Considerado, no passado, como um dos melhores carnavais do País, a folia santista vive um momento de renovação e crescimento. Nos últimos anos, a cidade tenta formar uma nova identidade para transformar o Carnaval novamente em um atrativo turístico.
No século passado, milhares de santistas, misturados a outros milhares de turistas, curtiam juntos a festa. Pelas ruas, serpentinas, confetes e muita alegria. Os foliões saiam de suas casas fantasiados em grandes e também pequenos grupos. Blocos históricos e tradicionais desfilavam pela ruas ao som das famosas marchinhas carnavalescas.
A festa feita por blocos, choros, cordões, ranchos e, mais tarde, pelas escolas de samba, porém, foi ganhando novas caras, assim como aconteceu em muitas cidades. As escolas de samba, que começaram a surgir em 1939, tiveram o desfile interrompido em 2001, na época considerado melhor que o da Capital, e voltou apenas em 2005.
Para se ter ideia, hoje - segundo o corretor de imóveis, Alexandre Badú, que aluga apartamentos mobiliados para temporada, a procura por Santos aumenta a cada ano, porém a intenção de quem vem no período da folia é o contrário de outrora. "Conversando com meus clientes, notei que a maioria escolhe Santos como destino para fugir da loucura do Carnaval. Com a mudança do desfile para a Zona Noroeste e o fim das grandes bandas na praia, curte a folia apenas quem realmente gosta. Se a pessoa quiser relaxar, ela nem lembra que Santos ainda tem Carnaval", ressalta.
A rede hoteleira da Cidade, por exemplo, apresenta - neste ano - uma taxa de ocupação de apenas 58,4% nesta época, de acordo com levantamento realizado pelo Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (SinHoRes), conforme dados até a última quarta-feira (15). Se juntar as três cidades da região com maior movimentação hoteleira- Santos, São Vicente e Guarujá - a taxa sobe para 78,8%, em virtude principalmente de Guarujá.
"Hoje, o grande atrativo na verdade são as praias e a cidade não investe no turismo de lazer, apenas no de negócios. O Carnaval em si não é mais um atrativo. Os cruzeiros, com preços cada vez mais acessíveis, se transformaram também no principal concorrente", ressalta o presidente do SinHoRes, José Lopez Rodrigues.
Para o presidente do Santos e Região Convention & Visitors Bureau, Luiz Dias Guimarães, pesquisas demonstram que os turistas que se hospedam em Santos no Carnaval hoje são pessoas de bom poder aquisitivo, que vêm com a família para curtir o conjunto de atrativos que a cidade oferece: praia com boa gastronomia, shoppings e centro histórico.
"Santos enquadra-se hoje no modelo de destino que atrai pela infraestrutura e atrações independentes do Carnaval. Como muitos outros destinos nacionais e internacionais. Penso que podemos investir em atrativos para o período, não necessariamente atrativos carnavalescos. Se bem que os bailes nas tendas e as bandas, que devem ser estimulados, garantem o clima de Carnaval", ressalta.
"Intenção é incentivar o carnaval familiar"
Para a secretária de Turismo de Santos, Wânia Seixas, a intenção do governo - desde o retorno do Carnaval , é torná-lo uma festa familiar, para que as crianças e por que não os adultos voltem a se fantasiar pelas ruas, como já é possível observar no Carnabonde, que acontece há 12 anos e relembra os tradicionais blocos carnavalescos. Realizado no último sábado (11), a festa no Centro reuniu mais de 10 mil pessoas, mesmo embaixo de chuva, e relembrou o bloco das Misses. "As bandas de bairro também estão contribuindo com esta nova folia. A multidão é menor o que não causa tantos problemas de segurança. Não substitui os antigos blocos, mas também é uma brincadeira sadia para quem gosta", acredita.
