médio (38 a 42 kg), classe infanto-juvenil (11 e 12 anos).
O título é inédito para Praia Grande. Este ano, a atleta também sagrou-se campeã nacional, estadual, paulista interdelegacias, regional e de diversos torneios. “Agradeço o apoio que recebi dos professores, colegas, diretor, equipe técnica e todas as pessoas ao meu redor”, diz Geovana.
Mesmo com a potencial carreira no judô e uma agenda intensa com treinos diários e participação em torneios, os estudos continuam tendo lugar garantido em sua rotina. Ela cursa o 7º ano na escola municipal São Francisco de Assis e faz planos de cursar duas faculdades: Educação Física e Jornalismo.
“Geovana tem responsabilidade com as tarefas, realiza todas as atividades propostas e cultiva bom relacionamento com os colegas. É uma menina simples, que gosta de conversar e brincar, como qualquer outra da idade dela”, comenta o professor de geografia, Fernando Budião.
“Geovana é discreta e humilde, de boa conduta. Não fica se vangloriando por ser uma campeã”, diz o diretor da escola, Adelino da Silva Antunes. “Ela nunca repetiu de ano, nem ficou em recuperação; tem um bom desempenho”, diz a mãe, Ivone Ramiro, que acompanha Geovana em quase todos os campeonatos. O pai também participa e se emociona ao vê-la em ação. “Ele sempre chora quando ela ganha”, entrega a mãe.
Geovana é um exemplo de que esporte e educação podem andar juntos na rede pública, com grandes resultados. Como ela, existem outros grandes campeões em Praia Grande, que além de se destacarem no esporte, ainda são exemplos de responsabilidade no estudo e na vida.
Esses estudantes demonstram o sucesso do programa SuperEscola, que oferece atividades saudáveis para as crianças dentro de um contexto educativo, tirando-as das ruas, proporcionando a descoberta de talentos, momentos de lazer e socialização e, principalmente, o aprendizado de regras, valores e cidadania.

As aulas extra-classe ocorrem desde 2001 nas escolas municipais de Praia Grande, mas antigamente o programa se chamava Contraturno. Com o passar dos anos, foi ampliado e ganhou o nome SuperEscola. Os treinos, que antes aconteciam apenas nas quadras escolares, também passaram a ser realizados nos ginásios municipais.
Atualmente, o SuperEscola oferece 25 modalidades esportivas, além de 8 culturais. Só no esporte são 12 mil alunos. Além de beneficiar estudantes da rede municipal de educação, o programa ainda oferece esta oportunidade a crianças da rede estadual ou privada, com a mesma qualidade e infra-estrutura.
Estudos
Os alunos que fazem parte do SuperEscola são incentivados a freqüentar as aulas regulares e ter bom desempenho nos estudos, além de bom comportamento em sala. Se um dos itens – rendimento, assiduidade e comportamento – não estiver satisfatório, as pedagogas comunitárias (profissionais que fazem parte da equipe escolar) buscam soluções para o impasse, conversando com os pais e professores do aluno.
Mas quando se fala em contexto educativo, o projeto vai além da exigência de freqüência e desempenho. O SuperEscola ensina a criança sobre trabalho em equipe, disciplina, concentração e valores, como solidariedade, cooperação e cidadania. Geovana confirma: “Aprendi o valor da responsabilidade, do respeito, da amizade e da cooperação”, diz.
Os alunos são estimulados a fazer pesquisas sobre a história do esporte e outros trabalhos, além de aprender tudo sobre a organização e bastidores de um evento esportivo. Algumas turmas já apresentaram peças teatrais sobre a importância do esporte em suas vidas. Outras confeccionaram cartazes com o resultado das pesquisas.
“Recentemente, os alunos de judô fizeram um trabalho escrito sobre a história da modalidade, com foco na cultura do Japão, que é seu país de origem”, conta o chefe da Divisão de Esporte nas Escolas, Carlos Leonardo, que também atua como professor de judô.
Especialização
Os alunos que se destacam e demonstram mais interesse e potencial são encaminhados para treinar na Secretaria de Juventude, Esporte e Lazer (Sejel), onde se especializam ainda mais e participam de vários torneios e competições, dentro e fora da cidade.
Nas dezenas de campeonatos dos quais participa anualmente com os alunos, o professor Carlos Leonardo sempre conversa com pessoas de outras cidades, estados e até países. Baseado nisso, ele enfatiza: “Nossos alunos são os únicos de rede pública a participar dos grandes campeonatos. Todos os outros atletas participantes são de clubes e associações particulares”.
Diferencial
O chefe da Coordenadoria de Complementação Educacional, Esporte e Cultura nas Escolas, da Secretaria de Educação (Seduc), João Carlos Ribeiro Manso Júnior, frisa que o grande diferencial do SuperEscola é formar o aluno para a vida e não apenas para o esporte.
“O mais importante não é o desempenho físico, mas a conduta do aluno como pessoa. Trabalhamos na formação do caráter. É importante que o aluno saiba se apresentar como pessoa, falar de sua cidade e conversar com qualquer pessoa numa competição”, ressalta, prosseguindo: “Formamos alunos que podem participar de qualquer evento e viajar com a equipe sem dar nenhum problema, sem dar trabalho porque sabem se comportar. Se o aluno não seguir carreira de atleta, não tem problema. O que importa é que seja uma grande pessoa, que terá influência positiva no mundo”.
De acordo com ele, a participação da família nesse processo é fundamental. “Estamos sempre incentivando a participação dos pais nos eventos e criando situações para que eles estejam perto dos filhos. Nossa função é unir família, professores especializados e estrutura de qualidade para formar uma pessoa que saiba conviver bem em sociedade e faça diferença”.
Manso enfatiza que o esporte ou a cultura são iscas para se trabalhar valores e cidadania. “O SuperEscola trabalha para transformar a criança num grande cidadão. Se ela ganhar medalhas nas competições, melhor ainda. Mas se não ganhar, será um grande ser humano. Essa é nossa maior conquista”.