"É claro que a Cidade não conseguirá viver novamente um Carnaval como foi no passado, afinal estamos em outros tempos e tudo se transforma. A intenção é que a cada ano o Carnaval se consolide como algo familiar e que as pessoas que não curtem a festa também tenham a opção de vir para a Cidade para relaxar e aproveitar as praias e a estrutura que oferecemos", ressalta.
Desfile
O primeiro passo, segundo Wania, era conseguir montar uma boa estrutura. Ter um local definitivo para o desfile. Neste mesmo ritmo encontravam-se as escolas de samba - que já foram consideradas entre as melhores do País - mas que precisavam se reafirmar. "O próximo passo agora é trabalhar o marketing disso tudo para atrair os turistas. Em pesquisas que realizamos nos dias de desfile, os turistas já estão presentes, mas ainda é pouco. A maioria vem por conta de outros motivos. E queremos que o desfile seja também um atrativo", acrescenta.
Para Luiz Guimarães, o Carnaval em Santos já evoluiu nos últimos anos. "É possível que com a construção da infraestrutura fixa (sambódromo) na Zona Noroeste o interesse do público visitante cresça. A própria retomada dos desfiles de carnaval santista ocorreu há pouco tempo e as escolas de samba ainda estão se reestruturando. A tendência, segundo Guimarães, é que com o passar do tempo elas ofereçam um espetáculo cada vez melhor e portanto mais atrativo para o público de fora.
"O Carnaval era uma verdadeira brincadeira"
René Ruas e Marcello Laranja são dois santistas - que como muitos - viveram e curtiram o carnaval nos seus tempos gloriosos. Autor do livro Cuíca no Velório - Samba de Arrelia e Arrabaldes, René lembra dos blocos e brincadeiras durante este período. Participou dos desfiles de carnaval como passista da Império do Samba, baliza da Embaixada de Santa Tereza. "Lembro dos testes que fazíamos para sermos aceitos nas escolas. Era uma brincadeira séria e que todos faziam com muita paixão", ressalta. Relembra também dos blocos de rua, Doroteia, Bloco do Boi - e tantos outros - além das disputas de confete e os bailes de salão.
"Hoje os tempos são outros. Já não existe um Carnaval forte, com brincadeiras saudáveis. Existe um apelo sexual muito forte. Mas não gosto de ser saudosista. Acredito que estamos vivendo uma outra época e que a cidade está começando a achar um caminho, como o Carnabonde. Vou todos os anos, mas nesta edição, já comecei a ficar preocupado. Os jovens já estão começando a exagerar", diz. As tendas, segundo os dois, também são uma boa opção da prefeitura, que inclusive "oferece espaço para artistas locais, o que é algo importante".
Para eles, muitas coisas mudaram, principalmente os próprios foliões. "Saíamos pelas ruas de Santos com uma energia muito boa. Um contagiava o outro com sua felicidade. O que reinava eram as brincadeiras. Pelas ruas confetes e serpentinas. Mas os tempos mudaram. O lança-perfume, por exemplo, na época era utilizado pelas crianças para manchar a fantasia de quem passava atrás dos blocos. Hoje é utilizado como droga", ressalta Marcello Laranja, presidente do Clube de Choro de Santos. A principal característica, segundo Laranja, era a criatividade, que reinava nas ruas e "já não se vê mais há muito tempo, antes mesmo do término no governo do Beto Mansur (quando os desfiles foram interrompidos)".
O fim do bloco da Doroteia, por exemplo - como acredita os dois - não teve como culpados a polícia ou o governo, como se dizia na época, mas os próprios foliões que acabaram com a festa, que se tornava a cada ano mais vulgar e violenta. "Chegou uma hora que a única coisa a fazer era acabar com o bloco, mesmo sendo um dos mais tradicionais da Cidade. Aliás, tudo ficou mais violento e diferente. Até as músicas, antes marchinhas, deram lugar ao banal", ressalta Marcello. "Hoje já não pulo Carnaval, pois como tenho um problema físico, fico com receio da violência e das multidões".
Considerado, no passado, como um dos melhores carnavais do País, a folia santista vive um momento de renovação e crescimento. Nos últimos anos, a cidade tenta formar uma nova identidade para transformar o Carnaval novamente em um atrativo turístico.
No século passado, milhares de santistas, misturados a outros milhares de turistas, curtiam juntos a festa. Pelas ruas, serpentinas, confetes e muita alegria. Os foliões saiam de suas casas fantasiados em grandes e também pequenos grupos. Blocos históricos e tradicionais desfilavam pela ruas ao som das famosas marchinhas carnavalescas.
A festa feita por blocos, choros, cordões, ranchos e, mais tarde, pelas escolas de samba, porém, foi ganhando novas caras, assim como aconteceu em muitas cidades. As escolas de samba, que começaram a surgir em 1939, tiveram o desfile interrompido em 2001, na época considerado melhor que o da Capital, e voltou apenas em 2005.
Para se ter ideia, hoje – segundo o corretor de imóveis, Alexandre Badú, que aluga apartamentos mobiliados para temporada, a procura por Santos aumenta a cada ano, porém a intenção de quem vem no período da folia é o contrário de outrora. “Conversando com meus clientes, notei que a maioria escolhe Santos como destino para fugir da loucura do Carnaval. Com a mudança do desfile para a Zona Noroeste e o fim das grandes bandas na praia, curte a folia apenas quem realmente gosta. Se a pessoa quiser relaxar, ela nem lembra que Santos ainda tem Carnaval”, ressalta.
A rede hoteleira da Cidade, por exemplo, apresenta – neste ano – uma taxa de ocupação de apenas 58,4% nesta época, de acordo com levantamento realizado pelo Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares da Baixada Santista e Vale do Ribeira (SinHoRes), conforme dados até a última quarta-feira (15). Se juntar as três cidades da região com maior movimentação hoteleira- Santos, São Vicente e Guarujá – a taxa sobe para 78,8%, em virtude principalmente de Guarujá.
“Hoje, o grande atrativo na verdade são as praias e a cidade não investe no turismo de lazer, apenas no de negócios. O Carnaval em si não é mais um atrativo. Os cruzeiros, com preços cada vez mais acessíveis, se transformaram também no principal concorrente”, ressalta o presidente do SinHoRes, José Lopez Rodrigues.
Para o presidente do Santos e Região Convention & Visitors Bureau, Luiz Dias Guimarães, pesquisas demonstram que os turistas que se hospedam em Santos no Carnaval hoje são pessoas de bom poder aquisitivo, que vêm com a família para curtir o conjunto de atrativos que a cidade oferece: praia com boa gastronomia, shoppings e centro histórico.
“Santos enquadra-se hoje no modelo de destino que atrai pela infraestrutura e atrações independentes do Carnaval. Como muitos outros destinos nacionais e internacionais. Penso que podemos investir em atrativos para o período, não necessariamente atrativos carnavalescos. Se bem que os bailes nas tendas e as bandas, que devem ser estimulados, garantem o clima de Carnaval”, ressalta.
“Intenção é incentivar o carnaval familiar”
Para a secretária de Turismo de Santos, Wânia Seixas, a intenção do governo – desde o retorno do Carnaval , é torná-lo uma festa familiar, para que as crianças e por que não os adultos voltem a se fantasiar pelas ruas, como já é possível observar no Carnabonde, que acontece há 12 anos e relembra os tradicionais blocos carnavalescos. Realizado no último sábado (11), a festa no Centro reuniu mais de 10 mil pessoas, mesmo embaixo de chuva, e relembrou o bloco das Misses. “As bandas de bairro também estão contribuindo com esta nova folia. A multidão é menor o que não causa tantos problemas de segurança. Não substitui os antigos blocos, mas também é uma brincadeira sadia para quem gosta”, acredita.
“É claro que a Cidade não conseguirá viver novamente um Carnaval como foi no passado, afinal estamos em outros tempos e tudo se transforma. A intenção é que a cada ano o Carnaval se consolide como algo familiar e que as pessoas que não curtem a festa também tenham a opção de vir para a Cidade para relaxar e aproveitar as praias e a estrutura que oferecemos”, ressalta.
Desfile
O primeiro passo, segundo Wania, era conseguir montar uma boa estrutura. Ter um local definitivo para o desfile. Neste mesmo ritmo encontravam-se as escolas de samba – que já foram consideradas entre as melhores do País – mas que precisavam se reafirmar. “O próximo passo agora é trabalhar o marketing disso tudo para atrair os turistas. Em pesquisas que realizamos nos dias de desfile, os turistas já estão presentes, mas ainda é pouco. A maioria vem por conta de outros motivos. E queremos que o desfile seja também um atrativo”, acrescenta.
Para Luiz Guimarães, o Carnaval em Santos já evoluiu nos últimos anos. “É possível que com a construção da infraestrutura fixa (sambódromo) na Zona Noroeste o interesse do público visitante cresça. A própria retomada dos desfiles de carnaval santista ocorreu há pouco tempo e as escolas de samba ainda estão se reestruturando. A tendência, segundo Guimarães, é que com o passar do tempo elas ofereçam um espetáculo cada vez melhor e portanto mais atrativo para o público de fora.
“O Carnaval era uma verdadeira brincadeira”
René Ruas e Marcello Laranja são dois santistas – que como muitos – viveram e curtiram o carnaval nos seus tempos gloriosos. Autor do livro Cuíca no Velório – Samba de Arrelia e Arrabaldes, René lembra dos blocos e brincadeiras durante este período. Participou dos desfiles de carnaval como passista da Império do Samba, baliza da Embaixada de Santa Tereza. “Lembro dos testes que fazíamos para sermos aceitos nas escolas. Era uma brincadeira séria e que todos faziam com muita paixão”, ressalta. Relembra também dos blocos de rua, Doroteia, Bloco do Boi – e tantos outros – além das disputas de confete e os bailes de salão.
“Hoje os tempos são outros. Já não existe um Carnaval forte, com brincadeiras saudáveis. Existe um apelo sexual muito forte. Mas não gosto de ser saudosista. Acredito que estamos vivendo uma outra época e que a cidade está começando a achar um caminho, como o Carnabonde. Vou todos os anos, mas nesta edição, já comecei a ficar preocupado. Os jovens já estão começando a exagerar”, diz. As tendas, segundo os dois, também são uma boa opção da prefeitura, que inclusive “oferece espaço para artistas locais, o que é algo importante”.
Para eles, muitas coisas mudaram, principalmente os próprios foliões. “Saíamos pelas ruas de Santos com uma energia muito boa. Um contagiava o outro com sua felicidade. O que reinava eram as brincadeiras. Pelas ruas confetes e serpentinas. Mas os tempos mudaram. O lança-perfume, por exemplo, na época era utilizado pelas crianças para manchar a fantasia de quem passava atrás dos blocos. Hoje é utilizado como droga”, ressalta Marcello Laranja, presidente do Clube de Choro de Santos. A principal característica, segundo Laranja, era a criatividade, que reinava nas ruas e “já não se vê mais há muito tempo, antes mesmo do término no governo do Beto Mansur (quando os desfiles foram interrompidos)”.
O fim do bloco da Doroteia, por exemplo – como acredita os dois – não teve como culpados a polícia ou o governo, como se dizia na época, mas os próprios foliões que acabaram com a festa, que se tornava a cada ano mais vulgar e violenta. “Chegou uma hora que a única coisa a fazer era acabar com o bloco, mesmo sendo um dos mais tradicionais da Cidade. Aliás, tudo ficou mais violento e diferente. Até as músicas, antes marchinhas, deram lugar ao banal”, ressalta Marcello. “Hoje já não pulo Carnaval, pois como tenho um problema físico, fico com receio da violência e das multidões”.